1. Introdução.

Somos entes humanos. Cada um de nós. Esta unidade, este ser uno, mas complexo, que somos nós, tem uma base que compartilha com os vegetais, e já vimos isto no artigo anterior. Examinaremos agora aquilo que nos equipara aos animais, a nossa sensibilidade. De fato, é a nossa base biológica e a nossa base sensorial que nos torna criaturas únicas, animais angelicais; em nós, que somos a riqueza do mundo material, cumpre-se aquilo que Tomás citou no artigo anterior, citando o Pseudo-Dionísio: aquilo que é o mais elevado, numa ordem inferior, aproxima-se daquilo que é inferior na ordem subsequente. Assim somos nós, em comparação com os anjos; como diz o Salmo 8, 6, fomos feitos pouco menores que um anjo. Somos os seres mais complexos, mais perfeitos, do mundo material. Aproximamo-nos, assim, do limite inferior do mundo espiritual: mesmo o anjo mais simples é mais perfeito do que nós, em sua inteligência e em sua vontade.

Dizer que somos a riqueza do mundo material significa reconhecer que trazemos em nós a mesma matéria que compõe os seres inanimados, as mesmas funções que regem os vegetais e as mesmas potências dos animais desprovidos de espírito. Tudo isto acrescido das potências intelectivas. Mas significa reconhecer, também, que nosso pecado tem consequências devastadoras para toda a criação material. Como diz a Carta aos Romanos, 8, 19-22, também a criação, a natureza em geral, geme e chora pela consequência dos nossos pecados, esperando a nossa redenção final, que será a sua redenção. Somos a glória da criação, o ápice do mundo material; mas também somos a origem do seu desequilíbrio.

Mas deixemos de digressões. Vamos aos debates sobre os sentidos humanos.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida, para provocar o debate, é a de que não temos somente cinco sentidos externos, mas eles são de um número muito maior. Ou seja, parece que é inconveniente dizer que os nossos sentidos externos limitam-se a cinco, declara esta hipótese. Existem quatro argumentos objetores iniciais, que defendem esta hipótese. Visitemo-los.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Pelos sentidos, diz o argumento, nós percebemos os acidentes das coisas com que nos relacionamos. De fato, percebemos as cores, os sons, os cheiros, as texturas e os sabores; mas todos estes aspectos são acidentais; não pertencem à substância mesma das coisas que nos chegam pelos sentidos.

Os sentidos se distinguem pelo objeto, isto é, pelo tipo de estímulo que é adequado aos seus respectivos órgãos. Os objetos dos sentidos, portanto, são os acidentes das coisas.

Ora, se há diversos gêneros de acidentes (Aristóteles fala em nove deles, mas seu número varia em outros filósofos), devem existir tantos sentidos quanto haja acidentes; logo, eles não podem ser apenas cinco, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lembra que os objetos da sensibilidade humana, aquilo que Aristóteles chama de “sensíveis”, ou aspectos dos entes que podem ser atingidos por nossos sentidos, dividem-se em três grupos: os sensíveis próprios, os sensíveis comuns e os sensíveis por acidente. Os sensíveis próprios são aqueles acidentes que atingem diretamente os sentidos, como a luz, o som e o cheiro. Sensíveis comuns podem ser atingidos pelos sentidos, mas indiretamente; são os formatos, o tamanho e características semelhantes. Por fim, os sensíveis por acidente são aquelas informações que chegam indiretamente, por meio de outro tipo de informação associada. Por exemplo, ao vermos um metal que apresenta uma coloração vermelha intensa e brilhante, por meio deste dado visual deduzimos que ele deve estar muito quente. Este calor não é percebido pelos olhos, mas pode ser deduzido do aspecto da coisa observada. É, portanto, algo sensível por acidente.

O argumento prossegue, afirmando que o conjunto dos sensíveis comuns se estabelece em oposição ao conjunto dos sensíveis por acidente, de tal modo que os elementos de um dos conjuntos nunca será elemento do outro. Conhecer o formato, o tamanho ou o movimento de alguma coisa, pela combinação de informações sensoriais, mostra que estes aspectos são sensíveis comuns, ao tempo que conhecer a temperatura pelo aspecto visual demonstra que esta informação é um sensível por acidente.

Ora, prossegue o argumento, os sentidos se diferenciam pela diferença entre os objetos, como vimos na objeção anterior. Mas há mais diferença entre o formato e o tamanho de alguma coisa, por um lado, e a sua cor, por outro, do que a diferença que há entre a cor e o som, por exemplo. Portanto, se a diferença entre a cor e o som determina que haja um sentido externo diferente e adequado a cada um desses sensíveis, então o formato e o tamanho devem determinar a existência de outros sentidos externos adequados a eles; portanto, devem existir mais sentidos externos do que os cinco sentidos clássicos, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento nota que o sensível próprio de cada sentido sempre envolve um par de contrários. Os olhos lidam com a luz e a escuridão, os ouvidos, com o silêncio e o ruído, e assim por diante. Mas ao tato se atribui um conjunto muito maior de sensíveis, de pares de contrários. Assim, o tato lida com o quente e o frio, com o seco e o úmido, com o áspero e o liso e assim por diante. Assim, o argumento afirma que o tato não é apenas um único sentido, mas um conjunto de sentidos com múltiplas capacidades; logo, há mais de cinco sentidos, conclui o argumento.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento vai na direção oposta ao terceiro argumento. Se no terceiro argumento a conclusão é de que o tato representa um conjunto de múltiplos sentidos, aqui o raciocínio é de que, no fundo, o paladar seria uma espécie de tato. Assim, o tato seria um gênero que incluiria, entre outras coisas, o paladar, que seria apenas uma espécie muito peculiar de tato; talvez, inclusive, cada sentido não passe de um tato muito especializado. Portanto, conclui o argumento, o tato explica todos os sentidos, como gênero que os abrange, e os demais sentidos seriam especializações do tato. Haveria, pois, no fundo, apenas um grande sentido, o tato, dividido em especializações capazes de perceber os diversos sensíveis, conclui o argumento.

3. O argumento sed contra.

O argumento sed contra apenas reafirma a autoridade de Aristóteles, que, no livro III da obra “Sobre a Alma”, afirma que os sentidos são cinco. E, apoiado na autoridade de Aristóteles, o argumento reafirma que há cinco sentidos externos, no ser humano.

4. Palavras de encerramento.

Como veremos adiante, Tomás fundamenta sua análise dos sentidos em duas fontes fundamentais: a filosofia aristotélica e a ciência do seu tempo. Assim, grande parte do que ele diz encontra-se muito defasado, diante do desenvolvimento da ciência nestes 800 anos desde que ele escreveu a Suma. Suas intuições, no entanto, continuam a nos ensinar, e merecem atenção.