1. Introdução.

Esta questão 78 estuda as potências humanas que compartilhamos com os outros seres vivos, ou seja, as potências vegetativas e sensoriais. Assim, é uma questão dedicada às nossas capacidades anteriores, ou inferiores, à inteligência. Pareceria deslocado o estudo destas capacidades num tratado teológico, mas isto não é verdade: estamos a examinar o ser humano, e o ser humano, antes de ser inteligente, é um ser vivo, e é um animal. Não é por outra razão que São João Paulo II, o grande Papa, dedicou anos de suas catequeses semanais a uma “teologia do corpo”, que envolvia a sexualidade humana; embora a reprodução seja uma potência vegetativa, compartilhada por todos os seres vivos, e portanto uma potência inferior, a sexualidade humana não é igual à reprodução sexuada dos vegetais ou dos animais. Ela adquire um significado próprio, e surpreendentemente teológico, por envolver o ser humano.

Feita esta digressão, voltemos ao nosso artigo. Trata-se, aqui, de estudar as potências vegetativas de modo acurado e individualizado. Dentro da metodologia própria da Suma, Tomás não procede como um professor dos nossos dias procederia, afirmando uma hipótese que ele quer comprovar. Como já sabemos, a metodologia de Tomás procede de modo inverso: ele introduz uma hipótese que será submetida a forte escrutínio, após apresentar todos os argumentos em seu favor, e conclui com uma sólida argumentação que, normalmente, refuta ou, ao menos, corrige substancialmente a hipótese inicial. Aqui também é assim. Para estabelecer que as potências vegetativas constituem-se das potências nutritiva, de crescimento e reprodutiva, o artigo vai introduzir a hipótese contrária, como veremos a seguir.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida, aqui, propõe simplesmente que não poderíamos dizer que as potências vegetativas são três, a saber, a potência ou capacidade de nutrir-se, a potência de crescer e de a potência de reproduzir-se (ou generativa). A proposta, portanto, é a de provar que estas três capacidades, de nutrição, crescimento e reprodução, não esgotam o conjunto das potências vegetativas.

Há quatro argumentos objetores iniciais, no sentido desta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento diz que estas três capacidades, ou seja, a de nutrir-se, de crescer e de gerar, não resultam de estar vivo, mas são fenômenos naturais, que independem da alma para acontecer. Assim, não são fenômenos relacionados com a vida, mas com a própria existência das coisas. Assim, atribuir estas capacidades à alma, que é o princípio da vida, seria inadequado, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento vai na mesma linha, de provar que determinados fenômenos não são típicos dos seres vivos, e portanto não deveriam estar relacionados à presença do princípio da vida que é a alma.

Aqui, está em discussão o princípio da geração. De fato, os seres vivos podem reproduzir-se, quer por reprodução sexuada, quer por reprodução assexuada. Mas os seres inanimados também são gerados; pensemos, por exemplo, numa enorme rocha que, pela erosão, vai gerando areia, ou um vulcão que dá origem a novos tipos de rocha, ou em vários fenômenos similares (pensemos, por exemplo, numa enorme estrela que se biparte, dando origem a uma nova estrela).

Ora, se a geração de novos seres é algo que ocorre fora do mundo dos seres vivos, então não poderíamos dizer que a geração é uma das potências da alma, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento lembra que a alma e o corpo são os princípios que formam estes seres compostos, mas unos, que são os seres vivos. A alma, no entanto, por ser um princípio ativo e formal de estruturação, é muito mais relevante do que o corpo, em suas funções. Assim, aquelas funções que podem ser explicadas apenas materialmente não devem ser atribuídas à alma, mas ao corpo.

Ora, prossegue o argumento, mesmo nas coisas imateriais, é o corpo que nos revela não só a espécie, ou seja, o tipo de coisa que o ente é, mas também suas dimensões próprias. Vejamos, por exemplo, o caso das formações rochosas, nas cavernas, chamadas de estalagmites e estalactites: elas são compostas de minerais, e apresentam crescimento ao longo do tempo, por acumulação de matéria em seu corpo; a sua geração e seu crescimento são fenômenos estritamente materiais. Assim, as características materiais do corpo são suficientes para explicar a origem e o tamanho, e mesmo o crescimento das coisas. Não se deve, então, atribuir à alma a potência do crescimento, já que a explicação material é suficiente para determiná-lo.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento objetor admite que há potências vivas vegetativas, em especial a potência da geração. Ora, diz o argumento, se eu posso explicar, por uma causa qualquer, a existência de um ente, por meio de sua geração, a mesma causa será suficiente para explicar a sua manutenção na existência. Pensemos numa estrela que, por um fenômeno físico, vem a partir-se em duas, dando origem a uma nova estrela. Ora, esta bipartição explica não só o surgimento da estrela, mas sua existência mesma, já que ela se mantém existindo por conta de todos os processos que recebeu na sua geração. O mesmo se poderia dizer de um vegetal que rompe a semente, ou de um animal que sai do ovo: são os mesmos processos que levam-no a existir e a manter-se na existência. Assim, não deveríamos falar de uma capacidade generativa diversa da capacidade nutritiva, como se uma coisa fosse entrar na existência e outra diversa fosse manter-se nela; assim, não são duas potências diferentes, mas apenas uma, que envolve a geração e a nutrição, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra simplesmente vai citar Aristóteles, que, no livro II da obra “Sobre a Alma”, afirma, sobre a alma vegetativa (incluídas, aí, as funções vegetativas das almas sensoriais e intelectivas) que suas potências são gerar, nutrir-se e crescer.

5. Encerrando.

Determinar as funções vegetativas dos seres vivos continua sendo muito importante. Pensemos nos inúmeros casos de eutanásia, que ocorrem hoje em dia, nos quais simplesmente se nega, a um paciente em estado vegetativo, a nutrição e a hidratação a que ele tem direito. Ora, conforme vemos aqui, isto é provocar a morte deliberada de um ser humano, deixando de prover os meios para que as potências naturais de sua alma possam exercer-se naturalmente. Um ser humano tem, como potência humana, a de manter-se em vida e nutrir-se. Impedi-las é matá-lo.

Além disso, a atividade reprodutiva é vegetativa; isto se evidencia nos casos terríveis, e felizmente raros, em que uma paciente em coma é estuprada e engravida na UTI. Precisamos resgatar, pois, a dignidade humana das atividades vegetativas da alma, para garantir a dignidade integral da pessoa humana.

No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás aos problemas aqui delimitados.