1. Introdução.
A alma tem capacidades, poderes ou potências. E elas se revelam muito diferentemente do modo pelo qual a onipotência divina se revela. O poder de Deus é uno, indiviso, completo e total. Ele não pode se especificar pelo objeto, porque ele dá origem a todos os objetos. Já as capacidades humanas são limitadas, divididas, dependentes do objeto, derivadas e ordenadas.
Aliás, é este o assunto agora. Qual a ordem que existe entre as capacidades humanas? Serão elas, tal como a onipotência divina, igualmente importantes? Será que há capacidades que nos afirmam como propriamente humanos, e, se desprezadas, tornam-nos menos perfeitos, menos próximos da imagem divina?
Debate importantíssimo, essencial para que possamos, depois, compreender o estudo da ética como a reta ordenação do bem a que nossas capacidades nos inclinam. Somente porque as capacidades ou potências humanas são hierarquicamente organizadas é que é possível falar em ética. Se todas as capacidades ou potências fossem igualmente dispostas, não poderia haver diferença moral entre um glutão e um asceta, ou entre um pornógrafo e um médico que estuda o corpo humano.
Serão elas ordenadas? Há hierarquia entre elas?
É o que veremos neste artigo.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial quer nos propor que todas as capacidades da alma são equivalentes. Tanto faz, em termos de valor, satisfazer um apetite sexual ou uma curiosidade científica. Não haveria a possibilidade de pensar numa ordenação de bens, que levasse o ser humano a ser mais perfeito, mais valoroso, porque todas as suas possibilidades seriam iguais. Assim, a hipótese propõe que não há nenhum tipo de ordem entre as potências humanas. São três os argumentos objetores aqui.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor afirma que, quando várias coisas estão incluídas num mesmo nível de divisão lógica, ou seja, estão na mesma categoria, no mesmo gênero, não há hierarquia entre elas. Não se poderia dizer que, dentre os elementos do mesmo gênero, algum seja melhor ou pior que outro, ou que, dentre as coisas da mesma espécie, umas sejam mais perfeitas ou mais elevadas que outras. Ora, prossegue o argumento, as potências da alma estão todas no mesmo nível lógico, ou seja, são do mesmo tipo. Logo, não há hierarquia entre elas.
O segundo argumento objetor.
As potências da alma têm duas referências: referem-se, em primeiro lugar, à própria alma humana, da qual elas são capacidades, e, por outro lado, aos seus objetos, que as especificam, como vimos no artigo anterior.
Ora, prossegue o argumento, pelo lado da alma humana essas potências não podem ser hierarquizadas, porque pertencem todas a uma só e mesma alma.
Tampouco poderiam ser hierarquizadas pelo lado do objeto, porque esses objetos são incomensuráveis entre si, ou seja, são tão diferentes que não podem ser comparados, para que se estabelecesse que uns são melhores que outros. Não se poderia, por exemplo, comparar o som com a luz para determinar se a audição é melhor que a visão. Assim, conclui o argumento, não pode haver hierarquia entre as potências da alma humana.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento lembra que, em todas as realidades em que há uma hierarquia entre as potências, há sempre uma relação de dependência entre as inferiores e as mais elevadas. Como num exército, em que as patentes inferiores subordinam-se e dependem inteiramente das superiores para agir.
Mas, entre as potências da alma, não há esta relação de subordinação ou dependência; o ouvido não precisa dos olhos para ouvir, nem estes precisam da língua para operar sua capacidade de ver. Disto, o argumento conclui que não há hierarquia entre as potências da alma humana.
3. O argumento sed contra.
O argumento sed contra lembra que Aristóteles, na obra “Da Alma”, para explicar a composição da alma humana, compara as potências da alma com as figuras geométricas. Ora, há uma ordem nas figuras geométricas, que as organiza por complexidade, regularidade e assim por diante. Logo, conclui o argumento, também na alma deve haver este tipo de ordem entre as diversas potências.
4. Breves palavras de encerramento.
Colocados, assim, os termos do debate, no próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.
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