1. Palavras de retomada.

Encerramos o texto anterior com a lembrança de que somos humanos, isto é, somos estas criaturas maravilhosas compostas de corpo e alma numa síntese belíssima, numa unidade que não pode ser desconsiderada. E a estrutura humana depende desta unidade; Tomás nos deu, na sua resposta sintetizadora, os critérios para entender e buscar esta organização que nos encaminha à perfeição.

Munidos destes princípios, revisitaremos, com ele, os argumentos objetores iniciais, para aprender mais com suas respostas.

2. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor diz que aquelas realidades que surgem simultaneamente não podem decorrer umas das outras; isto é, só existiria uma interdependência lógica se existisse uma precedência cronológica. Mas todas as potências humanas surgem simultaneamente na concepção; não haveria, pois, como sustentar que elas nascem ou decorrem umas das outras, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

As potências emanam da essência da alma humana como resultado natural, não por resultado de algum estímulo ou provocação externa. Assim, as potências existem, como potências, pela mera existência do ser humano, como a luz e o calor resultam da mera existência do fogo. Desde a concepção, portanto, as potências humanas se apresentam, embora ainda não plenamente atualizáveis. Do mesmo modo, pois, a interdependência das potências existe por consequência lógica de seu encadeamento, e não por simples sucessão cronológica. De fato, desde a concepção, somos seres sensíveis e inteligentes, mas a sensibilidade sempre será subordinada à inteligência, e esta sempre dependerá daquela para atualizar-se.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor reconhece que as potências humanas surgem do ser humano, pelo seu princípio dinamizador e estruturante que é a alma. Assim, o ser humano, como ente, é sujeito das potências (lembrando que o sujeito da inteligência e da vontade é a alma mesma, já que estas potências não estão vinculadas a órgão corporal). Ora, prossegue o argumento, as potências humanas são acidentes do ser humano; os acidentes sempre têm uma substância como sujeito. Mas não há acidentes que tenham outros acidentes como sujeitos, porque não há algo como o acidente do acidente. Logo, não se pode dizer que as potências humanas decorrem de outras potências humanas, conclui o argumento.

A resposta de Tomás

De fato, um acidente não pode ser sujeito de outro acidente; no entanto, um acidente pode condicionar outro acidente, no sentido de estar numa ordem de proximidade ou de anterioridade maior em relação à substância. Para não ficar muito abstrata a resposta, Tomás nos dá um exemplo: uma substância pode ter, acidentalmente, esta ou aquela cor. Basta pensarmos numa ovelha branca ao lado de uma outra ovelha negra. Mas a cor manifesta-se na superfície da ovelha, e se estende pelo seu tamanho. Neste sentido, os acidentes de tamanho e massa podem condicionar o acidente da cor, porque a cor é recebida na superfície, que se relaciona com a massa. Assim, também as potências humanas podem estabelecer, entre si, uma relação deste tipo, de interdependência: a inteligência pode depender, por exemplo, da acuidade dos sentidos para conhecer determinadas realidades.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor lembra que as coisas nascem dos seus semelhantes, não dos seus opostos. A luz não nasce da escuridão, nem a água nasce da secura. Ora, as potências humanas muitas vezes são contrárias entre si; por exemplo, as potências sensíveis envolvem as coisas individuais em sua materialidade, ao tempo em que as potências do intelecto relacionam-se com as coisas universais abstratamente, descartando as condições concretas de materialidade e individualidade. Assim, umas potências não poderiam originar-se das outras, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Há algumas realidades que não são idênticas, mas originam-se umas das outras, por sua relação de adição ou subtração, que é uma relação de crescimento em direção à perfeição. Assim se dá com os números, em que uns podem ser deduzidos dos outros por operações aritméticas, embora sua grandeza seja diferente, ou as figuras geométricas, em que as relações podem permitir o surgimento de figuras cada vez mais complexas pela combinação de figuras mais simples.

Assim, de modo similar, as potências humanas podem derivar umas das outras por relações análogas àquelas que envolvem números e figuras geométricas: as potências mais simples podem ser envolvidas nas operações das mais complexas, de tal modo que a unidade existencial do ser humano seja um crescente aperfeiçoamento de suas capacidades, desde as mais simples às mais complexas. Por isto a relação entre as potências não é análoga à relação entre coisas contrárias, mas entre coisas complementares e progressivas.

3. Conclusões.

Uma questão inteira sobre a ordem entre as potências, de tal modo que possamos entender o ser humano como um ser integrado e uno, embora complexo. Agora é o momento de prosseguir para um dos pontos culminantes do nosso debate, que é aquele de examinar quais potências e operações humanas poderiam permanecer mesmo sob as condições da morte, que envolvem a destruição da integridade do ente humano e a separação entre a alma e o corpo. Poderia a alma ainda operar, mesmo separada do corpo? E que operações teria? É o que veremos no próximo e longo texto.