1. Introdução.

Mais uma vez, o que está em jogo, aqui, é a própria substancialidade do ser humano. Sendo uma substância, e não um amontoado caótico de características, capacidades e potências, o ser humano tem alguma ordem intrínseca que lhe organiza o ser. A questão em debate agora é se esta ordem determina uma hierarquia, uma organização tal nas potências humanas que determina, inclusive, que umas surjam das outras, ou se as potências são independentes entre si, relacionadas apenas pelo fato de pertencerem ao mesmo sujeito.

Isto tem enormes consequências nas decisões que tomamos, no processo prudencial de aperfeiçoamento ético e até mesmo no modo com que lidamos não somente com as deficiências que cada um de nós apresenta, mas com o fato de que alguns de nós são pessoas com deficiências em vários planos, e que não somente não têm nenhuma diminuição de dignidade por isto, como também, conhecendo a correlação entre suas capacidades, podem encaminhar-se a atingir uma perfeição humana maravilhosa; conhecer-se e conhecer os próprios limites, a própria estrutura, é um belo modo de facilitar o caminho à perfeição, desfrutando inclusive da própria graça de Deus – que sempre pressupõe, respeita e eleva a natureza, com seus limites e características.

Debate interessante. Vamos a ele.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida parte da ideia de que as capacidades humanas, ou potências da alma, são um conjunto de aptidões e funções amontoadas no ser humano, sem nenhuma correlação entre elas, sem ordem em sua aglomeração. A hipótese propõe, então, que as potências da alma humana não surgem umas das outras, não apresentam nenhuma ordem de surgimento e operação. Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Aquelas realidades que surgem simultaneamente não podem ser consideradas como dando origem umas às outras, aforma o argumento. Ora, as potências da alma decorrem naturalmente de sua existência, e se fazem presentes desde o primeiro momento da concepção, quando já há, ali, um ser humano em ato, com as capacidades todas em potência. Logo, não se poderia dizer que as potências da alma surgem umas das outras, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

As potências humanas brotam da alma humana como o acidente insere-se no seu sujeito. Ora, um acidente não pode ser sujeito de outro, porque não existe acidente de acidente. Logo, conclui o argumento, não há como afirmar que uma potência origina outra.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento propõe que não são as coisas opostas que fazem surgir umas às outras. Da luz não nasce a escuridão, e vice-versa. Sá sempre as coisas semelhantes que originam as semelhantes: a luz origina a claridade, a escuridão não origina a luz. Mas as potências da alma, muitas vezes, trazem em si esta relação de oposição: os órgãos da visão, por exemplo, são capazes de apreender as coisas na sua concretude individual, material, ao passo que as potências intelectuais dirigem-se ao abstrato, ao universal. Assim, o argumento conclui que as potências não podem originar-se umas às outras.

4. O argumento sed contra.

O argumento contrário à hipótese controvertida inicial propõe que o critério para conhecer uma potência é conhecer seu ato. Um ovo não é uma galinha ainda; poderíamos dizer que o ovo é um animal potencial. Mas a única maneira de saber que ovo é este é saber qual animal surgirá quando o ovo eclodir. Ou seja, o único modo de saber a espécie do ovo, que é uma potência, é saber qual o seu ato, isto é, saber em qual animal ele se tornará.

Ora, prossegue o argumento, o ato de uma potência humana é causado pelo ato da outra: eu só posso formar uma imagem de um ente na minha imaginação ao reunir nela todos os dados dos sentidos, ou seja, o ato da imaginação, que é formar uma imagem do ente com o qual me deparo, depende do ato dos sentidos, que é a reunião de dados sensoriais sobre ele. Tenho, na minha mente, a imagem completa do meu cão (sua cor, seu latido, seu cheiro, sua textura) porque esta imagem forma-se, em ato, pela reunião dos dados reunidos em ato pelos meus sentidos. Assim, o argumento sed contra conclui que as potências humanas engendram-se mutuamente, isto é, surgem umas das outras sob determinada ordem.

5. Palavras de encerramento.

No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás sobre este tema tão complexo.