1. Introdução.

A experiência de estar morto é uma experiência que nenhum de nós tem. Mas uma coisa é fato: a morte é algo real. E de fato ela marca o fim da vida humana. Morto o ser humano, morto está; não há dúvida. Existem relatos de ressuscitações de pessoas que estiveram clinicamente mortas e voltaram à vida biológica. Alguns destes relatos estão na Bíblia, outros estão em livros científicos ou em prontuários médicos. Mas nada disto contradiz o fato de que a morte biológica finda a vida humana. Mesmo aqueles que passaram por algum tipo de morte clínica e voltaram à vida vieram a óbito posteriormente, e mortos estão até hoje.

Sabe-se, porém, que Jesus ressuscitou, e apareceu em corpo e alma aos seus discípulos e a muitas pessoas, por muitos dias. Ascendeu aos céus e está sentado à direita do Pai. Para ali ascendeu, também, sua mãe. Ambos são verdadeiramente ressurrectos: seres humanos em plenitude, com corpos e alma, como, cremos, seremos também um dia.

Há, no entanto, um aspecto que precisa ser debatido: o que ocorre com o ser humano, no interregno entre a morte física e a ressurreição? É certo que não há vida, no sentido biológico. Morto é. Não há mais um ser humano, um ente substancial humano vivo. No entanto, há certas capacidades da alma que independem do corpo para funcionar, como é o caso da inteligência (e do seu apetite, a vontade). Ora, aquilo que independe do corpo pode funcionar mesmo sem ou fora do corpo. Este sempre foi um indício de que a morte não é o fim da existência; certamente é uma mudança radical no modo de existir, daquele modo de inteireza existencial para uma sobrevivência capenga de uma realidade espiritual que não é um ente em si mesmo, mas apenas a estrutura de um ente que já não existe. Esta sobrevivência não é, pois, necessariamente, um bem. Permanecer existindo como uma mente desprovida de corpo, de potências, de capacidades, sem possibilidade de interagir ou de receber informações sensoriais, e sem a capacidade de destruir-se, numa escuridão total, num silêncio absoluto, sem tato, sem qualquer capacidade de relacionar-se com o que quer que seja. A sobrevivência da alma não pode ser descrita, em si mesma, como uma “vida após a morte”. É uma sobrevivência de uma mente sem corpo. Uma identidade sem relação. Isto pode não ser exatamente uma boa notícia, fora da esperança teologia de que estaremos, então, integrados no corpo da Igreja, em Cristo, até a ressurreição final. Mas estamos fugindo ao tema.

E o que restaria para esta mente desencarnada e sobrevivente? De que ela seria ainda capaz? É o debate a ser enfrentado agora.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese a ser debatida, aqui, é a de que nada muda quando morremos. A morte não nos privaria de nenhuma capacidade, de nenhuma potência, e continuaríamos capazes de tudo aquilo que, em vida, somos capazes. Ou seja, a hipótese é a de que, mesmo depois de mortos, continuamos com todas as potências humanas, com as mesmas capacidades que tínhamos em vida. São seis os argumentos objetores.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento cita a obra “Do Espírito e da Alma”, um livro que circulou em meios eclesiais sem que sua autoria e origem fossem esclarecidos; nesta obra, está dito que a alma, ao separar-se do corpo pela morte, leva consigo os sentidos e a imaginação (ou memória sensível), além de reter a inteligência e a memória intelectual, bem como as paixões irascíveis e concupiscíveis. Assim, todas as capacidades e potências humanas estariam preservadas após a morte, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

As potências são acidentes próprios, isto é, são as propriedades naturais da alma humana. Decorrem dela como o calor e a luz decorrem de uma lâmpada acesa. Ora, aquilo que é inerente à própria essência do ser, como propriedade natural sua, não pode nunca ser separado dele. Assim, as potências humanas permanecem com a alma, mesmo após a morte, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

De fato, mesmo quando as forças do corpo se debilitam, as capacidades da alma permanecem iguais. Mesmo quando os olhos enfraquecem, as lentes dos óculos permitem que o ser humano volte a enxergar perfeitamente, a demonstrar que a própria potência para ver não se debilitou junto com os olhos. Ora, aquilo que não se debilita não pode ser destruído, diz o argumento. Assim, as potências do ser humano não são destruídas pela morte, e permanecem plenas na alma separada, conclui o argumento.

O quarto argumento objetor.

A memória é relacionada à esfera da sensibilidade da alma, com uma relação muito próxima com a matéria, como se pode notar do fato de que os animais têm boa memória. A memória é, pois, um atributo da alma sensitiva, como demonstra Aristóteles nos seus estudos sobre a memória e as lembranças. Depende, pois, inteiramente, da presença do corpo para existir, continua o argumento. Assim, se perdêssemos as potências relacionadas à esfera da sensibilidade, ou alma sensitiva, pela morte, perderíamos completamente as nossas memórias de vida. Mas isto não acontece, como podemos ver da passagem do rico falecido em Lucas 16, 25, em que Abraão lhe diz: “Filho, lembra-te de que recebeste teus bens em vida, mas Lázaro, males; por isso, ele agora aqui é consolado, mas tu estás em tormento”. Ora, nesta passagem, tanto Abraão quanto o rico egoísta estão mortos, mas têm perfeita lembrança da vida que tinham. Assim, se a memória é parte da alma sensitiva e permanece após a morte, também permanecem todos os outros atributos da esfera da sensibilidade, conclui o argumento.

O quinto argumento objetor.

A alegria e a tristeza são paixões humanas; paixões são emoções, relacionadas essencialmente à sensibilidade e à corporeidade. Estas duas emoções classificam-se como pertencentes ao concupiscível, que é uma das esferas das paixões, que serão estudadas na segunda parte da Suma. Ocorre que, como nos ensina a fé católica, as almas separadas, após a morte, são julgadas, e podem alegrar-se pela recompensa, ou entristecer-se pelas penas eternas. Ora, se podem alegrar-se e entristecer-se, estão sujeitas às paixões concupiscíveis, que relacionam-se à sensibilidade e, portanto, à chamada “alma sensitiva”, esfera mergulhada na matéria que compartilhamos com os outros animais. Assim, mesmo as potências sensitivas permanecem na alma separada, conclui o argumento.

O sexto argumento objetor.

O sexto argumento resgata uma citação de Agostinho que, na obra sobre o Gênesis, afirma que o ser humano é capaz de certas visões imaginárias, mesmo quando jaz sem sentidos, embora não completamente morto; estas visões o acompanhariam mesmo após a morte. Ora, prossegue o argumento, se a imaginação está associada à memória sensitiva, e esta pertence à dimensão corporal do ser humano, e mesmo assim permanece após a morte, teríamos que concluir que todas as potências da alma permanecem após a morte, diz o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra vai citar a obra “Dos Dogmas Eclesiásticos”, livro antigo e respeitado, que afirma que o ser humano é formado de apenas dois elementos substanciais: o elemento formal, que é a alma e sua inteligência, e o elemento material, ou a “carne” com seus sentidos. Ora, na morte perde-se a carne, que se separa da alma. Assim, conclui o argumento, as potências da sensibilidade não podem permanecer após a morte.

5. Palavras de fechamento.

Debate interessantíssimo. Desperta a vontade de continuar. No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Santo Tomás.