1. Introdução.

A modernidade resistiu muito a esta noção de “poderes” que a escolástica, fundamentada na filosofia grega, ensinava. Para a modernidade, a ideia medieval de que alguma coisa acontecia porque alguma substância tinha o “poder” de fazer aquilo acontecer era um símbolo da mentalidade atrasada da idade média; à modernidade interessava (e interessa) qual o mecanismo que torna alguma coisa capaz de realizar uma operação ou apresentar um determinado comportamento. Assim, se os escolásticos, por exemplo, eram capazes de dizer que o ópio tinha um “poder de fazer dormir”, e isto era suficiente para satisfazer suas curiosidades, a modernidade apresentava esta descrição medieval como ridícula e absurda, crendo que dizer simplesmente que o ópio faz dormir porque tem o “poder de fazer dormir” é algo que não explica nada.

O fato é que a visão mecanicista foi bastante útil à humanidade, porque permitiu compreender e dominar as maneiras pelas quais a natureza age. Mas este processo de ridicularização escondeu o fato de que, antes de compreender um determinado processo, é preciso identificar sua origem, e é exatamente isto que a ideia de “poder” nos permite. A concepção das coisas como mecanismos faz perder a noção de substância que a filosofia clássica nos legou, e todas as coisas foram vistas como reuniões acidentais de mecanismos cegos que agem sem dirigir-se a um fim; assim, para nós, hoje, parece uma discussão preciosista e sem maior relevância o modo que Tomás insiste na questão dos “poderes da alma”, que no fundo são os poderes do ser humano, e na maneira pela qual podemos identificá-los em sua origem e em sua relação com o ente humano em sua substancialidade. Seguindo o raciocínio de Tomás, talvez possamos nos livrar de alguns dos atoleiros em que a contemporaneidade nos colocou por ter perdido a noção da substancialidade humana: debater, por exemplo, se o embrião humano é, de fato, uma pessoa ou apenas um “aglomerado de células”, defender a submissão da continuidade da vida humana à “qualidade de vida” para fins de defender a eutanásia, e mesmo a independência entre sexualidade e corporeidade a ponto de desenvolver uma “teoria do gênero”, da qual o Papa Francisco, na sua Catequese de 15 de abril de 2015, falou assim: “Pergunto-me, por exemplo, se a chamada teoria do gênero não seja expressão de uma frustração e resignação, com a finalidade de cancelar a diferença sexual por não saber mais como lidar com ela”. Ora, se o ser humano for apenas um artefato do acaso, uma reunião acidental de mecanismos cegos que operam sem visar um fim, então o aborto, a eutanásia e a teoria do gênero são defensáveis. Mas se conseguimos discernir, no ser humano, uma substância, cuja essência vem de Deus e cuja existência é um dom, e se conseguimos distinguir nele qual a origem e o fim de suas capacidades e operações, não somente voltamos a compreender sua dignidade, como podemos discernir o que é, em nós, caracteristicamente humano, e desenvolver uma ética que nos permita buscar a perfeição e conviver na busca do bem comum. O mecanicismo pode ser útil ao desenvolvimento da ciência, mas deve ter limites; ele não pode querer explicar aquilo que ultrapassa seu escopo: o próprio ser humano, como mistério inesgotável em sua subjetividade e em sua relação com Deus.

Tudo isto manifesta a importância da pesquisa que Tomás faz nesta questão 77: nada aqui é desnecessário, nada é gratuito, tudo tem este objetivo: descobrir aquilo que o salmista já perguntava: ““Contemplando estes céus que plasmastes e formastes com dedos de artista; vendo a lua e estrelas brilhantes, perguntamos: ‘Senhor, que é o homem, para dele assim vos lembrardes e o tratardes com tanto carinho?.’” (Sl 8,5).

2. A hipótese controvertida inicial.

Portanto, se não somos um artefato, se não somos uma reunião de mecanismos que age cegamente, então é preciso debater exatamente que tipo de poderes e capacidades são propriamente humanos, e como podemos distinguir, em nós, aquilo que brota da mesma fonte, a nossa essência, e nos conduz ao mesmo fim, que é a felicidade eterna em Deus. Como podemos distinguir nossas operações, nossas capacidades, nossos poderes, se, no fundo, todas elas decorrem da nossa mesma e una essência humana substancial? Ora, se, pela origem, elas não se distinguem, nossa próxima hipótese seria afirmar que elas se distinguem pelo seu objeto, isto é, para aquilo a que se dirigem. E a hipótese controvertida inicial quer, exatamente, negar que as coisas sejam assim, para poder investigar mais propriamente este assunto. Assim, a hipótese controvertida inicial vai propor que, aparentemente, não são os objetos que distinguem os poderes da alma humana entre si. Haverá quatro argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor quer negar que um poder ou capacidade humana possa ser caracterizado por seu objeto, que é aquilo a que ele se dirige. As coisas devem ser caracterizadas por aquilo que lhes é intrínseco, ou seja, pelas características que estão nelas mesmas, dentro delas. Ora, o objeto das nossas capacidades é sempre algo que está além delas, como seu efeito ou como seu objetivo. Portanto, aquilo que é posterior, como o efeito, ou que é externo, como o objetivo, não pode ser adotado como se fosse uma característica que especifica a própria coisa. Logo, as potências ativas da alma não poderiam ser especificadas pelo seu objeto, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Nada pode diferir mais do que as coisas que são contrárias entre si, propõe o argumento. Nada pode ser mais oposto, por exemplo, do que o preto e o branco, o silêncio e o barulho, o doce e o azedo, a claridade e a escuridão. Ora, se as potências ativas fossem especificadas pelos seus objetos, esperaríamos que as coisas contrárias fossem objeto de potências diversas. Mas não é isto que se observa na prática, prossegue o argumento. De fato, por exemplo, a potência para enxergar envolve observar o preto e o branco, distinguir entre a luz e a escuridão, como a potência para ouvir é capaz de distinguir entre o silêncio e o barulho. Assim, o argumento conclui que os objetos não podem servir de critério para distinguir as potências humanas entre si.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor repete um velho princípio filosófico: se removermos uma causa, seu efeito desaparecerá. Ora, prossegue o argumento, se os objetos fossem o critério de diferenciação entre as potências da alma, então a remoção de um objeto eliminaria a respectiva capacidade humana, e não poderiam existir duas capacidades com o mesmo objeto. Cada objeto se relacionaria com uma, e apenas uma, capacidade humana, já que seria o objeto que a caracterizaria como esta capacidade específica.

Mas o argumento prossegue, constatando que há alguns objetos que se relacionam com várias capacidades humanas diferentes: a mesma coisa que é conhecida é também, muitas vezes, desejada. Logo, a mesma coisa pode relacionar-se com a capacidade de conhecer e a capacidade de querer. Assim, não é o objeto que distingue as capacidades, especificando-as, conclui o argumento.

O quarto argumento objetor.

Aquilo que é a causa própria de alguma coisa, e é capaz de explicar completamente sua existência, está de tal sorte vinculada a este efeito que, dadas as mesmas condições, não poderia ser causa de outra coisa. Assim, se os objetos fossem a explicação da diferença entre as potências e capacidades da alma, de tal modo que aquela capacidade fosse, completamente, explicada e caracterizada pela presença deste objeto, não poderia haver mais de uma potência relacionada a um mesmo objeto, como não poderia haver mais de um objeto relacionado à mesma potência, afirma o argumento. Mas a observação das potências da alma humana revela algo bem diferente disto, prossegue. De fato, o argumento toma o exemplo do som e da luz: o som relaciona-se com a audição, e a luz, com a visão. Mas o chamado “sentido comum”, que é a capacidade que o ser humano tem de reunir os dados dos sentidos para formar uma só imagem do objeto, pode reunir os dados luminosos que os olhos receberam com os dados sonoros que o ouvido recebeu para formar na mente a imagem, digamos, de um cão que nos ataca. Ora, se o objeto pode ser relacionado com mais de uma capacidade, e a mesma capacidade pode relacionar-se com mais de um objeto, então as potências ativas ou capacidades da alma não são especificadas pelo objeto, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

Por fim, o argumento sed contra vai nos lembrar um princípio básico de realidade: o que vem depois é sempre determinado e especificado pelo que está antes. Pensemos num cozinheiro: se ele tem macarrão e tomates, não pode fazer um churrasco, mas apenas uma macarronada.

Ocorre que, conforme nos ensina Aristóteles na obra “Da Alma”, existem duas maneira pelas quais podemos dizer que algo está “antes” de outra: a maneira cronológica, quando alguma coisa vem antes, no tempo, do que outra, e a maneira lógica, pela qual uma coisa está logicamente antes de outra embora esteja cronologicamente depois. Pensemos naquela macarronada: certamente, a massa de macarrão e os tomates são cronologicamente anteriores à macarronada; mas, do ponto de vista lógico, a macarronada tem que ser anterior à massa de macarrão e aos tomates que eu adquiri, porque eu adquiri massa de macarrão e tomates com o fim de fazer deles uma bela macarronada, e, portanto, a própria noção de macarronada como fim está antes da massa de macarrão. Ou seja, naquele velho dilema do ovo e da galinha, a galinha está logicamente antes do ovo, porque, caso contrário, ele não seria um ovo de galinha. Mas, cronologicamente, o ovo está sempre antes de cada galinha que possamos ver. É neste sentido que dizemos que, logicamente, os atos vêm antes das potências e as especificam.

No caso das faculdades, prossegue o argumento, as suas operações vêm logicamente antes da sua, digamos, aparelhagem. A capacidade de ver é o que especifica os olhos como órgãos da visão. E a própria capacidade de ver é especificada pelo seu objeto, que é a cor, ou a luz com suas frequências coloridas, que se antepõe aos olhos. Este é o próprio sentido da palavra “objeto”; esta palavra significa simplesmente aquilo que se opõe ao sujeito, o que foi posto diante dele. .É porque há cor na luz que há visão, e é porque há visão que há olhos. Logo, conclui este argumento, é o objeto que especifica, em última instância, as faculdades da alma humana.

5. Palavras de encerramento.

No próximo texto, estudaremos a resposta sintetizadora de Tomás.