1. Palavras de retomada.
É pela alma que o ser humano é uno. Do mesmo modo que é pelo projeto arquitetônico que a casa é una, e é pela “triangularidade” que o triângulo é uno. Não faria sentido, pois, buscar onde, no ser humano, está a alma: é pela alma, antes de tudo, que ele é uno como ser humano. Logo, a alma está nele todo. E é justamente o sentido desta noção de “todo”, de uno, de razão de totalidade, que Tomás prossegue, agora, em sua resposta sintetizadora.
2. A segunda parte da resposta sintetizadora.
O todo é aquilo que unifica as partes, os elementos, e dá a eles o sentido de ente, de coisa, com concretude e individualidade. Mas há três maneiras pelas quais as partes se unificam para formar um todo, porque há três maneiras pelas quais podemos dividir um todo. Estas três maneiras de dividir marcam a existência de três maneiras pelas quais algo é uno, isto é, compõe uma unidade em sua existência, individualizando-se. São elas:
1. O todo pode ser dividido em partes quantitativas. Assim, se tenho um grande queijo com três quilos, posso dividi-lo em três partes de um quilo, de tal modo a presenteá-las aos meus três filhos.
2. O todo pode ser dividido em seus elementos estruturais essenciais; assim, posso dizer que a casa se compõe de planta arquitetônica, por um lado, e materiais de construção, por outro, dividindo sua forma de sua matéria. Se vejo aquela bolinha de tênis com a qual costumo brincar com meu cão, posso afirmar que ela se divide em forma esférica, e tem a borracha e o feltro como materiais constitutivos. Se defino um ser humano como um animal racional, essa definição pode dividir-se em gênero (animal) e diferença específica (racional).
3. O todo pode ser dividido em suas partes virtuais. Assim, por exemplo, um curso universitário unifica-se pela formação profissional que o unifica (medicina, direito, etc.), mas contém diversas partes, como as disciplinas, os estágios, a pesquisa orientada, a elaboração e defesa do trabalho final, que estão contidas no todo do curso e só têm sentido nele: ninguém faz um estágio de direito se não for um estudante do curso de direito em vias de tornar-se bacharel. Mas não há dúvida de que uma das partes do curso de direito é justamente o estágio.
Dadas, pois, estas três formas pelas quais algo que é uno, que é todo, pode ser dividido, Tomás passa a aplicar estes modos com as formas, para verificar quais delas são adequadas para reparti-las. É um modo de verificar de que tipo de “todo” estamos falando.
Vamos, então, ao primeiro modo pelo qual podemos dividir algo que é todo e uno em partes: a divisão quantitativa. Este tipo de divisão não é muito adequado às formas, exceto, talvez, às formas acidentais. Tomemos uma forma substancial, como a forma do triângulo. Não posso desenhar um triângulo numa folha de papel e depois dividi-lo como se divide um queijo. Se eu recorto o triângulo, não fico com vários pequenos triângulos como resultado, mas com pedaços destruídos que já não são triângulo de modo algum, porque a figura do triângulo não é apenas feita de uma certa quantidade de coisas homogêneas, como o queijo é feito da mesma massa. Mas, se falamos de formas acidentais, como, por exemplo, a cor, posso dividir algo quantitativamente, e a mesma cor pode estar em todos os fragmentos resultantes: se tomo um litro de leite bem branquinho e o divido em copos de leite, todos os copos terão leite igualmente branquinho. A forma da brancura não se vê alterada pela divisão quantitativa, porque não é a forma da brancura que dá a unidade substancial ao leite. Também não é a massa de leite existente num litro de leite que dá a ele a sua substância: o leite será leite, tanto na quantidade de um litro quanto num copo de 200 mililitros. Mas as formas substanciais não podem ser divididas quantitativamente: elas não se relacionam com cada parte do mesmo modo que elas se relacionam com o todo, e, portanto, se o todo for repartido, a forma substancial, que dava unidade ao ente, é destruída. A alma é uma forma substancial. A alma humana tem, em si, diversas operações, como as operações vegetativas, sensitivas e intelectivas. Portanto, se eu reparto o ser humano em pedaços, destruo a substância humana, e fico apenas com um cadáver esquartejado.
Portanto, a alma não é uma medida de quantidade, mas um fundamento de unidade substancial. Um homem com dois metros de altura e mais de cem quilos de peso é tão homem quanto um rapaz com um metro e meio e cinquenta quilos. Além disso, em ambos, a divisão quantitativa em pedaços não é possível sem a perda da própria substância humana. Se eu corto o braço de alguém, esse braço já não é mais um ser humano, mas apenas umaa parte de um ser humano separada dele.
E a divisão do segundo modo mencionado acima? O segundo modo de divisão é aquele que divide os elementos da própria essência da coisa. Assim, se o ser humano é um animal racional, este conceito divide-se em “animal”, que é o gênero, e “racional”, que é a espécie. O ser humano é um ente material. Logo, divide-se, segundo este modo de dividir, em “forma”, que é a alma, e “matéria”, que é a concretude do corpo. Este segundo modo de dividir é adequado, portanto, para as formas substanciais, porque, no fundo, é uma divisão lógica, não física.
Quanto ao terceiro modo de dividir, que separa uma totalidade em seus componentes virtuais, também é um modo de dividir que diz respeito à lógica. No caso do ser humano, temos diversas operações que são comandadas por nossa alma, desde as vegetativas, passando pelas sensitivas, até as intelectivas. Posso dividir, portanto, as operações humanas dentro destes três grupos de operações, sem romper a unidade existencial do ser humano. Vale dizer, a alma, que é o princípio da vida e das operações vivas, é uma totalidade que engloba diversas partes virtuais que podem ser divididas por uma operação mental de conhecimento.
Tendo estabelecido estes modos de relação entre as formas e a maneira de dividir algo, vamos entender, agora, esta relação, usando o exemplo da forma acidental que é a cor. Vamos pensar numa coisa extensa e branca; pensemos numa grande parede branca. Onde está a brancura? Será que a brancura inteira está na parede inteira e em cada parte dela?
Bom, diz Tomás, esta pergunta pode ser compreendida em mais de um sentido, e portanto pode ter mais de uma resposta.
Se pensarmos na quantidade de brancura, ou seja, em toda a extensão da superfície branca da parede, então é óbvio que a brancura inteira não está em toda e qualquer parte da parede. Se quebrássemos a parede em fragmentos, cada fragmento teria, em si, um pouco daquele branco que antes coloria toda a parede, e talvez com diferentes tonalidades e espessuras de pigmento. Somente a parede inteira contém a totalidade da brancura, mas não cada pedaço dela.
No mesmo sentido com relação ao terceiro modo de dividir, que é a totalidade do poder da completude. Essa totalidade, a totalidade das partes virtuais, não está em toda e qualquer parte da parede do mesmo modo, mas apenas na parede toda. Cada parte da parede não é capaz de conter todo o branco, de refletir toda a luz que somente a totalidade da parede reflete. Sob esta maneira de encarar a totalidade, tampouco se pode dizer que a brancura da parede, em todo seu poder de refletir a luz, encontra-se de modo total e completo em cada parte da parede. Somente na parede inteira há o branco inteiro, como somente o estudante que fez todos os períodos de um determinado curso está pronto para graduar-se.
Mas se pensamos em termos de integridade de noção e essência, todo o branco está em completamente em cada uma das partes, assim como está no todo. Cada pedacinho é branco, totalmente branco, assim como o todo. Reflete, portanto, a mesma frequência de luz. Neste sentido, no segundo modo de dividir, podemos dizer que a forma do todo está, completa e inteira, em cada uma das partes.
E quanto à alma humana? Ela não pode ser dividida conforme o primeiro modo, porque este é um modo de dividir as coisas materiais homogêneas, e ela não é material. Não é possível separar um quilo de alma, ou dez centímetros de inteligência. Assim, a alma está, integralmente, em todo o corpo, porque ela não tem pedaços nem extensão.
De fato, se pensarmos na segunda forma de dividir, a alma é um dos elementos que compõem o ser humano. Podemos dividir o ser humano em corpo e alma. Mas a alma, em si mesma, é simples, e não pode ser dividida em nenhuma parte, nem mesmo como análise lógica. Assim, também por este segundo modo de dividir, diríamos que a alma está toda inteira em todas as partes do corpo.
Mas o terceiro modo de dividir, aquele que divide o todo em suas operações, pode aplicar-se à alma humana. De fato, como vimos desde que começamos a estudar a antropologia de Tomás, a alma humana envolve em si diversas operações chamadas de vegetativas, sensitivas e intelectivas. Neste sentido, a alma não está inteira e totalmente em cada parte do corpo, mas relaciona-se com ele a partir das suas operações: a operação de ver está nos olhos, a operação de ouvir, nos ouvidos e assim por diante. Logo, sob este ponto de vista, diríamos que, embora a alma seja indivisível e esteja completa e total em todo o corpo, ela não está em todo o corpo do mesmo modo, em razão das operações e sua vinculação a diferentes órgãos corporais.
Neste sentido, a alma está, num modo primário, no ser humano como ente, uno e indivisível, como estrutura própria que o unifica substancialmente. E está em cada parte, por suas operações, ordenando-as para o todo que somos nós.
3. Encerrando.
O texto ficou mais longo do que eu esperava, mas ajudou a estabelecer critérios importantíssimos para compreender o ser humano. No próximo, estudaremos as objeções iniciais e as respectivas respostas de Tomás.
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