1. Retomando a conversa.

Vimos, no último texto, como Tomás coloca o debate sobre os cinco sentidos externos. A partir da hipótese inicial de que eles não se reduzem a cinco, são trazidos alguns argumentos que parecem tornar clara a intuição de que a sua enumeração não é tão simples. Agora, examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás, sempre com esta noção de que a ciência que ele conhecia é bem limitada, com relação à nossa.

Sabemos, hoje, por exemplo, que os nervos responsáveis pelo tato são muito especializados, e são diferentes para cada tipo de estímulo. Há nervos para sentir a pressão sobre a pele, há nervos para sentir o calor, e assim por diante. Também sabemos que a visão envolve a recepção de luz pelos olhos, e este processo nos é muito mais evidente do que era no tempo de Tomás. Mas prossigamos, examinando sua resposta sintetizadora.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

O fundamento para a distinção dos sentidos.

Qual o critério para estabelecer que um sentido é diferente de outro, qual a razão de dizer quantos sentidos existem? É com esta investigação que Tomás nos introduz na sua resposta.

Existem várias tentativas de responder estas perguntas, diz Tomás.

Alguns afirmaram que os sentidos se distinguem por sua composição: alguns têm uma estrutura aquosa, como o paladar, ou mais sólida, como o tato, ou ainda mais seca, como o olfato; assim, a primeira classificação envolvia a própria estrutura dos órgãos dos sentidos: cada um seria estruturado com a predominância de determinados elementos, e por isto seriam distintos.

Outra corrente queria classificar os sentidos a partir do meio pelo qual eles recebem suas sensações: a luz, para a visão, as superfícies sólidas, para o tato, o ar para a audição e assim por diante.

Uma terceira corrente pretendia classificar os sentidos a partir da natureza dos estímulos recebidos. Estímulos simples, como o som, ou complexos, como as sensações que estimulam o tato, seriam o fundamento para a distinção entre os sentidos.

A análise de Tomás.

Mas não são estes os fundamentos para a distinção entre os sentidos, diz Tomás. Na verdade, ele acredita que estas buscas tomam o caminho errado.

As coisas ocorrem justamente ao contrário, diz Tomás. Não são as potências que existem para os órgãos, como se, por exemplo, a capacidade de ver existisse por causa dos olhos. São os olhos que existem por causa da capacidade de ver.

Assim, não é pela contagem dos aparelhos corporais, dos órgãos dos sentidos, que determinaremos quantas potências há na alma; ao contrário, é determinando quantas potências há na alma que entenderemos os órgãos dos sentidos e suas funções. Por isto, aquela primeira posição, que enumera os sentidos pela estrutura dos respectivos órgãos, não é determinante para descobrir quantos sentidos existem. Sem dúvida, identificar e estudar os órgãos dos sentidos nos dá uma boa pista acerca da natureza das potências sensoriais da alma; mas não as determina. Ocorre justamente o contrário: são as potências da alma que determinam os órgãos dos sentidos.

Tampouco podemos determinar quantos sentidos há apenas estudando os meios pelos quais eles recebem seus estímulos. Não é porque algum órgão depende da luz, ao passo que outro depende da água e outro ainda do ar que os sentidos se distinguem e estabelecem. Mais uma vez, trata-se de confundir aquilo que é apenas um indício, um indicativo, com aquilo que é o fundamento mesmo da existência da diversidade de potências sensoriais.

Por fim, não seria razoável que os sentidos fossem diversificados por causa da natureza dos estímulos recebidos. Ora, cabe aos sentidos receber os estímulos, não descobrir sua natureza. Os olhos veem a luz, mas não cabe aos olhos investigar qual a natureza da luz mesma. Com meus olhos, contemplo a paisagem, mas não é próprio do olhar descobrir que a luz é composta de diversos comprimentos de onda; a audição serve para ouvir, não para investigar a frequência ondulatória de alguma nota musical.

Colocados estes debates preliminares, é hora de investigar diretamente a natureza dos sentidos. De fato, o que determina a quantidade e a natureza dos sentidos são as respectivas potências sensoriais. Em suma, há os órgãos da visão porque somos capazes de ver. Os órgãos corporais existem por causa das capacidades humanas; e é por isto que, suprimidos os órgãos, as capacidades permanecem, e podemos voltar a exercê-las por meio de órteses ou próteses.

Mas por que há tantos sentidos? O que determina a diversidade dos sentidos é o objeto da respectiva potência, diz Tomás. As potências sensoriais são fundamentalmente passivas, isto é, elas são receptoras dos estímulos externos. Assim, os objetos sensíveis próprios alteram os órgãos dos sentidos, estimulando-os e produzindo as impressões e sensações que recebemos.

Os estímulos e os sentidos.

Por isto, nossos sentidos são proporcionados aos respectivos estímulos. As vibrações rítmicas do ar são recebidas pelos ouvidos como sons, como as vibrações energéticas da luz estimulam os olhos como cores. As superfícies, sua consistência e temperatura, podem estimular a pele, por meio do tato, enquanto a composição química das substâncias nos são conhecidas como aromas e sabores.

Tomás analisa estas capacidades a partir da ciência que possuía em seu tempo. Os cientistas de então percebiam que determinados órgãos dos sentidos eram estimulados diretamente pelas coisas, provocando-se neles uma verdadeira alteração fisicamente perceptível.

Agora veremos Tomás avaliar a operação dos sentidos a partir da ciência do seu tempo. E, com os dados daquela ciência, ele afirma que há duas maneiras pelas quais os estímulos externos afetam os sentidos: a maneira “natural” ou material e a maneira “espiritual” ou imaterial. Hoje, sabemos que há uma relação material entre o estímulo e os órgãos dos sentidos, mas no tempo de Tomás esta informação não existia. Em todo caso, vale a pena examinar suas intuições, porque ainda são válidas em algum grau, e instrutivas para nós.

Tomás diz que os estímulos podem atingir os sentidos de forma “natural’, quando afetam fisicamente os sentidos por suas propriedades naturais. Assim, quando sentimos, pelo tato, que alguma coisa está quente, este estímulo atinge o tato aquecendo-o: o mesmo calor que está no objeto observado passa, de maneira natural, para a pele. Quer dizer, o calor que percebemos é efeito do aquecimento que nossa pele sofre, e é efeito natural do calor aquecer aquilo que adentra sua zona de influência. Vale dizer, o calor é percebido porque aquele a nossa pele.

Mas, no caso dos outros estímulos, diz Tomás, existe uma transferência de informações que não envolve a causação de efeitos físicos naturais, em nós, pelo estímulo. A este modo de percepção, em que a informação é recebida sem alterar o órgão, Tomás chama de maneira “espiritual” de percepção. O exemplo que ele dá é o seguinte: a pele sente o calor ficando quente, mas o olho não percebe a cor ficando colorido. Assim, apenas a informação da cor, sua forma intencional é percebida pelo olho, sem efeitos físicos naturais no olho. Vejo a cor, conheço a cor, mas não me torno colorido.

Hoje, sabemos que há receptores biológicos nos olhos capazes de receber a luz e percebê-la, traduzindo-a em informações neurológicas e enviando-as para o cérebro. Isto não muda o fato de que, de fato, os órgãos dos sentidos mais delicados, capazes de perceber os estímulos mais sutis, mais profundamente energéticos, são os olhos. Guardemos esta informação, porque ela será necessária para acompanharmos as conclusões de Tomás.

Em todo caso, prossegue ele, há sempre uma percepção “espiritual” em todos os órgãos dos sentidos. Mesmo o tato, que demanda um contato físico com a coisa percebida, é capaz de extrair dela suas informações, convertendo-as em impulsos nervosos a serem interpretados pelo cérebro. Se a sensibilidade fosse limitada apenas ao estímulo do objeto no sujeito, então mesmo as coisas inanimadas teriam sentidos, porque existe o contato físico, mesmo no mundo inanimado. A luz, o som, o calor, tudo isto se projeta sobre as coisas inanimadas, mas elas não são capazes de interpretá-las como informações, ou seja, não são capazes de recebê-las como formas inteligíveis (intencionais); vale dizer, toda sensação é composta de estímulo e interpretação.

Ora, diz Tomás, dentre os órgãos, apenas a visão, diz Tomás, é capaz de receber estímulos sem nenhum tipo de contato ou alteração física; não há alteração física da parte do objeto, que apenas resplandece na luz, nem na parte do sujeito, que percebe as suas cores (o que, como sabemos hoje, não é bem assim). Mas, de fato, trata-se, aqui, da interação mais sutil, mais puramente energética, e, por isto, mais imaterial, mais espiritual, dentre todas as potências sensoriais humanas.

Em comparação com a visão, temos a audição. A produção de sons requer uma mudança por parte do objeto, algum tipo de percussão ou movimento que faça vibrar o ar, transmitindo ruído. Mas não há alteração natural, física, no respectivo órgão, que é o ouvido, já que o ouvido não se torna, ele mesmo, ruidoso por causa da percepção do som. A audição seria, assim, natural por parte do objeto e espiritual por parte do sujeito (também aqui sabemos que não é bem assim, pois há a vibração no ouvido que leva à percepção do som). A audição seria, pois, diz Tomás, um pouco menos sutil do que a visão.

O aroma, que estimula o olfato, também pressupõe uma alteração natural no corpo que emite o odor, mas não haveria modificação por parte do órgão do olfato. Por fim, no caso do tato e do paladar, que pressupõem um contato físico entre o corpo percebido e o respectivo órgão do sentido, há modificação física tanto no corpo que emite o estímulo quanto no respectivo órgão dos sentidos.

Assim, Tomás faz uma classificação dos sentidos, com base naquilo que ele acredita ser mais “espiritual” ou mais “material”, por parte do objeto e por parte do sujeito, isto é, considerando a modificação física no objeto que emite o estímulo e no órgão dos sentidos do sujeito que os recebe. Seria assim:

1. A visão é o mais “espiritual” dos sentidos. De fato, diz Tomás, o objeto visto não sofre nenhuma alteração, nem lança fora de si nenhuma matéria, para ser visto. Da parte do sujeito, não é preciso nenhum contato físico entre os olhos e o objeto da visão; percebemos, então, as cores em sua razão espiritual, não física.

2. A audição eu olfato seriam sentidos intermediários. Aqui, há uma modificação física por parte do objeto (que vibra, produzindo ruído, no caso da audição, ou que emite partículas aromáticas, no caso do olfato), mas não há alteração física no sujeito; os estímulos são percebidos, também, formalmente, isto é, de modo abstrato, espiritual.

3. Por fim, o paladar e o tato caracterizam-se pela necessidade de contato físico entre o corpo que produz o estímulo e o respectivo órgão dos sentidos. Assim, para Tomás, estes seriam os mais físicos, os mais materiais e elementares dentre os sentidos. Os outros três sentidos não pressupõem este contato físico entre o órgão e o corpo que é fonte do estímulo.

3. Encerrando.

O exame das respostas aos argumentos objetores iniciais enriquecerá muito nossos conhecimentos. Mas devemos lembrar, mais uma vez, que Tomás respeita a ciência do seu tempo, e por isto suas conclusões parecem ultrapassadas. Não o são de todo: ele nos apresenta uma análise muito interessante sobre a relação entre o estímulo e o sujeito que ainda pode nos ensinar muito. Lembremo-nos de que nosso conhecimento intelectual repousa integralmente na nossa capacidade sensorial, porque nada há no intelecto humano que não tenha passado antes pelos sentidos. São estas potências, portanto, que nos tornam diferentes dos anjos.