1. Retomando.

No texto anterior, começávamos a debater esta “ordem intrínseca” nas capacidades ou potências humanas, que é, afinal, o fundamento para que uma ética seja possível. É preciso reconhecer uma ordem interna nas potências da alma? Ou todas as capacidades, potências ou inclinações têm o mesmo grau de importância?

Vimos a hipótese inicial de que não haveria nenhuma hierarquia entre as capacidades da alma, e três argumentos objetores, no mesmo sentido desta hipótese. Por fim, examinamos o argumento sed contra, que simplesmente citava Aristóteles, numa analogia entre a composição das potências da alma, por um lado, e a ordem das figuras geométricas, por outro, para concluir que, assim, como é possível distinguir figuras mais complexas e regulares que outras, também seria possível encontrar uma hierarquia de complexidade e regularidade nas potências da alma humana.

Passemos, agora, a examinar a resposta sintetizadora de São Tomás.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

As potências da alma têm duas características que as definem: por um lado, pertencem a uma alma humana, que é algo uno, inteiro, substancial em sua existência. Por outro lado, determinam-se em sua especificidade pelo objeto ao qual estão relacionadas.

Ora, se há apenas uma alma, mas várias potências, há alguma ordem que relaciona o que é plúrimo ao que é uno. Esta ordem é o que reduz a pluralidade à unidade.

No caso da relação entre a alma e suas potências (que não é uma relação real, mas apenas de razão, porque elas são, na verdade, a mesma coisa vista sob diferentes ângulos) Há, diz Tomás, uma tríplice ordem que as relaciona. Dois aspectos desta tríplice ordem relacionam-se à interdependência das potências entre si. O terceiro aspecto diz respeito à ordem dos objetos que especificam as potências. Vamos tentar entender estas ordens, uma por uma, acompanhando Tomás, para que as coisas não fiquem muito abstratas, o que torna difícil entender o que está sendo dito. Sempre é bom exemplificar, distinguir, comparar, para tornar compreensível o que é abstrato.

O que significa interdependência das potências entre si? Significa que as diversas potências relacionam-se umas com as outras, basicamente em dois planos:

1) o plano lógico, ou seja, a ordem que elas apresentam quando examinadas pela razão humana, e

2) o plano cronológico, ou seja, a ordem em que elas aparecem na formação do ser humano.

O plano lógico.

No plano lógico, em primeiro lugar vêm as potências relacionadas com a ordem intelectiva, como a inteligência e a vontade. Elas são capazes de ordenar as demais potências; assim, mesmo que eu esteja com muita fome, e me depare com algum alimento gostoso, posso escolher não comer por reconhecer que aquilo pertence a outra pessoa, por exemplo. Daí se vê que as potências da ordem intelectiva são anteriores, logicamente, às potências da ordem sensitiva, na alma humana. Aquilo que os meus sentidos percebem não me encaminham a inclinações instintivas, mas à mediação da inteligência.

Por outro lado, as potências da ordem sensitiva estão acima daquelas ligadas à ordem simplesmente vegetativa. A sobrevivência, por exemplo, é uma inclinação vegetativa, mas isto não me leva, por exemplo, a comer indistintamente aquilo que me é repugnante aos sentidos apenas para me manter nutrido; somente em casos extremos, quando não há nenhuma possibilidade de preferir aquilo que os sentidos apontam, é que a ordem vegetativa vence a sensitiva. Deste modo, as inclinações sensitivas estão num plano logicamente superior às simplesmente vegetativas. Assim, a ordem lógica das capacidades humanas é que as potências da ordem intelectual ordenem as potências sensitivas, e estas ordenem as vegetativas. Portanto, apenas em casos extremos, em que esteja em jogo a própria destruição da existência, ou algum tipo de desordem física ou moral é que esta ordem é desconsiderada.

O plano cronológico.

No plano cronológico, as potências sucedem-se na ordem inversa à ordem lógica. Aqui, primeiro vão surgir as potências meramente vegetativas. O pequeno ser que surge da fecundação é apenas capaz de sobreviver, nutrir-se e crescer. Ou seja, com a concepção, surgem primeiro as potências vegetativas; mas o pequeno ser humano logo desenvolverá sua sensibilidade, ainda nos primeiros estágios embrionários. Por fim, com o nascimento, começa o longo processo de maturação que leva ao pleno desenvolvimento das potências intelectivas – a inteligência e a vontade.

Assim, esta é a grande missão do ser humano, no sentido de organizar-se como pessoa: sua jornada é a de restabelecer, no plano cronológico, aquilo que existe como um fim no plano lógico: ordenar as potências inferiores, submetendo-as às superiores, respeitando a integridade de cada uma delas.

Quanto ao objeto.

Quanto ao objeto, Tomás vai lembrar que, mesmo no plano das potências sensitivas, há uma certa hierarquia entre os objetos, que determina uma certa hierarquia entre as potências. Sem dúvida, os universais inteligíveis, isto é, as coisas sob a razão de universalidade, são o objeto mais elevado. Mas, dentre os sensíveis, a luz, dentre os objetos sensíveis, está mais próxima do inteligível. Não é à toa que todas as metáforas a respeito do intelecto usam a luz como comparação: a luz do intelecto, a iluminação do conhecimento, e assim por diante. Portanto, o sentido da visão teria um objeto mais nobre. A audição, por seu turno, relaciona-se com um fenômeno mais limitado, que é o fenômeno da propagação do som, que demanda algum meio físico específico para acontecer. Não há som no espaço. Portanto, a audição tem um objeto menos amplo, menos universal. O olfato, por fim, além de menos capaz de prover informações que conduzam ao conhecimento universal intelectivo, é ainda mais específico que a audição.

Dentre os outros dois sentidos, podemos acrescer que eles não são capazes de operar à distância, e precisam do contato material com seu objeto para atuar. Assim, ficariam ainda mais abaixo, nesta ordenação.

Portanto, mesmo entre as potências sensíveis, há uma ordenação da mais abstrata às mais concretas.

Esta classificação poderia continuar com as potências vegetativas, já que, sem dúvida, sobreviver é mais importante do que nutrir-se, e assim por diante. Mas aí já estaríamos num campo muito distante daquilo que é propriamente humano. Não deixa de haver um certo interesse numa classificação assim, para compreender bem certas situações extremas do ser humano, como a sobrevivência em acidentes graves, em locais isolados.

Assentados os princípios, examinemos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

3. As respostas aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento afirma que não há hierarquia entre realidades que estão na mesma classe. Assim, uma vez que as potências da alma humana são todas da mesma classe, não haveria nenhuma ordem entre elas.

A resposta de Tomás.

Não é bem assim. Diversas realidades estão sob a mesma classe, e podem ser hierarquicamente ordenadas. Pensemos nos números: todos os números são da classe dos quantificadores, mas não são simplesmente iguais entre si. Ao contrário, numerar consiste exatamente em atribuir diferenças de quantidade. Do mesmo modo, as figuras geométricas pertencem à mesma classe, mas são ordenáveis em função de diversos critérios, como o número de lados e a regularidade. Portanto, as coisas que pertencem à mesma classe equiparam-se exatamente naquilo que têm em comum, e ordenam-se por aquilo que as especifica. As potências da alma são todas unificadas pela circunstância de serem capacidades humanas, mas ordenam-se, hierarquicamente, pelos critérios já descritos na resposta sintetizadora.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento diz que as potências da alma têm duas referências: por um lado, pertencem à alma, por outro lado apontam para um objeto.

Pelo lado da alma, não haveria como estabelecer alguma ordem entre as potências, porque a alma é una, e não pode ser critério de diferenciação.

Pelo lado dos objetos, não haveria possibilidade de comparar os objetos, que são inteiramente diversos entre si; seria como sopesar bicicletas com bananas, para usar uma analogia. Como não há proporção entre os objetos, também sob este ângulo não poderíamos classificar as potências. Assim, o argumento conclui que não há hierarquia entre as potências da alma.

A resposta de Tomás.

Não se pode imaginar que as potências da alma sejam todas indiferentes entre si. É claro que um ato de intelecção, ou de vontade bem-ordenada para a justiça, é muito superior a uma inclinação sensível para um ato de mero ato de consumo deleitável. Que há uma ordem entre as potências da alma, parece não haver nenhuma dúvida.

Esta ordem vem, portanto, das duas referências das potências. Vem, por um lado, da alma, porque reconhecemos uma certa hierarquia entre os atos da alma, embora ela seja una em sua essência. Esta hierarquia foi debatida na resposta sintetizadora.

Também os objetos podem distinguir as potências por seus atos, como vimos na resposta sintetizadora. É um equívoco, portanto, imaginar que elas não possam ser ordenadas.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento lembra que, entre coisas que não têm uma ordem ou hierarquia entre si, a operação de uma não depende em nada da operação da outra. Ora, prossegue o argumento, entre as potências da alma ocorre justamente isso: a visão, por exemplo, não depende da audição para ocorrer, e vice-versa. Logo, não há nenhuma ordem de hierarquia ou importância entre elas, conclui.

A resposta de Tomás.

Como foi visto na resposta sintetizadora, há três maneiras de classificar as potências ou capacidades da alma. Duas dizem respeito à relação delas com a alma ou entre si, e são a maneira lógica e a cronológica. Se classificamos as potências desta maneira, verificamos quão profundamente interdependentes elas são. Logicamente, as potências da esfera mais elevada deve dominar as esferas menos elevadas, organizando-as sem eliminá-las ou desprezar seu valor, para que o ser humano atinja sua plenitude de perfeição. Assim, as potências intelectivas organizam as sensitivas, e estas prevalecem sobre as simplesmente vegetativas. Seria fácil exemplificar esta ordem com a função reprodutiva: é uma função vegetativa, mas subordina-se às potências sensitivas porque envolve os sentidos, que provocam a atração, já que a reprodução não se dá indiscriminadamente, mas ordena-se pelas potências intelectivas, que organizam-na de tal modo que envolvam as virtudes da prudência, da justiça, da fortaleza e da temperança, pelo bem dos genitores e da prole.

Quanto ao terceiro modo de organizar as potências (que envolve a hierarquia entre os objetos), Tomás reconhece que o argumento objetor tem razão. De fato, é muito difícil estabelecer uma hierarquia entre as potências em função do seu objeto, para dizer, por exemplo, que a visão seria mais importante que a audição. Podemos até dizer que o objeto inteligível é mais importante que o sensível, mas aí estaríamos, talvez, classificando os objetos em função das potências, e não o contrário. É aqui que vemos a abertura de Tomás aos argumentos adversos, e como ele é capaz de integrá-los para completar sua própria visão.

4. Conclusão.

Tema importantíssimo. Neste artigo, fica claro que não se deve ler Tomás aos pedaços, sem levar em conta toda a estrutura desta magnífica Catedral que é a Suma. Este artigo é essencial para compreender a estruturação da ética na Suma, que será objeto da primeira divisão da segunda parte da Suma.