1. Introdução.

No último texto, examinávamos a resposta sintetizadora de Tomás, na qual ele introduzia o tema da hierarquia do ser, para explicar a pluralidade de potências ou capacidades na alma humana. Prosseguimos agora neste estudo.

2. Prosseguindo na resposta sintetizadora de Tomás.

No início de sua resposta sintetizadora, Tomás falava de graus de existência dos entes, de tal modo que a possibilidade, para eles, de alcançar o bem, a perfeição, varia em razão de sua natureza mesma.

Para não ficar muito abstrato, Tomás vai nos propor uma classificação dos graus de existência, quanto à possibilidade de alcançar a própria perfeição no ser:

1. Os seres mais simples, que podem alcançar alguma perfeição, a partir de algumas poucas atividades.

2. Os seres intermediários, que podem atingir a perfeição plena, mas dependem, para isto, de muitas atividades.

3. Os seres elevados, que podem atingir a perfeição plena, com pouquíssimas atividades.

4. Aquele ser que, sem necessidade de nenhuma mudança, atividade ou operação, tem em si a plenitude da perfeição. Este é Deus.

Tomás, então, compara estes quatro níveis de existência com quatro níveis de saúde, para tornar menos abstrata sua explicação. Assim, imaginando que cada nível de existência, com relação à plenitude da existência divina, equivalesse a um nível de saúde com relação à saúde perfeita, teríamos:

1. O primeiro nível seria comparável a alguém que tem uma saúde fragilíssima, incapaz de uma cura plena, desenganado mesmo; mas ainda capaz de receber alguma melhora, algum conforto paliativo, com relação a aspectos limitados do seu bem-estar, com o uso de algum remédio especial e raro.

2. O segundo nível é de alguém com a saúde gravemente afetada, mas ainda capaz de curar-se, desde que submetido a um tratamento intensivo, com muitos medicamentos, muitas intervenções e muitos cuidados.

3. O terceiro nível envolveria alguém com poucos problemas de saúde, que com a ajuda de um medicamento simples e abundante é capaz de alcançar a cura plena.

4. O quarto nível é o daquele que tem a saúde perfeita por si, sem necessidade de qualquer remédio a qualquer tempo.

Assim, esta relação entre o ser e o bem, que, em Deus, encontram a sua identidade (nele, o ser e o bem são a mesma coisa), permitiriam classificar assim os entes:

1. Os seres inferiores aos seres humano, aí incluídos os seres inanimados, os vegetais e os animais irracionais, podem chegar a algum tipo de perfeição limitada e particular. De fato, imaginemos a riqueza que é, digamos, o ciclo natural da água, ou a gravitação universal, ou pensemos no instinto materno de algumas espécies, ou até na beleza de flores e frutas, e percebemos que os seres inanimados ou mesmo seres vivos muito simples podem nos ensinar, por sua dinâmica e suas operações, alguma coisa sobre a bondade de Deus, embora de modo limitado e particular.

2. Ainda no reino das coisas materiais, temos o ser humano como capaz de inteligir, de querer e, principalmente de receber a graça e vir a alcançar a glória de Deus, chegando à perfeição da plenitude da felicidade. Neste sentido, o ser humano é, a um só tempo, o cume da criação material e a linha inferior dos seres que podem vir a conhecer a felicidade suprema em Deus. Esta situação peculiar, de cruzamento entre duas esferas (a material e a espiritual), determina que os seres humanos sejam dotados de muitas e diferentes capacidades e operações, de muitos poderes diversos e de muitas diversas carências, de tal modo que possam, com esta complexidade, alçar-se até Deus com toda a peculiaridade de uma criatura que está no umbral inferior da espiritualidade.

3. Os anjos, no entanto, sendo criaturas mais simples, puramente espirituais, estão naturalmente mais aptas a chegar à perfeição da felicidade plena em Deus, mediante poucas operações. Por isto, eles são dotados de menor número de operações que os seres humanos, mas seu poder, nestas poucas operações, é consideravelmente maior do que o poder humano.

4. Por fim, e como fonte de todo ser e de todo bem, encontra-se Deus, em quem o ser e o bem coincidem, como coincidem a existência e a operação. Não há diferença, em Deus, entre o que ele é, o que ele faz e o que ele goza: ele é a perfeição na simplicidade absoluta. Neste sentido é que dizemos que as criaturas têm poderes, mas Deus é, ele mesmo, a plena onipotência. E a onipotência não tem separações.

Portanto, ser humano é ser fragmentado neste aspecto também: ter, em si, aquelas capacidades e operações compartilhadas com o reino material, por um lado, e aquelas que são próprias das realidades espirituais, por outro. Todas nos pertencem, e são distintas de nossa essência, de tal modo que perder alguma operação, ou tê-la de modo incompleto ou imperfeito, não altera em nada a nossa essência humana, nem empobrece as outras operações não relacionadas. Somos, então, a síntese da criação, ponto de união entre a pura materialidade e a pura espiritualidade.

3. As respostas aos argumentos objetores iniciais.

Após ter estabelecido os critérios para encaminhar o debate, Tomás passa a revisitar os argumentos objetores iniciais, enriquecendo muito a discussão. Examinemo-los.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que, de todas as estruturas formais do mundo material, a alma intelectual humana é aquela que tem a maior semelhança com Deus. Ora, prossegue, se em Deus há apenas um e único poder, seria de se esperar que a ama humana também tivesse apenas um e único poder, diversificado apenas em suas operações, conclui.

A resposta de Tomás.

É verdade que a alma espiritual do ser humano é a estrutura que mais se assemelha a Deus, no mundo criatural material. Mas esta semelhança não implica igualdade, senão a capacidade de receber a graça e ser elevada até Ele, para gozar da perfeição da felicidade plena. Assim, a sua natureza criatural determina que, diferentemente da onipotência simples de Deus, tenhamos capacidades e operações múltiplas, decorrentes da nossa natureza de criatura material inteligente, dotada de uma estrutura capaz de operações espirituais. Mas as operações espirituais da alma humana são operações de uma criatura material, e são, neste ponto, muito diferentes em natureza das operações de uma criatura puramente espiritual como um anjo. Somos muito mais compostos, e por isto muito menos simples e unitários do que as criaturas espirituais, mais perfeitas que nós.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento lembra que, quanto mais elevado é um poder, mais unificado ele é. Assim, o sentido interno, que unifica as sensações recebidas pelos órgãos dos sentidos, é mais uno e mais elevado do que cada um dos sentidos. Ora, prossegue o argumento, a alma humana é a estrutura mais perfeita do mundo criatural material. Logo, deve ser unificada em seus poderes, conclui.

A resposta de Tomás.

É verdade que um poder superior é unificado com relação aos poderes inferiores, como o sentido interno é superior, relativamente aos sentidos externos. Mas esta regra só se aplica para operações e capacidades que têm o mesmo objeto, como é o caso dos sentidos. Quando há vários objetos, como é o caso dos poderes e capacidades humanas, a multiplicação das capacidades é uma maneira superior de lidar com a multiplicação de objetos. É por isto que temos múltiplas capacidades que se relacionam com a sensibilidade, com a inteligência, com a vontade e assim por diante.

O terceiro argumento objetor.

Somente aquilo que existe efetivamente, e existe em ato, quer dizer, com suas perfeições implementadas, é que pode operar. Ora, a existência em ato de qualquer ente se dá pela sua forma que organiza a sua matéria, e a forma é sempre a causa unitária e simples da existência e da perfeição. Ora, a forma humana é a alma espiritual. Se é pela existência que se opera, e se a existência decorre da alma, que é una e única causa da existência, então ela é a una e única causa da operação humana, em toda a sua multiplicidade, diz o argumento.

A resposta de Tomás.

No artigo passado, tínhamos visto que a essência da alma não se confunde com sua existência, nem om sua operação. Assim, a existência do ente humano tem como causa a sua alma espiritual como forma substancial. A alma é uma só essência, princípio unificador do ente. Mas as capacidades deste ente são múltiplas.

4. Conclusão.

Um breve registro: há cinco anos, no dia 03 de fevereiro de 2017, iniciávamos este blog, no qual eu tencionava colocar os textos que resultam dos meus estudos pessoais sobre Tomás, de modo a poder, talvez, ajudar outras pessoas que tentam ler estes textos tão preciosos. Cinco anos se passaram, cerca de 750 textos publicados, cerca de 21 mil visualizações, creio que o resultado superou muito as minhas expectativas. Um dos meus filhos chegou a comentar que é quase inacreditável que um blog que não trate de finanças, nem de bitcoin, nem de sexo, tenha chegado até aqui. Mormente porque Tomás não é exatamente um autor da moda, nem a Suma é um livro de cultura pop. Mas eu agradeço a cada um de vocês que chegaram comigo até aqui. Rezemos um pelos outros! São Tomás, rogai por todos nós!