1. Retomando o assunto.
No último texto, vimos a hipótese de que o conjunto das potências vegetativas não envolveria três potências, a saber, a potência generativa ou reprodutiva, a potência nutritiva e a aumentativa ou de crescimento. Vimos, também, os quatro argumentos objetores iniciais, que, fundamentalmente, partem da ideia de que estas potências ou capacidades também existem entre os seres inanimados, ou estão relacionadas exclusivamente à dimensão corporal dos entes, e não poderiam ser descritas adequadamente como potências da alma, isto é, operações relacionadas com a vida.
Colocados os termos do debate, passamos a estudar a resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
São Tomás não hesitará em confirmar que são realmente três as funções ou potências vegetativas da vida humana, ou da “alma vegetativa” que compartilhamos com todos os seres vivos. E explicará cada uma, fazendo uso da analogia para explicar que, embora certas realidades inanimadas apresentem algumas características que poderiam ser confundidas com fenômenos vivos.
Uma pequena digressão: diante de fenômenos inanimados que poderiam ser confundidos com potências vivas, Tomás não cai no equívoco em que alguns dos pensadores do nosso tempo caíram; alguns, hoje, vendo analogia entre funções vitais e certos fenômenos das coisas inanimadas, acreditam que estes fenômenos apresentam-se univocamente no reino inanimado e no reino das coisas vivas, e concluem que tudo, mesmo as realidades animadas, têm vida. Tomás sabe que a analogia explica os graus de perfeição dos entes criados, e que, de fato, há uma vida onipresente na Criação, mas não é uma vida criada, mas a vida de Deus mesmo. A chave, portanto, é a analogia: sabemos que fenômenos semelhantes podem ser comparados, mas não por univocidade, nem por semelhança na equivocidade, mas por analogia, pela qual se vê uma proporção, sem deixar de reconhecer que as dessemelhanças são maiores que as semelhanças. Feitas estas observações, retomemos o texto de Tomás.
As funções ou operações das potências vegetativas.
A vida, em seu grau mais simples, caracteriza-se por três funções, operações ou potências fundamentais, compartilhadas por todos os seres vivos: a geração, pela qual o ser entra na existência, a nutrição, pela qual ele se mantém nela, e o crescimento, pelo qual ele adquire as dimensões corporais adequadas à sua espécie e idade.
Estas três funções vegetativas são dirigidas, portanto, ao próprio ente em sua corporeidade. Ou seja, o objeto das potências vegetativas é o ente mesmo, em sua concretude corporal, que o faz existir e o insere nalgum ponto do tempo e do espaço.
Estas potências, então, são a vida manifestando-se no corpo, na solidez da existência corporal do ser vivo. O ser vivo entra na existência ao manifestar corporeidade, pela geração. Mantém-se na existência pela nutrição e alcança a maturidade pelo crescimento. Há, portanto, nestas potências, uma intensa correlação entre a alma, como princípio da vida, e o corpo, como lugar da vida.
A hierarquia das potências vegetativas.
Há, dentre as potências vegetativas, uma verdadeira hierarquia, que parte do mais interno ao mais externo. Desde o existir, ou seja, ocupar seu lugar na criação, até o fim, que é sempre e em última instância, aperfeiçoar-se para aproximar-se, ao máximo, do que Deus colocou de perfeição naquela species.
De fato, em primeiro lugar, está a nutrição. Nutrir-se é uma dinâmica intrínseca, embora já envolva alguma relação com o mundo externo. De fato, trata-se da dinâmica pela qual o ente, por seu dinamismo vivo, assimila em si aquilo que o ambiente lhe oferece para o seu sustento, na forma de água e outras substâncias nutritivas. É um primeiro grau, portanto; envolve não somente a relação do dinamismo da alma com a dimensão do corpo, mas a relação do corpo com algum tipo de nutriente externo a assimilar.
Crescer, por outro lado, é uma força dinâmica e vital, interior, que faz com que o ente venha a adquirir sua maturidade, atingindo o tamanho adequado para sua espécie e idade. É, portanto, uma dinâmica vital que se refere ao próprio ente, no seu próprio corpo, mas coloca-o na ordem cósmica, fazendo-o atingir a plenitude de sua inserção no mundo.
Por fim, a virtude generativa dirige-se à formação de um novo ente, ao qual ele transmitirá sua própria species, perpetuando-a e atualizando-a. Ora, diz Tomás, nenhum ser gera a si mesmo. Assim, embora a potência generativa dirija-se em primeiro lugar ao próprio ente, estruturando seu corpo para viver os mecanismos da transmissão da vida, quer por meios sexuais, quer por meios assexuados, ele não tem um fim no próprio corpo, como as outras potências vegetativas; dirige-se, como fim, à existência de outro ser.
Assim, diz Tomás, a potência generativa é a mais próxima das potências da alma sensível, porque estruturam o corpo tendo como fim principal os outros corpos; apontam para um fim além de si mesmo. Assim, cumpre-se a regra de que aquilo que é mais elevado numa esfera inferior aproxima-se em dignidade daquilo que é próprio de uma esfera superior, criando uma maravilhosa e rica hierarquia do ser entre as criaturas.
A potência generativa é, pois, a mais elevada dentre as vegetativas, porque tende a transmitir a própria bondade do ser a outro ser. Não tem um fim em si mesma. É próprio da bondade transmitir-se, e também nisto encontramos traços da semelhança de Deus nas criaturas. As outras potências vegetativas dirigem-se à generativa e servem-na; vemos um reflexo desta ordem no fato de que, muitas vezes, o ente definha e morre, logo após reproduzir-se.
Porém, a virtude geratriz produz o seu efeito, não no mesmo corpo, mas em outro, pois nenhum ser é gerador de si mesmo. E, por isso, a virtude geratriz se aproxima, de certo modo, em dignidade, da alma sensitiva, cuja operação recai sobre coisas exteriores, embora de modo mais excelente e universal. Pois, o que é supremo, em a natureza inferior, confina com o que é ínfimo, na superior, como se vê em Dionísio. E, portanto, dessas três potências, a que é sobretudo final, principal e perfeita é a geratriz, como já se disse. Pois, é próprio da coisa já perfeita fazer outra semelhante a si. Assim, em conclusão, Tomás nos ensina que a potência nutritiva serve à aumentativa, e esta, à reprodutiva.
3. Palavras de encerramento.
Agora, já adquirimos os fundamentos para reexaminar os argumentos objetores iniciais, com Tomás, para enriquecer a nossa própria visão sobre o assunto. Faremos isto no próximo texto.
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