1. Introdução.

Vimos, nas questões anteriores, toda a riqueza das capacidades ou potências humanas. Agora passaremos a estudá-las de modo detalhado e individual, após identificá-las e situá-las neste ente composto em sua unidade que é o ser humano. Neste primeiro artigo, o debate é exatamente sobre estas capacidades e sua classificação. Serão cinco conjuntos de potências, capazes de englobar tudo o que o ser humano faz? É o que veremos neste primeiro debate.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial é a de que não seria possível classificar todas as atividades humanas em cinco conjuntos de potências, ou seja, as potências vegetativas, sensitivas, apetitivas, deambulatórias e intelectivas. Não é preciso ter preocupação sobre a definição de cada um destes conjuntos por enquanto, porque eles serão definidos mais adiante, aqui mesmo neste artigo. Por enquanto, temos quatro argumentos objetores iniciais para examinar.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor afirma que as capacidades ou potências da alma são como esferas de existência que se sobrepõem, formando verdadeiras partes da estrutura da alma; neste sentido, é como se tivéssemos, em nós, uma parte de potências que são comuns com os vegetais (as potências vegetativas), uma parte que compartilhamos também com os animais (as potências sensoriais) e, por fim, uma parte que nos caracteriza como estritamente humanos (as potências intelectivas). Assim, nossas potências classificam-se em três conjuntos, e não em cinco. São eles o conjunto das potências vegetativas, as sensoriais e as intelectivas. Logo, não há cinco, mas apenas três conjuntos de potências na alma humana, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O argumento inicia afirmando que as potências ou capacidades do ser humano são, na sua alma, o princípio de todas as operações vitais, isto é, são o próprio fundamento do fenômeno da vida. É o dinamismo da vida humana, como radicado em sua alma. Mas, prossegue o argumento, Aristóteles, na obra “Sobre a Alma”, ensina que há quatro modos pelos quais as operações humanas se agrupam, para nos revelar a vida que este ser manifesta: o intelecto, os sentidos, a capacidade de movimentar-se, mudando de lugar (ou deambulação) e, finalmente, as atividades vegetativas, como a nutrição e o crescimento. Assim, há apenas quatro grupos de potências, e não cinco, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Àquilo que é comum a todos os conjuntos não se pode atribuir um conjunto separado, diz o argumento. Ora, cada conjunto de capacidades da alma tem seus próprios apetites, lembra o argumento. Por exemplo, as capacidades sensoriais inclinam os desejos humanos para bens sensoriais; é assim que as Escrituras nos ensinam que “A graça e a beleza são atraentes para o olhar; mais do que uma e outra é a vegetação dos campos” (Eclesiástico 40, 22), a indicar que a beleza da harmonia visível é o desejo natural do olhar. E também o olfato deseja aromas agradáveis, como a inteligência anseia por conhecimento. Ora, se cada esfera de potências tem seus próprios desejos, seus próprios apetites, não deveríamos admitir um conjunto separado de potências sob a noção de “potências apetitivas”, conclui o argumento, reduzindo o número de conjuntos a apenas quatro.

O quarto argumento objetor.

O que faz com que um animal se mova de um lugar para o outro é sempre relacionado com sua sensibilidade (seus órgãos do sentido), sua inteligência (se for um animal humano) ou seus apetites (as inclinações que ele experimenta). Ora, se o princípio da movimentação, da deambulação, é alguma das potências relacionadas com algum dos outros conjuntos (vegetativas, sensoriais, intelectivas ou apetitivas), não há sentido em admitir um conjunto separado de potências deambulatórias, como se a capacidade de locomoção fosse algo distinto das outras potências, conclui o argumento, afirmando que há apenas quatro, e não cinco, conjuntos de potências no ser humano.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra citará Aristóteles, ou simplesmente “O Filósofo”, como a Suma costuma tratá-lo, graças à sua autoridade em matéria de filosofia.

Aristóteles, no Livro II da obra “sobre a Alma”, expressamente afirma que classifica as potências humanas em cinco conjuntos: as potências vegetativas, as sensoriais, as apetitivas, a deambulatória ou de movimento local e a intelectiva. Assim, com base nesta autoridade, o argumento conclui que há, de fato, cinco conjuntos de potências, na alma humana.

5. Palavras de encerramento.

Na abertura desta questão, Tomás havia registrado que iríamos estudar todas as potências humanas, dando a cada uma delas uma atenção especial. Mas, dizia ele, para nós cabe dedicar interesse especial àquelas potências que são capazes de aperfeiçoamento ético, como as potências do intelecto e da vontade, e, com elas, os apetites da sensibilidade, ou seja, aquilo que nossos sentidos nos levam a desejar. É isto que nos interessa centralmente, não apenas sob o ponto de vista filosófico, mas também sob a luz da fé, já que o centro da vida cristã é a busca da perfeição sob a graça, para ser mais parecido com Jesus. Ora, no entanto, não somos formados apenas de potências intelectivas ou de inclinações sensoriais, mas, como criaturas do mundo material, somos dotados de potências vegetativas e da capacidade de deambular, quer dizer, de deslocamento espacial. Assim, não poderíamos estudar o ser humano sem levar em conta todo o conjunto de capacidades que o caracterizam, e isto será essencial também para o desenvolvimento de uma ética, isto é, de critérios de aperfeiçoamento pessoal. Quem deixar de evar em conta todas as dimensões humanas desenvolverá, certamente, uma ética parcial ou incompleta, e não correremos este risco. A estrutura da Suma, como a estrutura de toda Catedral sólida e bem construída, tem fundamentos seguros.