1. Introdução.
Mais uma vez, a preocupação, aqui, é equilibrar, por um lado, as tendências idealistas, gnósticas, espiritualistas, que acreditam que o ser humano consiste essencialmente numa alma espiritual, e a relação com o corpo é acidental e não ajuda, ao contrário atrapalha, à plenitude humana; por outro, as tendências materialistas que acreditam que, por exemplo, pensar ou amar são apenas operações químicas no cérebro.
O problema, aqui, é saber de quem são, afinal, as operações humanas. Seriam elas exclusivamente do corpo, como defendem os materialistas? Seriam etas todas exclusivamente da alma, como defendem platonistas, gnósticos e espiritualistas em geral? O artigo, pois, tem a ver com a integridade humana, com a noção de que somos entes corporais com uma alma espiritual, e que somente compreenderemos o ser humano se levarmos em conta esta unidade.
Este é o debate neste artigo. Interessantíssimo, portanto. Vamos a ele.
2. A hipótese controvertida.
A hipótese controvertida, aqui, é a hipótese espiritualista, que despreza o corpo como uma dimensão apenas acidental, acrescida desde fora à alma e dispensável às operações humanas. A hipótese propõe que todas as operações humanas são titularizadas pela alma, têm nela o sujeito agente, e, portanto, apenas acidentalmente relacionam-se com o corpo. Teremos três argumentos objetores iniciais, no sentido desta hipótese.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor parte de um ponto de vista extremamente dualista, isto é, parte da ideia de que o ser humano não é propriamente uma substância, mas um agregado de corpo e alma. Trata, portanto, o corpo e a alma como duas coisas distintas que acidentalmente se congregam no ser humano, e não como dois elementos de um único ser substancial.
Assim, o argumento propõe que o corpo possui potências e capacidades próprias, estritamente materiais, como a digestão, a circulação e mesmo a movimentação; por outro lado, as capacidades propriamente humanas, como as sensíveis e as inteligentes, estariam exclusivamente na alma, que seria, assim, o verdadeiro sujeito das operações humanas. Disto, o argumento conclui que as operações verdadeiramente humanas têm a alma, e só ela, como seu sujeito.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento diz que as operações próprias do ser humano atribuem-se ao corpo por causa da alma, mas têm na alma sua razão fundamental. É a alma que nos dinamiza, estruturando-nos como seres vivos, capazes de sentir e de inteligir. Ora, se a alma é o primeiro princípio de tudo o que somos, e se aquilo que somos manifesta-se pelas operações humanas, então estas operações são, primordialmente, de titularidade da alma, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor apela para a autoridade de Santo Agostinho. Agostinho nos ensina que a alma humana sente certas coisas sem o corpo, de modo independente mesmo, como o medo e outras coisas semelhantes; outras, ela sente pelo corpo ou com ele.
Ora, prossegue o argumento, se a alma não fosse a titular das potências, ou seja, o verdadeiro sujeito delas, não poderia experimentar nada disto, porque não poderia sentir nada sem o corpo. Assim, a alma é o verdadeiro sujeito das operações que envolvem a sensibilidade humana, e, portanto, de todas as operações humanas, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra resgatará Aristóteles. O Filósofo, como Tomás gosta de chamá-lo, afirma, na obra “Sobre o Sono e a Vigília”, que sentir não é algo próprio só do corpo, nem só da alma, mas do ente humano em sua completude. Ninguém diria: minha alma saboreou um belo vinho, ou minha alma gosta muito do aroma das rosas. Logo, a potência da sensibilidade está no ser humano, como seu titular e sujeito, e não na alma exclusivamente. Assim, o argumento sed contra conclui que a alma não é o sujeito de toda e qualquer operação humana.
5. A resposta sintetizadora de Tomás.
Não há dúvida de que o verdadeiro sujeito de tudo o que somos e fazemos é o ser humano, este ente uno, mas composto de corpo e alma. É o ser humano que opera as capacidades humanas.
Não é, porém, sem interesse, saber se estas capacidades radicam-se no corpo, pela alma, ou somente na alma, de modo independente do corpo.
Para descobrir, portanto, onde está radicada uma operação é necessário saber como ela ocorre, qual sua estrutura.
Na questão 75, havíamos debatido que as operações da inteligência não correspondem a algum órgão corporal, mas ocorrem de modo independente ao corpo. Não se pode esquecer que a inteligência humana precisa essencialmente do corpo, dos órgãos corporais, como pressupostos para funcionar. Não há nada na inteligência que não tenha passado antes pelos sentidos, diz um conhecido aforisma. A própria operação inteligente, que é reflexiva, não é material, e por isto independe do corpo.
Neste sentido, inteligir e querer acontecem na alma mesmo, são operações radicadas na alma humana, porque não ocorrem por meio de algum órgão corporal.
Mas as outras operações humanas ocorrem pelo corpo, estruturado pela alma, e assim podem ser caracterizadas como operações do ente humano, não propriamente operações da alma. Assim, a visão depende do aparelho ocular para acontecer, mas não é o olho que vê, senão o respectivo ser humano. O mesmo com a audição, o tato e os outros sentidos.
Também as operações vegetativas, como a nutrição, o crescimento, o sono, são operações do ente humano em sua completude, e não, a rigor, operações da alma em sua simplicidade espiritual.
Isto nos leva a pensar nas operações que poderiam sobreviver à morte. Mas isto será assunto de outros debates, num momento posterior.
6. Os argumentos objetores e as respostas de Tomás.
Colocados, assim, os fundamentos para encaminhar o debate, passamos a examinar os argumentos objetores iniciais e as respectivas respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor quer fazer uma separação radical entre as funções estritamente corporais e as potências da alma, atribuindo a estas, como a um sujeito, as principais potências humanas, todas as que ultrapassam a simples manutenção corporal. A alma seria, assim, titular exclusiva de todas as operações da sensibilidade e da inteligência, para este argumento.
A resposta de Tomás.
De fato, a alma é o princípio de organização e de dinamização do ser humano, é o que lhe dá vida e o faz operar. Então, de certo modo, ela é a causa remota de todas as operações humanas, inclusive das estritamente corporais, fisiológicas mesmo, como digerir ou suar. Mas é o ser humano, em sua inteireza composta de corpo e alma, quem age, em última instância; assim, a rigor, apenas as atividades intelectivas podem ser atribuídas à alma como sujeito, sempre lembrando que isto não significa que a alma possa inteligir para além do corpo; isto significa, somente, que esta operação de inteligir e querer não está vinculada a nenhum órgão corporal.
O segundo argumento objetor.
Vai no mesmo sentido o segundo argumento. Se o corpo participa das operações humanas apenas porque ele é estruturado e dinamizado pela alma, diz o argumento, teríamos que concluir que a alma é titular de todas as operações humanas, como sujeito primário.
A resposta de Tomás.
Não há dúvidas de que a alma é o elemento estruturante e princípio fundamental da vida humana. Mas não se pode confundir o fato de que ela é princípio do próprio operar humano, por um lado, com a circunstância de que ela é sujeito de potências que não se relacionam com nenhum órgão corporal específico, por outro. Ela é princípio de todas as operações, mas é sujeito, no sentido estrito, apenas das operações intelectivas.
O terceiro argumento objetor.
Finalmente, o terceiro argumento objetor cita Agostinho, para quem a alma humana seria capaz de “sentir” certas coisas sem o corpo, sem sua mediação, como o temor e coisas análogas; embora precise do corpo para, por intermédio dele, sentir outras. Mas se o corpo fosse condição necessária para a operação da alma, ela não seria capaz de sentir nada sem ele. Logo, o argumento conclui que, se as operações humanas da sensibilidade, que envolvem o corpo, têm a alma como seu sujeito próprio, muito mais tê-lo-iam como sujeito todas as outras.
A resposta de Tomás.
Eis aqui mais uma marca da influência de Platão sobre Agostinho, diz Tomás.
Platão acreditava que todas as operações humanas eram estritamente espirituais, e tinham a alma como sujeito, mesmo as operações sensíveis, que se relacionam com os órgãos do sentido. Agostinho, muitas, vezes, recorre a Platão nestas questões, citando-o. Mas isto não significa que Agostinho simplesmente repita o pensamento de Platão de modo acrítico. Agostinho, mais do que um platonista, era um cristão.
Pode-se, então, entender de um modo mais adequado a expressão de Agostinho, quando ele diz que a alma pode ter sentimentos sem o corpo.
De fato, não há sentimento que não esteja intrinsecamente relacionado ao corpo. Neste sentido, todas as nossas paixões, todos os nossos sentimentos, envolvem uma dimensão corporal, simplesmente porque somos humanos. Assim, se Platão queria tornar os sentimentos independentes do corpo, ele estava errado.
Mas há um outro sentido, que é perfeitamente justo, pelo qual podemos dizer que há sentimentos que envolvem o corpo, e outros que o ultrapassam. Pensemos, por exemplo, na dor que se sente por um ferimento: este tipo de dor localiza-se no ferimento, relaciona-se com ele e limita-se a ele: curado o ferimento, a dor some.
Mas há uma outra dor, como o medo, a tristeza ou a euforia, que, embora relacionem-se com o corpo e o envolvam, não estão diretamente localizadas aqui ou ali, mas colocam todo o ser humano sob sua influência. Por isto, algo que vimos ou ouvimos pode nos colocar num estado de tristeza ou de alegria, e estes estados estão mais diretamente relacionados com a alma do que com o corpo. Era neste sentido que Agostinho estava falando, e esta sutileza vai nos permitir estudar as paixões humanas, mais à frente, e sua relação com a própria moralidade do ser humano. As paixões têm por sujeito o ser humano, em sua composição integral de corpo e alma, e não apenas a alma, como as operações intelectuais.
7. Conclusão.
É extraordinário perceber que, mesmo um artigo aparentemente tão abstrato e distante da nossa realidade, como este, possa revelar-se de uma importância antropológica fundamental. Não há recantos irrelevantes nesta nossa Catedral.
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