1. Retomando.

Vimos, no último texto, a complexa explicação de Tomás sobre a relação entre a essência da alma e suas potências; em suma, poderíamos dizer que, uma vez que as potências são acidentes próprios, decorrem diretamente da essência, diferentemente dos acidentes externos ou impróprios, como um corte de cabelo ou uma tatuagem, que vêm de fora e são acrescidos ao ser humano. As potências, portanto, não são a essência, mas decorrem dela, defluem dela, ou, como se pode dizer mais tecnicamente, emanam dela, formando com ela um todo que é o ser humano. As propriedades humanas, ou acidentes próprios, existem porque o ser humano é levado à existência pela alma, que é sua estrutura fundamental, e têm o próprio ser humano como sujeito; a resposta nos lembrou também que as capacidades intelectuais da alma operam independentemente dos órgãos corporais, embora estejam condicionadas a eles como pressupostos. Neste caso, podemos dizer que as potências ou capacidades intelectuais humanas têm propriamente a alma como seu sujeito.

Após o estabelecimento destes princípios, podemos revisitar os argumentos objetores iniciais, para conhecer as respostas de Tomás a eles.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor afirma que a simplicidade consiste em não ser formado por partes ou elementos, ou seja, ser indivisível em sua unidade. Ora, prossegue o argumento, aquilo que, por ser simples, é indivisível em sua unidade, não pode ser o gerador de vários seres, em sua diversidade. Logo, a alma é, em sua essência, algo simples, uno, indivisível, sem partes. Logo, não poderia ser a fonte geradora das potências humanas, que são múltiplas.

A resposta de Tomás.

A primeira coisa a anotar, antes de examinar propriamente a resposta de Tomás, é que a palavra “ser” não é unívoca, quer dizer, não é aplicada a diversos entes com exatamente o mesmo sentido. Quando eu digo que um ente “é” ou “existe”, uso a noção de “ser” de um modo diferente daquele pelo qual eu digo que ele “é” branco ou pequeno. Do mesmo modo, quando digo que alguém “é” ou “existe”, falo num sentido diferente daquele pelo qual eu digo que Deus “é” ou “existe”. Mas não são sentidos desconexos, equívocos ou fragmentários; são sentidos analógicos, ou seja, o “ser” tem proporções diversas quando se aplica a um ente, a um acidente, a um elemento de um ente composto ou a Deus. Assim, quando falamos, aqui, que a alma “é” simples, ou que ela gera vários “seres” que são as potências humanas, o verbo “ser” é usado analogicamente. Não podemos pensar, aqui, que a alma é um ente, ou que cada potência humana é um ente; eles são apenas elementos daquele ente que é o ser humano.

Assim, a alma de fato é simples; no entanto, ela não é uma coisa, um ente, mas apenas um elemento que compõe esse ente que é o ser humano. A sua essência é a essência humana. Ora, as potências que têm sua fonte na própria essência da alma são essências humanas. Assim, mesmo sendo simples, a alma tem sua própria composição por ter usa essência diversa da existência, isto é, ela recebe a existência de Deus. Assim, sua simplicidade não é absoluta, o que determina que ela pode, sim, ter potências que procedem de si em determinada ordem, e que não são idênticas à sua essência, mas decorrem dela.

Por fim, precisamos lembrar que a alma é um dos elementos de um ser uno, mas essencialmente composto, que é o ser humano. Assim, da relação entre os elementos do ser humano, que são a alma e o corpo, surgem potências que são decorrentes desta estrutura essencial, mas não se identificam com ela. É assim que aquilo que é simples, como a essência da alma, pode ser fonte das potências humanas.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento traz a noção de causa, para negar a relação de origem entre a essência humana e as potências humanas. Aquilo de que uma coisa procede está para esta coisa como um efeito está para a sua causa, diz o argumento. Mas, se examinarmos todas as categorias de causalidade, não encontraremos nenhum tipo de causalidade que possa explicar a relação das potências humanas com a essência da alma humana. Assim, o argumento conclui que as potências humanas não defluem da própria essência da alma.

A resposta de Tomás.

Os acidentes próprios, ou propriedades, sempre ocorrem num ente. O ente, como substância, é sempre o sujeito do acidente. Como sujeito, ele é causa do acidente, num dos muitos sentidos em que um ente pode ser considerado “causa”. Sabemos que há, de modo geral, quatro espécies de causa: a causa formal, a causa material, a causa eficiente e a causa final.

Vamos voltar ao nosso exemplo da cor do cordeirinho. O cordeirinho é uma substância, mas ele tem, como propriedade, manifestar alguma cor. A cor é acidental: ser branco, marrom, cinzento ou preto não modifica o fato de que ele é substancialmente um cordeirinho.

Assim, podemos dizer que a “causa formal” da cor do cordeirinho, quer dizer, a estrutura que o leva a ter esta ou aquela cor, é a própria cor, com seu espectro de frequência. Mas a causa material é o cordeirinho, ou, mais concretamente, a sua pelagem. A causa eficiente, ou seja, aquilo que o leva a ser desta ou daquela cor, é a carga genética do cordeirinho, quer dizer, é sua estrutura mesma. A causa final da cor é individualizar o cordeirinho, torná-lo visível e caracteristicamente diverso no mundo das coisas materiais, revelar seu formato e sua individualidade aos seres dotados de visão que vierem a se relacionar com ele e, eventualmente, até camuflá-lo de predadores.

Assim, podemos dizer que esta propriedade do cordeirinho, este seu acidente próprio, tem uma gama de causas que se resolvem na própria essência do cordeirinho.

Este exemplo demonstra, de um modo concreto, em que sentidos podemos dizer que a essência é causa dos acidentes próprios do ente.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor traz o conceito neoplatônico de “emanação”, que significa aquilo que brota de outro como o rio nasce da fonte, ou a luz brota do sol.

Esta noção implica admitir uma certa capacidade de modificação na própria fonte; o sol emite luz porque sofre alterações em razão de suas reações químicas e físicas internas. A fonte de água sofre a influência da gravidade e do regime de chuvas para emanar o rio.

Nada pode, porém, modificar a si mesmo. Toda mudança (ou, como falavam os escolásticos, todo movimento) depende de alguma coisa que tenha poder de mover, e outra coisa que seja capaz de receber o impulso de mudança para ser movido. Mesmo os animais e plantas, que são seres vivos e têm um dinamismo interno, movem-se (modificam-se) pela ação de uma parte em outra. Nada pode mover a si mesmo. Há sempre algo que move e algo que é movido.

Mas a alma é imóvel, isto é, ela não entra no dinamismo da transformação. Ela estrutura as transformações do ser humano, mas ela mesma não se transforma, nem poderia, porque é simples, como estrutura fundamental, estritamente formal e espiritual, do ser humano. Ito já foi debatido em textos anteriores, assegura o argumento.

Assim, ele conclui que a alma, sendo simples e imóvel, não pode ser a fonte da qual emanam as potências humanas.

A resposta de Tomás.

Os acidentes próprios, ou propriedades, emanam da essência naturalmente; de modo análogo àquele pelo qual, havendo luz, as cores de um ambiente tornam-se visíveis. A presença da luz causa a visibilidade das cores, sem que isto implique algum tipo de mudança na própria essência da luz. Ela tem, como propriedade natural, a capacidade de tornar as cores visíveis.

Assim, o simples fato de haver uma essência humana determina que as propriedades, ou acidentes próprios, do ser humano, decorram naturalmente da sua essência, sem necessidade de uma causa desencadeadora posterior.

3. Conclusão.

Esta relação entre a essência e as potências humanas é muito importante; devemos repetir sempre. Por um lado, a essência humana estabelece desde logo a dignidade da pessoa, independentemente de qualquer atividade que o ser humano venha a realizar. Por outro, ao lastrear as capacidades e atividades propriamente humanas na própria essência, e decorrendo dela naturalmente, preservada está a dignidade do agir humano, e sua estreita relação com a liberdade de conduzir-se aos fins.