1. Retomando.
A questão em debate, aqui, é o critério para distinguir as potências ou capacidades da alma. A hipótese controvertida é a de que não é pelo objeto que distinguimos estas potências, e estudamos, no texto anterior, os quatro argumentos objetores, no sentido da hipótese inicial, e o argumento sed contra. Os elementos do debate estão bem colocados para que possamos passar a examinar a resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás vai iniciar nos lembrando daquela velha noção metafísica de que é o ato que identifica a respectiva potência. É o caso da galinha e do ovo: o ovo é uma galinha potencial, porque a galinha é o ato do ovo. Assim, um ovo de pata se distingue do ovo de galinha porque um deles tem potencial para ser um pato, ao tempo que o outro tem o potencial para ser galinha.
Este é um princípio que nós usamos, sem sentir, o tempo todo. Quando compramos milho para fazer pipoca, sabemos que o milho de canjica não serve para nós, porque não tem potencial para estourar na panela. Assim, a pipoca, que é o ato, é quem identifica o milho, que está apenas em potência para virar pipoca, e o distingue do milho de canjica, por exemplo.
Assim, é o ato que identifica a potência. Mas é o objeto que identifica o ato. É certo que o ovo é potência para ser um animal; mas não qualquer animal. A espécie de animal vai identificar o ato de ser animal, e o ser animal vai identificar o ovo. Logo, é o objeto que, afinal, determina a potência.
Mas o problema não acaba aí. Porque a própria noção de potência pode ter dois sentidos: há a potência ativa, que é a capacidade de transformar o mundo, e a potência passiva, que é a capacidade de ser transformado por ele.
Vamos pensar, por exemplo, nos olhos. Eles são órgãos do sentido da visão e, como tais, têm a potência passiva de receber a luz. Estar iluminado em ato é o que identifica nossa visão, e seu objeto, portanto, é a luz observável.
No caso das potências ativas, o ato consiste em transformar o objeto, modificando-o. Assim, nossas mãos têm a potência ativa de entalhar, por exemplo, e podem modificar um pedaço de madeira, transformando-o numa escultura. Assim, neste caso, é o fim da ação, que é a escultura, que especifica esta capacidade.
Os objetos das potências, portanto, têm uma relação diferente com a potência, conforme ela seja uma potência ativa ou passiva. No caso das potências passivas, como a capacidade de enxergar, o respectivo objeto funciona como princípio de transformação, causa motora que leva a potência ao ato.
No caso das potências ativas, por outro lado, o objeto tem a função de fim ou termo: eu uso as minhas mãos naquele pedaço de madeira com o fim de transformá-lo numa escultura.
Assim, tanto nas potências ativas quanto nas passivas, é o objeto, quer como princípio e causa motora (nas passivas) quanto como fim e termo (nas ativas) que dá identidade às respectivas potências. Assim, o fato de que é a luz que causa a visão, nos olhos, especifica o sentido da visão como aquele sentido relacionado com a luz, identificando-o como órgão de visão; ao tempo que o fato de que é o som quem move o ouvido identifica-o como órgão de audição, e não de visão. Portanto, comprovado está que são os objetos que identificam e especificam as potências.
Mas, neste ponto, Tomás nos alerta para um cuidado, com relação ao próprio objeto. De fato, o objeto que especifica o ato é, ele mesmo, um ente; por isto, precisamos ter muita atenção com ele.
Os objetos das capacidades humanas, lembra Tomás, são entes. Nossas capacidades são capacidades de estabelecer relações com outras coisas, outros entes.
Mas um ente se diferencia por sua essência, não por seus acidentes. Assim, um raio de luz pode, acidentalmente, ter esta ou aquela frequência, e, por isto, revelar esta ou aquela cor aos nossos olhos. Mas o fato de que um raio de luz é amarelo e o outro é vermelho não os diferencia na sua natureza de serem, ambos, raios de luz. Assim, não precisamos pleitear a existência de uma capacidade de ver a luz amarela, e outra de ver a luz azul, e assim por diante. A luz especifica o sentido da visão, mas o fato de que a luz pode, acidentalmente, variar, não determina que haja tantas capacidades de ver quantas sejam as faixas luminosas.
O som, por outro lado, é transmitido por ondas físicas no ar. Estas ondas podem ter maior ou menor comprimento, maior ou menor amplitude, maior ou menor volume. O som não é luz; há, entre o som e a luz, verdadeira diferença essencial, de tal modo que são objetos realmente diversos. Assim, o fato de que há diferentes sons não determina que haja diversas capacidades de ouvir; mas o fato de que o som é essencialmente diferente da luz determina que a capacidade de ouvir seja diversa da capacidade de ver.
Por outro lado, nossas capacidades relacionam-se com aquele aspecto do objeto que é capaz de mover aquela capacidade, e não com a essencialidade do próprio objeto como substância. Vale dizer, enxergamos formatos, vultos, cores, tudo o que a luz traz até nossos olhos; é indiferente, para a capacidade de ver, que estas realidades que enxergo sejam de um urso, de um cão, de um homem ou de uma pedra: não é a substância da coisa enxergada que especifica nosso sentido da visão, mas a luz, como portadora de sua informação visível.
Esta última observação pode parecer irrelevante, desprovida de importância, mas não é: ela demonstra que Tomás estava muito atento para a diferença entre o objeto das nossas capacidades, por um lado, e as coisas que existem, por outro. Nós não enxergamos coisas, mas apenas cores na luz. Não enxergamos substâncias, mas apenas acidentes. E assim com todas as nossas capacidades. Somos capazes de entrar em relação direta com os acidentes do mundo criatural, para, a partir deles, conhecer-lhes a respectiva substância. Isto diz bastante, inclusive, sobre a dificuldade humana de relacionar-se com Deus. Mas isto é assunto de outros debates, que já fizemos anteriormente.
3. Fechando.
No próximo texto, municiados com estes princípios, reexaminaremos, com Tomás, suas respostas aos argumentos objetores iniciais.
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