1. Retomando o tema.
O ser humano é uma unidade. Ele não é um amontoado de capacidades, tendências e mecanismos, mas um ente, uma substância, composto, é certo, de elementos heterogêneos, mas unificados e harmonizados de tal modo que a sua unidade é, a um só tempo, um dom e uma missão. É um dom porque a sua existência é dada desde fora, por Deus, a partir de uma essência que reflete a semelhança divina na espiritualidade, na inteligência e na vontade, e mesmo no próprio ser e na própria vida. Mas também é uma missão porque a sua perfeição, o seu rumo ao fim de integração e completude de todas as suas capacidades ativas e passivas, é algo que depende do uso da liberdade orientado pela graça; isto em muito maior grau depois da desordem introduzida em nós pelo pecado original.
É isto que estamos a debater, agora. Em que medida as nossas capacidades estão intrinsecamente organizadas, de tal forma que uma decorra de outra, numa interdependência que revela uma ordem e uma integração em nós.
Vimos, no último texto, a hipótese controvertida de que nossas potências e capacidades não são interdependentes, mas autônomas entre si; vimos os três argumentos no sentido desta hipótese e, enfim, o argumento sed contra, que nos traz o exemplo da imagem que se forma em nossa mente a partir da coordenação dos dados dos sentidos.
Examinemos, agora, a resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora.
Nas realidades que procedem umas das outras, há sempre uma ordem, na qual aquilo que é primeiro causa tudo o que vem depois. Isto ocorre tanto naquelas realidades que são um conjunto organizado de coisas, quanto naquelas realidades que, sendo um só ente, apresentam-se como ricas em aspectos e características.
Pensemos numa casa. Ela não é, em si mesma, uma substância, mas apenas um conjunto organizado de coisas reunidas sob um princípio unificador, que é prover abrigo e conforto para a residência de alguém ou de uma família. Deste princípio decorrem todas as coisas que, reunidas, formam a casa. Desde o projeto do arquiteto ao lançamento da pedra fundamental, até a colocação do teto e do acabamento. Neste sentido, o teto depende das fundações para sustentar-se, mas as fundações não dependem do teto para sustentar as paredes. Pode-se dizer que a estrutura das fundações estão mais próximas ao primeiro princípio do que o telhado, e por isto dá origem a tudo o que vem depois.
No artigo quatro desta mesma questão 77, lembra Tomás, nós vimos que há duas maneiras pelas quais se podem classificar as potências ou capacidades humanas a partir da inter-relação delas. A primeira maneira usa como critério a própria natureza das potências; neste caso, diz Tomás, o que é mais perfeito precede, logicamente, o que é menos perfeito. Neste sentido, a galinha vem antes do ovo, porque é a galinha que exibe a plenitude das características da espécie, e, como ser em ato, determina a natureza do ovo, como potência para a galinha adulta. A segunda maneira é a cronológica, e, neste caso, o ovo precede a galinha, já que, para existir a galinha, necessariamente houve, antes, um ovo. De qualquer maneira, tudo isto torna muito claro o fato de que as potências estão fortemente interligadas, tanto no plano lógico quanto no plano cronológico.
E qual é a relação entre a essência da alma, que é o seu centro estruturante, por um lado, e as potências ou capacidades humanas, por outro?
Há dois níveis de relação, diz Tomás, que se relacionam com a dimensão lógica e a dimensão cronológica da organização humana.
Do ponto de vista lógico, a essência da alma é, simultaneamente, o princípio ativo, ou seja, aquilo que dinamiza, que dá vida, ao ser humano, originando-o como tal, e o seu fim, como centro em torno do qual o ser humano constrói sua perfeição, progressivamente. Quando falamos, por exemplo, na inteligência de alguém, ou dizemos que fulano tem uma boa visão, é à essência da alma deste alguém que nos referimos como sujeito dessas capacidades, quer por ser a origem delas, quer por ser o fim delas, isto é, a razão pela qual elas existem.
Do ponto de vista cronológico, a essência da alma é o princípio receptor, isto é, é aquele centro que vai, progressivamente, recebendo as capacidades humanas que são progressivamente adicionadas no desenvolvimento da pessoa. Quando dizemos que uma criança de três anos está em pleno desenvolvimento de sua capacidade intelectual, ou que um embrião de vinte semanas já tem capacidade de sentir dor, é a essência da alma, como sujeito receptor destas capacidades, que está sendo mencionada, aqui. Num caso, trata-se de uma capacidade puramente espiritual (a inteligência), que está radicada na alma mesma. No outro caso, a capacidade de sentir dor é recebida pelo composto, isto é, trata-se de uma capacidade que envolve o corpo e a alma na sua recepção.
A situação da alma humana como princípio ativo e fim das capacidades é mais perfeita, mais explicativa da ordem do ser humano, do que a posição meramente cronológica de receptor das capacidades. É mais fundamental que a alma seja a causadora, o fundamento e o fim das capacidades, do que o fato de que ela é o mero receptáculo dessas capacidades.
Neste sentido, é muito mais importante saber que, do ponto de vista lógico, é a liberdade humana, manifestada na sua razão e na sua vontade, que explicam o ser humano como um todo. Estas capacidades, portanto, são as mais fundamentais, e delas todas as outras decorrem. É para sermos livres, para sermos capazes de atingir a nossa própria perfeição livremente, que nascemos, crescemos, nos alimentamos, sentimos, e assim por diante. A liberdade radicada na inteligência e na vontade estão para o ser humano como as fundações estão para a casa: são a estrutura, o fundamento e o suporte para todas as outras potências e capacidades. Assim, a inteligência deve reger as capacidades sensíveis, e não o inverso.
Do ponto de vista cronológico, pelo qual examinamos as capacidades a partir da ordem do seu surgimento, as coisas se dão ao contrário: primeiro surgem as capacidades vegetativas, depois as potências sensitivas e, por fim, as intelectivas. Neste caso, as primeiras são lastro das últimas; são como a matéria da qual as outras, superiores, vão se estruturar como formas posteriores. Neste sentido, é mais fundamental estar vivo do que sentir, como é mais fundamental sentir do que inteligir. As potências mais elevadas constroem-se sobre as inferiores, no processo de formação humana.
Portanto, as potências intelectivas são estruturantes, e mais fundamentais no sentido lógico, para organizar o ser humano. Mas as vegetativas e sensitivas são anteriores, e portanto são pressupostos, do ponto de vista cronológico, para aquelas.
3. Palavras de fechamento.
Somos humanos. Somos este ser composto de matéria e forma numa unidade maravilhosa. Cujas capacidades impulsionam, sob a liberdade, para a perfeição.
No próximo texto revisitaremos os argumentos objetores iniciais, para conhecer as respostas de Tomás.
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