1. Voltando.

Colocados os princípios na resposta sintetizadora de Tomás, podemos reexaminar, agora, suas respostas aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento.

O primeiro argumento afirma que aquilo que vem depois não pode dar identidade, especificar o que vem antes. A potência, prossegue o argumento, vem antes do ato, como o ovo vem antes da galinha. O objeto é, portanto, posterior e externo à potência, como a estátua é externa e posterior ao homem que esculpe. Portanto, nem o ato, nem o objeto poderiam especificar a respectiva potência, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Tomás aponta que, de fato, cronologicamente, o ato surge depois da potência. Enquanto há ovo, não há galinha. No entanto, do ponto de vista lógico, ou seja, como objeto de conhecimento, a galinha é prioritária ao ovo, quer dizer, é logicamente anterior. Quando vejo um ovo, é a sua potência para transformar-se em pato ou em frango que determina sua espécie. Neste sentido, o pato em ato, ou o frango em ato, embora cronologicamente posteriores, são logicamente anteriores e especificam o ovo, que é potencial. Assim, o objeto, quer como princípio de uma potência passiva (como no caso da luz com a visão), quer como fim de uma potência ativa (como no caso da estátua para aquele que a entalha), embora sejam, de fato, extrínsecos à potência (já que, num caso, preexistem a ela, e no outro são causados por ela) condicionam tudo aquilo que é intrínseco a esta mesma potência, dando a ela sua especificidade e sua identidade. O olho se especifica pela luz; a capacidade de esculpir está proporcionada à estátua que se esculpirá.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor inicia propondo que duas coisas que são contrárias estão afastadas pela maior distância possível. Nada pode estar mais longe da luz do que a escuridão, nada pode estar mais longe do doce do que o insípido, nada pode estar mais longe do ruído do que o silêncio. Ora, prossegue o argumento, se as potências fossem especificadas por seus objetos, então as coisas contrárias não poderiam referir-se à mesma potência, justamente porque, sendo contrárias, estão à máxima distância uma da outra. Logo, conclui o argumento, não são os objetos que especificam as potências.

A resposta de Tomás.

As potências humanas não se especificam pelos acidentes, mas pelas essências dos objetos que lhe são próprios. Assim, a essência dos contrários é sempre comum: o branco e o preto coincidem em serem cores, como o silêncio e o ruído coincidem em sua essência sonora. Se as faculdades humanas se dirigissem às coisas que, tendo a mesma essência, manifestam-se acidentalmente de modo oposto, então teríamos que ter, por exemplo, uma faculdade para enxergar o branco e outra para o preto. Mas não é assim. Nossas faculdades dirigem-se à essência dos objetos, não aos seus acidentes.

O terceiro argumento objetor.

Mais uma vez, o argumento inicia com uma afirmação: se removermos uma causa, removemos seu efeito. Se retiramos as paredes, o teto cai. Ora, se a diferença das capacidades humanas decorresse do objeto, o objeto de cada capacidade deveria ser diferente, para que a respectiva capacidade fosse diferente. Se a causa da diferença fosse suprimida, isto é, se o mesmo objeto fosse referido a duas capacidades diferentes, estas capacidades deixariam de ser diferentes, porque já não haveria uma causa para a diferença.

Ora, sabemos que a capacidade de conhecer é diferente da capacidade de querer. No entanto, as duas podem relacionar-se com o mesmo objeto: posso conhecer uma maçã e em seguida desejá-la para comer, por exemplo. Portanto, se as capacidades que se dirigem ao mesmo objeto são diferentes, isto significa que não é o objeto, mas alguma outra coisa que diferencia as capacidades humanas.

A resposta de Tomás.

Não devemos confundir a noção de objeto com a noção de coisa. Um objeto é sempre alguma coisa que se relaciona com algum sujeito sob alguma razão. Ora, a maçã relaciona-se com o sujeito como objeto de conhecimento, ao ser examinada, e assim ela é assimilada pela inteligência. Ao conhecermos a maçã, ela pode apresentar-se como apetitosa à vontade, no momento de uma refeição, e passa a ser relacionada ao sujeito como objeto de alimentação, ou seja, como algo que atrai a vontade. É sob diferentes razões, portanto, que a mesma coisa pode ser objeto de mais de uma capacidade humana.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento mais uma vez cita uma máxima da filosofia: tudo aquilo que é causa própria e suficiente de alguma coisa, é causa completa dessa coisa, e não pode causar senão ela. Ou seja, se é o objeto que causa a identificação, a especificação das potências, então a presença do objeto despertará aquela potência e nenhuma outra. Assim, o mesmo objeto jamais poderia pertencer a outra potência, mas somente àquela que ele identifica.

Ora, diz o argumento, há objetos que pertencem a mais de uma potência; e o argumento traz um exemplo, para tornar mais clara a sua linha de raciocínio.

Tomemos dois objetos: o som e a luz. O som especifica o sentido da audição, de que é objeto. A luz especifica o sentido da visão, da qual é objeto. Ocorre que o ser humano tem uma outra capacidade, chamada de “senso comum”, que é um sentido interno capaz de reunir as informações dos sentidos e formar uma só imagem daquilo que os sentidos captam parcialmente. Ora, se o som e a luz são também objeto do sentido comum, então eles não são objetos exclusivos dos sentidos que se relacionam diretamente com eles, mas o senso comum também os tem por objeto. Logo, se um objeto pode relacionar-se com mais de um sentido, ele não pode ser a causa própria de especificação das capacidades humanas, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Mais uma vez, Tomás nos ensina que o objeto não é simplesmente idêntico à coisa; o objeto é a coisa colocada diante do sujeito sob determinada razão, determinado viés. Assim, a razão pela qual a luz se apresenta aos olhos é uma; a razão pela qual a informação visual se apresenta ao senso comum é outra. A razão do senso comum é mais elevada, unificadora, e se apresenta num segundo momento. Poderíamos até dizer que o objeto do senso comum não é exatamente a luz, mas a luz tal como observada pelo sentido da visão, junto com os dados próprios dos outros sentidos.

Portanto, o que identifica e especifica as capacidades humanas é o objeto, e não propriamente as coisas. Uma capacidade superior, que unifica as inferiores, pode relacionar-se com a mesma coisa sob outra razão, e portanto ela tem um objeto diferente. O olho vê a maçã, a inteligência a compreende, a vontade a deseja e o paladar sente o seu sabor. A mesma coisa foi objeto de várias capacidades humanas, sob diversas razões. Assim, o argumento não procede.

3. Conclusão.

Estabelecido está, portanto, que as capacidades ou potências humanas determinam-se pelo objeto. No próximo texto estudaremos a ordem de prioridade ou hierarquia que há entre estas potências.