1. Voltando.

Cada célula do nosso corpo tem o nosso DNA. Cada uma delas. Isto é uma pista de que, de fato, a informação da nossa estrutura encontra-se em todas as partes de nossos ser, como os antigos intuíram.

Mas a ideia da figura geométrica também é interessante. Em qual parte do triângulo está a forma do triângulo? Em que parte do círculo está o círculo? Em todas, e em nenhuma. Porque a forma, sendo imaterial, é indivisível. Assim a nossa alma: está em nós, igualmente em todas as partes, porque é indivisível, sendo imaterial.

Mas estamos nos adiantando. Examinemos a resposta sintetizadora de Tomás.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Mais uma vez, Tomás adverte quanto ao dualismo daqueles que, como Platão, imaginam a relação entre a alma e o corpo como a relação entre uma marioneta e seu manipulador, ou uma carruagem e o cavalo: a relação entre um ente que move e outro que é movido. Esta é uma concepção equivocada, e somente por causa dela é que alguns pensam em termos de localização. Ora, só poderíamos pensar que a alma está em algum lugar se ela fosse algo como um motor do corpo: neste caso, ela estaria localizada ali onde o dinamismo do corpo move todas as outras partes, e o cérebro poderia ser uma boa localização. Mas a alma não é isto.

Já ficou bem estabelecido, a partir dos debates que acompanhamos nos textos anteriores, que a alma é a forma, a estrutura mesma do deste ente composto de forma e matéria que é o ser humano. Ela é a forma substancial do ser humano, e é por ela que existimos, é ela que estrutura nosso corpo e suas funções, ela nos torna algo estruturado, inteligível e, principalmente, algo inteligente. A forma torna a coisa aquilo que ela é: se desenho uma figura de lados retos, cuja soma dos ângulos internos é 180º, ela é um triângulo. E não é o papel, nem a tinta da minha caneta, nem sequer seus lados ou ângulos que fazem com que esta figura seja um triângulo; é a própria forma de triângulo que a torna substancialmente um triângulo. A forma de triângulo é que dá unidade, identidade e ser aos elementos que compõem a figura de triângulo no meu caderno.

Existem, é claro, coisas compostas que são formadas de elementos reunidos, mas estes elementos não são constituídos pela forma integral da coisa. Fica mais claro se dermos um exemplo: quando construímos uma casa, a forma final da casa está projetada na planta do arquiteto, e é em razão dela que vamos reunindo as partes, os elementos, os materiais de construção necessários para que a casa fique pronta: portas, janelas, piso, telhado e assim por diante. Mas não é a forma da casa que dá origem às suas partes; ao contrário, é a reunião das partes em certa ordem que dá origem ao produto final que é a casa. Assim, a forma da casa, tal como projetada na planta e devidamente construída no terreno, não é uma forma substancial, porque não é ela que faz surgir as portas, as janelas, os tijolos e assim por diante. Cada uma dessas partes, cada um desses materiais de construção, tem sua própria forma substancial, e a forma da casa é apenas uma forma acidental que, reunindo as diversas substâncias em certa ordem, compõe o resultado final, que é a própria casa.

Mas não é assim com as formas substanciais. Elas não são simplesmente uma espécie de guia para compor mecanicamente várias peças, de tal modo que, em ordem, as partes preexistentes funcionem como um todo. A forma substancial dá existência ao todo com todas as suas partes, de tal modo que, destruída a forma, o que resta já não é um ente, mas um despojo, um destroço. Se a forma de que estamos falando for uma alma, uma vez destruída, já não podemos falar que existe ali um animal ou um ser humano, mas apenas um cadáver, que é uma certa quantidade de matéria acidentalmente disposta no mesmo lugar, mas sem nenhuma unidade orgânica ou substancial. Um cadáver não é um ser humano, tanto quanto a fotografia de um ser humano não é um ser humano, ou uma mão amputada de um ser humano já não é um ser humano. É certo que, na linguagem cotidiana, às vezes nos referimos a um cadáver como se fosse a pessoa, mas esta é uma atribuição equívoca, similar àquela que fazemos quando olhamos para uma fotografia e dizemos que é aquela pessoa, mas é apenas uma imagem química impressa num papel. Um cadáver não tem mais as operações humanas, como um braço amputado também não tem e uma fotografia nunca as teve ou terá; e apenas aquilo em que está presente a forma substancial pode apresentar ou conservar as respectivas operações.

Portanto, é pelo seu todo, pela sua forma substancial, que o ser humano opera. Cada parte do ser humano vivo opera pelo todo, e é por isto que dizemos que a alma, sendo a estrutura que dá unidade existencial ao todo, está no todo e em cada uma de suas partes, indivisivelmente.

Talvez seja difícil para nós, hoje, conceber esta afirmação na prática. Nós tendemos a pensar no ser humano como uma máquina bem complexa, com partes autônomas funcionando como um mecanismo. Mas máquinas não têm forma substancial como nós e todos os seres vivos têm. As máquinas têm apenas a forma acidental superior que reúne e ordena suas peças, como a planta do arquiteto é a forma acidental superior que reúne os materiais de construção que dão origem à casa. Nós, seres humanos, não somos máquinas, mas substâncias.

3. Palavras de fechamento.

Como se dá esta unidade? Quais as características dela? Não seria razoável pensar que nós somos meros mecanismos, compostos de partes coordenadas, cuja unidade acidental é destruída pela morte?

No próximo texto estudaremos, com Tomás, as razões pelas quais não somos máquinas nem mecanismos, mas substâncias, ou seja, entes com uma forma substancial unificadora e existencial chamada alma.