1. Retomando.
Vimos, então, no último texto, não somente a reafirmação de que as potências vegetativas são mesmo a nutrição, o crescimento e a reprodução, como vimos também a hierarquia entre elas, com a superioridade da função generativa sobre as outras. Agora veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento afirma que a geração, a manutenção na existência e a geração de novos entes, com a transmissão da species, são fenômenos naturais, ou seja, podem ser explicados por causas materiais ou físicas, sendo desnecessário pleitear que elas são potências da alma. Logo, diz o argumento, não se pode considerar estes fenômenos como relacionados com a vida.
A resposta de Tomás.
Não há dúvida de que manter-se na existência, crescer e gerar são fenômenos naturais; estão presentes em todos os seres, animados ou inanimados, embora não do mesmo modo. Os seres inanimados também são gerados, mantém-se na existência e crescem, mas não do mesmo modo que os seres vivos. Nos seres vivos, há um dinamismo que leva estas funções a terem uma origem interna, que não existe nos inanimados. Mas isto não significa que, nos seres vivos, estas potências não se exerçam por meios naturais, ou seja, por mecanismos biológicos, físicos e químicos identificáveis e quantificáveis, que são o meio pelo qual a alma, como princípio da vida, exerce suas potências.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento vai examinar especificamente a capacidade de geração. Na mesma linha do primeiro argumento, ela diz que aquelas realidades que são comuns aos entes animados e inanimados não podem ser computados dentre as faculdades próprias das almas, como princípios de vida. Ora, prossegue o argumento, no reino dos seres inanimados há o fenômeno da geração, quando um ser dá origem a outro da mesma espécie, por vários meios. Portanto, conclui o argumento, não se pode considerar que a potência generativa seja uma potência ligada à alma vegetativa, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
O fenômeno da geração está presente nas coisas inanimadas. Isto é um fato, e Tomás o reconhece. Mas a geração das coisas inanimadas tem uma estrutura completamente diferente do mesmo fenômeno, quanto às coisas vivas. Aqui, a geração toma a forma ativa de reprodução, No caso da reprodução, há um processo complexo de formação dos gametas reprodutivos (no tempo de Tomás apenas os gametas masculinos eram conhecidos pela ciência) e de encontro entre eles, para que possa surgir um novo ser. Mesmo quando se trata de reprodução assexuada, há um processo de separação e recombinação genética, de reconstrução de tecidos e órgãos que mostra a distância entre a eventual geração de um ser inanimado, como uma estrela ou um planeta, por um lado, e a geração de um novo ser vivo, por outro. Aqui, há um processo que depende inteiramente do princípio da vida que faz com que a criatura estabeleça e realize esta dinâmica.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento lembra que todas as coisas são formadas de matéria e forma; mas, nos seres vivos, a forma é a alma, que traz em si o princípio da vida, e por isto é superior às simples formas inanimadas, estritamente corporais. Mas as coisas inanimadas trazem em si sua espécie e sua quantidade, apenas pelo exame do seu corpo. Vale dizer, a forma inanimada determina, por si, a própria dimensão da coisa, além de determinar, também, sua espécie. É fácil perceber isto, imaginando, por exemplo, a formação de uma nova estrela: a partir do exame da estrela que se divide, sabemos que surgirá uma nova estrela, e que dimensões ela terá.
Ora, prossegue o argumento, se a forma inanimada das coisas materiais determina, por si mesma, o tipo de origem e as dimensões da coisa, então não precisamos imaginar que a alma precisasse de potências vivas para determinar as mesmas características no ser vivo. Assim, o argumento conclui que o tamanho das coisas vivas é determinada pela própria corporeidade, independentemente da dinâmica da vida, e portanto a potência de crescimento não pode ser considerada como algo pertencente à alma.
A resposta de Tomás.
O próprio processo de reprodução sexuada dos seres vivos, com toda a sua complexidade biológica, pressupõe que os seres gerados sejam de pequena dimensão; eles devem poder caber no ventre do genitor, ou no ovo. Mesmo o processo de reprodução assexuada implica uma grande perda de massa e de estruturas, que determina uma redução brutal de tamanho. Assim, é preciso que o princípio formal vivo, isto é, a alma, traga em si a determinação do tamanho que o ente adquirirá, quando tiver atingido a sua maturidade. No caso dos entes inanimados, o tamanho é determinado por outros fatores, externos ao ente e desprovidos de dinâmica: a quantidade de material, as forças gravitacionais, a espécie da coisa, e assim por diante. Por isto é que, nos seres vivos, falamos de uma “potência para o crescimento” como uma dinâmica viva, vegetativa. E que ela é vegetativa podemos constatar até pelo fato de que um ser humano que esteja em fase de crescimento pode continuar crescendo mesmo se perder as suas funções sensitivas e cognitivas, em razão, por exemplo, de um coma profundo. Assim, a potência do crescimento, nos seres vivos, é uma potência da alma.
O quarto argumento objetor.
O terceiro argumento objetor negava que a potência para o crescimento fosse diversa da potência generatriz, ou que fosse mesmo uma potência viva. Este quarto argumento nega a existência de uma potência nutritiva, sob a alegação de que as mesmas forças que colocam o ente na existência são responsáveis por mantê-lo nela, isto é, não existiria nenhuma diferença entre a potência generativa e a nutritiva, no fim das contas, a não ser uma diferença temporal: a potência generativa seria uma espécie de “potência nutritiva inicial”, que faz o ser surgir da matéria por ele assimilada a partir de seus pais ou do entorno, e que o mantém na existência pela assimilação desta matéria ao longo de sua vida. Assim, o argumento conclui que a potência generativa e a potência nutritiva são uma coisa só.
A resposta de Tomás.
Tomás oferece uma resposta muito adequada à ciência do seu tempo, relacionando o calor e a umidade como a dinâmica básica da vida, a ser mantida pela assimilação do alimento – que é um processo vegetativo. Hoje, diríamos simplesmente que a virtude da geração sempre aponta o ser para gerar um outro ser, enquanto a função nutricional possibilita que ele próprio se mantenha na existência. Assim, o fim das duas potências é distinto. A potência de nutrir-se, diz Tomás, é pressuposto da capacidade de crescer e de reproduzir-se: sem capacidade de digerir e assimilar o alimento, o ente vivo não pode crescer nem reproduzir-se. É, portanto, muito simples perceber que são potências diversas entre si.
3. Conclusão.
Estas potências, as vegetativas, estão na base de todo o processo de vida, e, portanto, interessam a Tomás na sua Suma Teológica, porque integram o ser humano e permitem que ele exerça suas funções mais elevadas, o de conhecer e amar a Deus. Mas o estudo delas em separado, como fazemos aqui, não nos pode levar a esquecer de que são potências propriamente humanas; para o ser humano, nutrir-se não é, simplesmente, digerir algo, mas alimentar-se adequadamente. Crescer não é simplesmente crescer, mas aperfeiçoar-se espiritualmente. E, por fim, reproduzir-se não é simplesmente dar origem a uma nova vida, mas constituir família, com tudo que isto representa. Inclusive o fato de que as famílias trazem ao mundo os novos filhos de Deus.
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