1. Retomando.
Vimos, portanto, que a alma representa uma totalidade, daquele tipo de totalidade que não admite divisões quantitativas, mas admite divisões lógicas e em partes virtuais, ou seja, ela representa aquela parte da composição humana que corresponde à forma, sendo princípio das operações. Assim, a alma, como princípio de unidade, como forma do ser humano, está completa em toda e qualquer parte do ser humano, como poderíamos dizer que a forma circular está inteiramente presente em toda e qualquer parte do círculo. Mas, uma vez que a alma é também o princípio das operações vitais do ser humano, podemos dizer que ela não está do mesmo modo em toda e qualquer parte do ser humano, mas apresenta-se, por suas operações, ali onde o corpo humano tem as estruturas capazes de realizar aquelas operações. Em outras palavras, a alma opera a audição pelos ouvidos, a visão pelos olhos e assim por diante.
Estabelecidos estes princípios, passamos a examinar os argumentos objetores iniciais, para conhecer as respostas específicas que Tomás nos apresenta a eles.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor faz uma citação de Aristóteles que, na obra “Do Movimento dos Animais”, afirma que não é necessário que a alma esteja em cada parte do corpo, porque, “encontrando-se em algum princípio do corpo, faz com que as outras partes vivam, e as partes, por serem vivas, são capazes, por natureza, de realizar seus próprios movimentos”. Assim, o argumento conclui que o próprio Aristóteles determina que a alma não está inteiramente em cada parte do corpo.
A resposta de Tomás.
É preciso ter muito cuidado para não ler Aristóteles sob os olhos de Platão. Aristóteles sabe que a alma é princípio de vida, e que, portanto, entre suas operações, está a operação de movimentar, dinamizar o corpo. Mas isto não significa que a alma possa ser descrita como motor do corpo, como queria Platão. O motor, ou seja, a estrutura movente, é sempre uma causa eficiente diferente da estrutura movida, porque nada pode mover a si mesmo. Mas a alma não é um motor, porque ela não é algo diferente do próprio corpo. Ela é a própria estruturação do corpo, ou melhor, do ser humano, e assim é um elemento integrado, definidor, unificador do ser humano. É neste sentido que Aristóteles fala, no trecho citado pelo argumento, que a alma encontra-se como algum princípio do corpo existente. E este princípio tem, como operação, estruturar e dinamizar o corpo, levando-o ao movimento.
O movimento do corpo é, portanto, resultado das estruturas que a alma informa, e não de algum “empurrão” metafísico que a alma dá no corpo. O corpo estruturado pela alma é capaz de realizar seus próprios movimentos, como ensina Aristóteles. Neste sentido, a operação da alma como dinamizadora não é concorrente nem substituto da própria dinâmica dos sistemas corporais, mas é sua origem e, portanto, o fato de que a alma não precisa dinamizar cada parte direta e constantemente não implica dizer que ela não está, no sentido explicado na resposta sintetizadora, toda e completamente em cada parte do corpo.
O segundo argumento objetor.
Este segundo argumento objetor está muito ligado à ciência biológica do tempo de Tomás. O argumento parte da afirmação, defendida pela ciência de então, de que nem todas as partes do corpo humano são orgânicas, isto é, nem todas as partes estão organizadas como sistemas biológicos. Pensava-se nos cabelos, por exemplo, ou nas unhas, nos excrementos e nos ossos, que eram vistos como não-orgânicos, isto é, não integrados aos sistemas vivos do corpo.
Se a alma é a estrutura que organiza o corpo, tornando-o vivo, então, diz o argumento, ela é o ato da potência de viver. Ora, o ato só pode estar ali onde se encontra a perfeição que ele atualiza. Portanto, o argumento defende que a alma só pode estar naquelas partes do corpo que são vivas e relacionadas com os sistemas biológicos. Mas (acreditava-se) há partes do corpo que não são vivas nem organizadas em sistemas biológicos, e neles a alma não pode estar, diz o argumento. Logo, a alma não está toda em qualquer parte do corpo, conclui.
A resposta de Tomás.
Tomás nunca despreza a ciência que conhece. Ele tem um respeito imenso pelo poder da razão humana. Ele conhece a ciência do seu tempo, que declara que nem tudo o que há no corpo humano integra-se em algum sistema vivo. Logo, Tomás responderá a este argumento dizendo simplesmente que, de fato, a alma é ato da estruturação viva do corpo, e por isto ela está, por primeiro e de modo próprio, nos sistemas vivos do corpo; mas ela não deixa de estar ali onde não há organicidade, porque é ela que unifica o ente humano, e, se estas partes integram o ente humano, são unificados pela alma. Por isto, diz Tomás, a objeção não procede.
Hoje, diríamos que não há estrutura do corpo que não esteja relacionado com algum sistema vivo, e portanto o argumento não procede, já que a alma é a estrutura que torna vivos todos os sistemas corporais.
O terceiro argumento objetor.
Mais uma vez Aristóteles é citado pelo argumento objetor. Na obra “Da Alma”, Aristóteles diz que a relação entre cada parte da alma e cada parte do corpo é proporcionada à relação entre a alma toda e o corpo todo; assim, a parte da alma que tem a capacidade de ver está para a pupila como a alma inteira está para o corpo inteiro.
Mas se é assim, diz o argumento, a alma não está toda e completa em cada parte do corpo. Porque, se ela estivesse, cada parte do corpo seria o corpo inteiro, já que a totalidade da alma guarda proporção apenas com o corpo inteiro, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Nós já vimos, na resposta sintetizadora (texto anterior) que a alma humana está toda e completa em cada parte do corpo no sentido de que, sendo ela o princípio e o fundamento da unidade do indivíduo, ela é indivisível e, portanto, não se pode identificá-la com nenhuma parte do todo que ela individualiza. Mas isto não significa que ela esteja operando igualmente, de modo total e completo, em cada parte do corpo.
Cada animal (aí incluído o ser humano) compõe-se da alma e de todo o seu corpo. Assim, é claro que o corpo inteiro, com todas as suas partes, é o primeiro lugar da alma. Como estrutura do indivíduo, o corpo, em sua inteireza, revela fisicamente a integridade indivisível da alma. Por isto, a totalidade da alma guarda proporção com a inteireza do corpo, e por isto não se pode dizer que, uma vez que ela está indivisivelmente em toda e qualquer parte do ser humano, cada pedaço do ser humano seja um ser humano inteiro. Uma coisa é saber que, na sua indivisibilidade, a alma unifica todo o ser humano, e está toda nele todo e em cada parte dele. Outra coisa é imaginar que, como a alma é indivisível e o corpo é divisível, se dividirmos o corpo teremos, ali, a alma inteira e, portanto, cada pedaço do ser humano seria um ser humano inteiro. Isto é falso.
O quarto argumento objetor.
O quarto argumento objetor também faz confusão entre a divisibilidade do corpo e a indivisibilidade da alma. Se a alma está presente integral e totalmente em cada parte do corpo, diz o argumento, então é de se esperar que todas as suas operações estejam simultaneamente em cada parte do corpo, de tal modo que pudéssemos igualmente ver pelos ouvidos e ouvir pelos olhos, por exemplo, o que é absurdo, diz o argumento. Logo, a alma não está toda e completamente em cada parte do corpo, conclui.
A resposta de Tomás.
É preciso não confundir a indivisibilidade, que é característica dos seres imateriais, como a alma, por um lado, com a presença igual e simultânea de todas as operações da alma em todas as partes do corpo.
De fato, há operações da alma que, embora dependentes da atividade corporal, transcendem a própria materialidade do corpo e não estão propriamente localizadas em alguma delas, como inteligir e querer. Outras relacionam-se de modo especial com esta ou aquela parte do corpo, como as operações da sensibilidade relacionam-se com os respectivos órgãos do sentido (o olfato com o nariz, a gustação com a língua, a audição com os ouvidos e assim por diante). É que determinadas partes do corpo apresentam as condições materiais para o exercício desta ou daquela faculdade, e portanto guardam proporção direta com ela. No entanto, e mesmo existindo esta relação local especial, a operação humana nunca se esgota completamente no seu respectivo órgão: não é meu olho que vê, sou eu que vejo. Por isto, o fato de que as operações relacionam-se especialmente com esta ou aquela parte do corpo não tira a indivisibilidade da alma: meu olho é, sem dúvida, o órgão pelo qual enxergo, mas sou eu, indivisivelmente, o sujeito da operação de ver.
O quinto argumento objetor.
Por fim, o quinto argumento objetor também explora este contraste entre a divisibilidade do corpo e a indivisibilidade da alma, para tentar mostrar que haveria uma contradição em imaginar que a alma pudesse estar, toda e indivisa, em qualquer parte do corpo.
O corpo é uma realidade orgânica, diz o argumento. Vale dizer, ele é estruturado como uma rede de interdependência entre as partes, de tal modo que uma parte dependa da outra, um sistema dependa do outro, e tudo esteja ligado num sistema de reciprocidade.
Mas se a alma estivesse toda e indivisa em cada parte do corpo, cada parte do corpo seria completamente autônoma, autossuficiente e central, de tal modo que não haveria uma hierarquia de funcionamento no corpo, que determinasse que há partes mais vitais, mais centrais e mais importantes do que outras.
Mas, de fato, há partes mais vitais, mais centrais e mais importantes do que outras, e esta relação de interdependência não é linear, não é horizontal.
Assim, é preciso admitir, diz o argumento, que a alma não está inteira e completamente em cada parte do corpo, mas distribui-se pelo corpo de modo a refletir a própria estrutura hierárquica entre as partes e sistemas corporais, conclui.
A resposta de Tomás.
Não pode haver dúvida de que o corpo humano se constitui de sistemas interdependentes, e que há partes e órgãos mais centrais, mais importantes e mais vitais do que outros. Mas isto se dá não por uma divisibilidade espacial da alma, mas pelo próprio fato, já mencionado na resposta anterior, de que as operações da alma se realizam pelas estruturas especiais do corpo que são capazes de operá-las, de tal modo que, no corpo, há partes e órgãos que são mais vitais, mais importantes e mais centrais do que outros. O corpo humano não é uma extensão homogênea de massa. Mas isto não retira o fato de que a alma, por sua natureza mesma, é indivisível.
3. Conclusão.
Um belo artigo! Eis um momento, em nossa longa viagem pela catedral da Suma, em que encontramos um belo espelho: podemos nos contemplar, a partir do ponto de vista divino, como resumo e síntese da criação, por um lado, e como imagem e semelhança de Deus, por outro. Esta síntese determina que sejamos, a um só tempo, compostos e unitários, individuais e complexos. Esta riqueza continua na próxima questão.
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