1. Retomando.
O ser humano é um ente composto, de tal modo que, mesmo havendo a sobrevivência de sua alma após a morte, como uma estrutura formal espiritual dotada de inteligência e vontade, ela é uma estrutura incompleta, incapaz de realizar seus fins e até mesmo de atualizar a maior parte de suas capacidades por si mesma. O ser humano foi estruturado por Deus, portanto, para ser dependente; sem o corpo, rompe as relações e não pode ser feliz. Isto determina a gravidade da morte e, principalmente, confirma a intuição da Igreja de que ninguém se salva sozinho e a importância da eucaristia, como corpo de Cristo no qual somos integrados e no qual seremos recebidos quando, pela morte, formos privados de nosso próprio corpo. Mas estamos nos adiantando: Tomás não tratará da eucaristia senão num momento muito posterior da Suma. Agora, trata-se de entender o funcionamento das capacidades humanas após a morte.
Visitemos, então, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento cita a obra “De Spiritu et Anima”, um opúsculo de autoria incerta que tinha grande circulação no tempo de Tomás. Ali, o autor afirma que a alma, pela morte, separa-se do corpo, levando consigo os sentidos e a imaginação, ou seja, a memória sensorial, além da capacidade de raciocinar, a inteligência e a vontade, além das paixões irascíveis e concupiscíveis. Disto, o argumento conclui que haveria fundamento para defender que todas as capacidades humanas permanecem atuais na alma separada, após a morte.
A resposta de Tomás.
Tomás não reconhece nenhuma autoridade a esta obra. Assim, não vê razão para segui-la, mesmo porque, segundo ele defende, seus ensinamentos não são consistentes, são superficiais e de pouco valor e, portanto, não podem convencer ninguém.
No entanto, Tomás concede que as capacidades humanas que dependem da matéria para exercer-se, como aquelas relacionadas aos órgãos dos sentidos e à memória e a imaginação permanecem na alma em potência, após a morte, mas não podem ser exercidos pela falta do respectivo aparelho corporal. Vale dizer, o ser humano, após a morte, tem em si, por exemplo, a capacidade de ver, mas não tem mais os órgãos da visão; é incapaz, portanto, de enxergar estímulos sensíveis. As capacidades humanas sobrevivem inteiramente na alma, de modo estritamente potencial, à exceção da inteligência e da vontade, que sobrevivem de modo atual. Somente na ressurreição dos corpos o ser humano receberá de volta, pessoalmente, todas as faculdades que envolvem a corporeidade.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento inicia reafirmando que as capacidades (potências) humanas são propriedades, isto é, acidentes próprios da alma. Ora, acidentes próprios são aqueles que decorrem da própria essência do ser, e, portanto, jamais podem ser desvinculados dele. Assim, se a alma permanece existindo, com identidade, com individualidade, após a morte, então todas as capacidades humanas ficam preservadas nela, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Como já havia dito, apenas as capacidades intelectuais (inteligência e vontade) permanecem em ato na alma separada. As outras capacidades, que são ligadas ao corpo e dependem dele para sua execução, permanecem apenas como potencialidades, sem possibilidade de atualização.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor lembra que as capacidades humanas, mesmo aquelas mais diretamente relacionadas com sistemas corporais, são preservadas na alma, ainda quando o corpo não pode, por algum impedimento circunstancial, realizá-las. Seria, por exemplo, o caso da visão: a idade traz um decaimento das capacidades dos olhos, mas a capacidade potencial humana permanece íntegra na alma, mesmo quando os olhos enfraquecem. A prova disso é que o uso de óculos pode restituir integralmente a visão deficiente. Assim, as capacidades que se debilitam pela debilitação do corpo permanecem sem nenhuma debilidade na alma. Ora, prossegue o argumento, se é assim, mesmo a destruição completa da união entre o corpo e a alma, que é a morte, não pode debilitar as capacidades humanas que estão na alma; portanto, todas as capacidades humanas permanecem na alma separada, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A alma tem, em si, todas as capacidades humanas, inclusive aquelas cujo exercício depende integralmente do coroo, como a visão ou a audição. Mas está impossibilitada de exercê-las, após a morte, por falta dos meios. Portanto, o fato de que estas capacidades permanecem de modo virtual na alma demonstra que, em potência, elas não se debilitam, mas não se tornam mais atuais, efetivas, depois da morte.
Podemos aduzir, como digressão, duas observações aqui:
1. A alma separada possui, em si, todas as potencialidades que voltarão a se atualizar na ressurreição, garantindo a identidade entre aquele que morreu e aquele que ressuscitará.
2. Somente a vida na glória, pela participação no Corpo de Cristo, que é a Igreja, garante àquele que já morreu, mas está ainda aguardando a ressurreição final (todos os santos, menos Jesus e Maria), possa continuar com uma corporeidade na eternidade. Neste sentido, ganha nova dimensão a afirmação de Jesus de que ele próprio é a ressurreição e a vida, e a relação entre graça, eucaristia, Igreja e vida eterna.
Mas estamos nos adiantando de novo. Prossigamos.
O quarto argumento objetor.
O quarto argumento objetor depara-se com a questão atinente à faculdade da memória. A memória, como capacidade de lembrança, acúmulo de informações recebidas dos sentidos, é uma capacidade profundamente relacionada com o corpo; em suma, é uma faculdade material, como demonstra o fato de que os computadores são capazes de reter informações materialmente, acessá-las, reuni-las e lidar com elas. E que a memória humana sofre um processo de degradação com a idade e está sujeita a doenças e lesões que podem destruí-la.
Ora, prossegue o argumento, vemos nos Evangelhos que as pessoas, após a morte, continuam com suas memórias; há um caso emblemático em Lucas 16, 25, no chamado “relato do rico epulão”, em que Abraão se dirige a ele, dizendo: “Filho, lembra-te de que recebeste teus bens em vida, mas Lázaro, males; por isso, ele agora aqui é consolado, mas tu estás em tormento”. Ora, só haveria sentido nesta fala se o rico pudesse, de fato, lembrar daquilo que é mencionado por Abraão. Mas se ele perdesse a memória pela morte, ele não poderia, e a fala evangélica não teria sentido. Logo, a memória permanece na alma após a morte, e com ela todas as capacidades que, como a memória, dependem de órgãos corporais, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Agostinho sabe que a alma mantém sua identidade após a morte. E isto envolve o fato de que as conquistas espirituais ficam marcadas nela, já que a alma humana é perfectível, e, portanto, as coisas que ela vai aprendendo e experimentando durante a vida vão se incorporando a ela, espiritualmente. Assim, ao lado da memória sensorial, corpórea, que armazena os dados da experiência humana recebida de modo particular pelos sentidos, há um crescimento espiritual pelo qual as coisas aprendidas em vida incorporam-se à própria identidade da alma, consistindo numa verdadeira memória espiritual. É neste sentido que Agostinho fala em memória da alma, e é neste sentido que Abraão se dirige ao personagem desta parábola de Jesus.
Não seria difícil verificar esta diferença entre as memórias materiais e a identidade espiritual, como memória imaterial, na nossa vida diária. De fato, poucos de nós seriam capazes de lembrar cada momento, na infância, em que aprendeu os rudimentos de matemática ou o alfabeto e a capacidade de ler e escrever. Seria quase impossível que lembrássemos de todos os que contribuíram concretamente com estas capacidades, e cada momento em que as adquirimos, em nossa infância. Mas, embora não lembremos disto, a capacidade de ler e escrever e de realizar as operações básicas de matemática permanecem em nós como um patrimônio espiritual que nos identifica, mesmo sem a memória material de sua aquisição.
O quinto argumento objetor.
Aqui, trata-se de lembrar que a alegria e a tristeza são paixões, ou seja, sentimentos humanos que envolvem corpo e alma, reações físicas a estímulos sensoriais. Ora, as paixões dividem-se em irascíveis e concupiscíveis. A alegria e a tristeza são, portanto, paixões do irascível.
Ora, a vida após a morte envolve a alegria para os santos, pela glória de Deus, e a tristeza para os que, livre e conscientemente, rejeitaram o amor de Deus, em vida. Portanto, se há alegria e tristeza no pós-vida, deve haver, também, todas as capacidades passionais, e, portanto, todas as capacidades sensíveis, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A alegria e a tristeza podem ser puramente espirituais. Existem a alegria e a tristeza como paixões humanas, que envolvem o corpo ou respondem a estímulos corporais. Mas existem também a alegria e a tristeza puramente espirituais, que vêm da plenitude que se alcança na perfeição ao repousar em Deus. Esta os anjos também possuem, quando chegam à bem-aventurança. E existe a tristeza daquele que se afasta da fonte universal do amor, que é Deus. Esta, os anjos decaídos também vivem. Portanto, a alegria e a tristeza espirituais vêm da presença ou da ausência do amor pleno que é Deus, e não são paixões físicas. Assim, mesmo a alma separada, incapaz de paixões físicas, podem vivenciá-las.
O sexto argumento objetor.
O sexto argumento resgata uma citação de Agostinho na obra “Comentário Literal ao Gênesis”; ali, o santo diz que nós, mesmo quando desacordados, em estado de inconsciência, ou desmaiados e sem sentidos, somos capazes de visões imaginárias, alucinações, sonhos, fenômenos que envolvem a memória material e seus conteúdos. Assim, Agostinho especula que, mesmo quando estivermos mortos, seremos capazes de ter tais visões e sonhos. Ora, se estes fenômenos envolvem a posse da imaginação e da memória, que são capacidades relacionadas intrinsecamente com o corpo, então há a posse atual das potências sensoriais, mesmo após a morte, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Neste trecho citado, Agostinho não está afirmando nada, mas apenas especulando, indagando ou pesquisando. Ele chegou, inclusive, a retratar-se de certas afirmações que fez neste sentido, quando publicou, no final de sua vida, suas célebres “Retratações”. Portanto, a citação não prova aquilo que o argumento quer provar.
3. Conclusões.
A alma humana separada do corpo pela morte mantém sua identidade, mantém em ato suas capacidades propriamente espirituais, que são a inteligência e a vontade e mantém as outras capacidades humanas, mas sem poder exercê-las, pela privação do suporte material; elas permanecem em potência, não atualizáveis.
Eis um ponto desta bela Catedral em que se abre uma janela para fora. E a vista é linda.
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