1. Introdução.
Já vimos, nos textos anteriores, que, no ser humano, a existência e a natureza são dons de Deus, mas o agir é um construído, é algo que é acrescido ao ser e ao existir para possibilitar a perfeição criatural e moral da pessoa. Por um lado, o simples existir como humano é fundamento bastante e suficiente para a dignidade inegociável e irrenunciável do ser humano; por outro, a liberdade do agir e do fazer-se permite que nos dirijamos com nossos próprios passos a Deus, da maneira conveniente a uma criatura livre, que livremente deve buscar o amor.
O problema em debate, agora, é sobre a relação entre estas duas coisas: aquilo que somos e aquilo que fazemos. Em que medida o nosso fazer decorre do nosso ser, e em que medida o que somos pode decorrer também daquilo que fazemos. O debate, então, é sobre a relação entre a nossa essência e a nossa existência concreta. Tomás antecipa, aqui, um debate importantíssimo que marcou o século XX e ainda se faz transparente hoje: será que somos nós que fazemos a nossa essência, ou será que há, em nós, uma essência recebida de Deus que, de certo modo, serve de pauta ao nosso agir? Os nossos contemporâneos, querendo afirmar uma liberdade do ser humano que não reconhece o amor de Deus, negam que haja em nós uma essência capaz de pautar o nosso agir livre. Seríamos nossos próprios criadores, ao fazermo-nos a partir do zero. A nossa essência seria uma mera massa de modelar, que, com nossa mão, determinaríamos.
Não é difícil pensar, aqui, nas grandes discussões que ocorrem, hoje, por exemplo, sobre a sexualidade humana e sua multiplicação em inúmeros “gêneros” não relacionados com a natureza individual. Tomás não conheceu estas discussões, é claro. Mas estabeleceu princípios que podem nos guiar, hoje, num debate tão importante.
Por outro lado, há quem imagine uma essência humana desprovida de operações livres, inteiramente dominada pela força das ideias e dos condicionamentos históricos, ao modo de Hegel, e transformem a vida humana numa determinação cega por forças externas, que transformariam a liberdade numa grande ilusão. Ou então aquela visão religiosa opressiva que transforma o ser humano numa marionete de Deus, sob uma submissão cega, um joguete nas mãos de um tirano, num essencialismo que desconsidera a liberdade do amor pessoal.
É um artigo curto, mas importantíssimo e atualíssimo. A liberdade falsa da falta de parâmetros, por um lado, com a rigidez da falta de liberdade, do outro. E, mais uma vez, Tomás nos ensina o caminho do meio: não um “meio” no sentido de uma suposta conciliação concordista de dois extremismos, mas um meio que é como uma bela montanha que se ergue entre dois pântanos, criando um caminho que evita todos os atoleiros. Vamos ao debate.
2. A hipótese controvertida.
A hipótese controvertida é a de que não haveria uma relação de determinação entre a essência humana, por um lado, e as potências da alma, por outro. Em suma, aquilo que sentimos, conhecemos, queremos e fazemos não decorreria daquilo que somos. Ou, usando as palavras do próprio artigo, parece que as potências e capacidades humanas não decorrem da própria essência humana. São três os argumentos objetores iniciais.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor busca introduzir, aqui, a velha dualidade entre o uno e os múltiplos. A alma é una e simples, como o ser humano é um só ente. Ora, daquilo que é uno e simples não poderia resultar aquilo que é múltiplo e diverso, como são as potências humanas. Assim, conclui o argumento, as potências humanas, em sua multiplicidade, não podem decorrer de sua essência una.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor trabalha cm a noção de causa e efeito. Aquela realidade que procede de outra realidade relaciona-se com esta como o efeito se relaciona com a causa, diz o argumento. Mas a teoria das causas não é capaz de explicar a relação entre a essência humana e as potências da alma, porque esta relação não se enquadra em nenhum dos tipos de causa; ou seja, a essência huana não pode ser classificado como causa final, nem como causa eficiente, nem como causa formal, nem como causa material das respectivas potências humanas. Assim, não se pode dizer que as potências ou capacidades humanas decorrem da nossa essência, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Imaginemos que a noção de “emanação” fosse aplicável ao modo pelo qual as potências ou capacidades humanas relacionam-se com a essência. A emanação é a ideia de um movimento para fora, de um “fluir” em que uma substância espiritual causa o surgimento de realidades substanciais derivadas ou “emanadas”, como um rio flui de uma lagoa.
Mas o argumento parte da ideia de que a emanação envolve modificação, ou, mais especificamente, um tipo de movimento a partir da fonte para fora. Ocorre que nada, nenhum ente, pode modificar a si mesmo; mesmo no caso das coisas vivas, há sempre uma parte que move a outra, como no caso das pernas que empurram o corpo para frente.
Mas a alma humana não tem partes. Ela é uma realidade simples e indivisível, como já debatemos em outros momentos, lembra o argumento. Assim, não haveria sentido nem sequer em imaginar que ela pudesse “emanar” de si as potências humanas, como um movimento de um fluir a partir de uma fonte. Logo, o argumento conclui que não há como imaginar que as potências humanas possam fluir da essência humana.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra simplesmente define as capacidades ou potências da alma humana como certas propriedades que ela possui por natureza. Ora, sabemos que as propriedades, ou “acidentes próprios”, são aquelas dimensões do ente que, embora acidentais, decorrem naturalmente da essência. A linguagem articulada, por exemplo, é uma propriedade, vale dizer, um acidente próprio dos entes da espécie humana. Por natureza, o ser humano é dotado de fala articulada; nenhuma outra criatura o é. Ora, os próprios, ou propriedades, emanam diretamente da essência, que é o sujeito dessas propriedades, já que os acidentes, como os próprios, têm como sujeito a respectiva substância em que se inserem. Logo, o argumento conclui que as potências ou capacidades da alma decorrem da essência humana mesma.
5. Concluindo.
Ficou um pouco longo. No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.
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