1. Introdução.

Onde está sua alma? Se tivéssemos que responder isto assim, de inopino, tenderíamos a dizer que ela está no cérebro. Mas esta é uma ideia errônea, que parte de uma concepção correta de que a alma humana tem na inteligência seu traço distintivo, e nós costumamos associar o pensamento ao cérebro. Mas esta associação é simplista. De fato, os olhos são o nosso órgão de visão; mas a visão mesma não está no olho: não é meu olho que vê, sou eu. Sem os olhos não posso ver. Se meus olhos estiverem doentes, não posso ver. Mas eles são apenas os instrumentos de uma operação que é minha, não deles. Com o cérebro e o pensamento ocorre algo semelhante. O cérebro é, certamente, um instrumento da inteligência, mas a inteligência, em sua operação mesma, é imaterial.

Mas estamos nos alongando em digressões. A questão aqui é outra, e ainda decorre do erro consistente em pensar a alma como uma coisa, como um ente, análogo aos entes materiais. O que ela, certamente, não é. Assim, a questão é: sendo a alma uma realidade imaterial, em que lugar do corpo ela está? No meu braço há a minha alma? Se alguém amputa um membro ele perde uma parte da alma?

Este debate é interessante. Vamos imaginar o seguinte: um triângulo é uma figura geométrica cuja soma dos ângulos internos é 180 graus. Se eu desenho um triângulo numa folha de papel, em que lugar do desenho está o triângulo? Na sua base? Nos ângulos? Se eu tomo somente um dos lados, ainda tenho um triângulo? É claro que a analogia entre uma figura geométrica e uma alma humana é muito limitada, mas ela nos leva a refletir.

Vamos ao artigo.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida, aqui, e exatamente a de que a alma não se encontra do mesmo modo, em sua completude, em qualquer parte do corpo, mas localiza-se especialmente aqui ou ali. São cinco os argumentos objetores no sentido desta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor cita Aristóteles, que, na obra “Do Movimento dos Animais” afirma que não é necessário que a alma esteja em cada parte do corpo; é suficiente que ela, estruturando o princípio da vida nos animais, vivifica suas partes, fazendo-as viver, porque cada parte tem o seu movimento natural”. Ora, se é assim, então a alma está em algum princípio do ente vivo, mas não em cada parte do corpo, que se move por sua própria natureza, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

A alma é o ato do corpo, isto é, é a sua estruturação funcional, que o torna algo orgânico, vivo, funcional. Mas nem tudo o que existe no corpo humano é orgânico, vivo e funcional. E, portanto, não está estruturado pela alma. Logo, conclui o argumento, a alma não está em todos os lugares do corpo.

O terceiro argumento objetor.

Na sua obra “Sobre a Alma”, Aristóteles expressamente afirma que a relação de uma parte da alma com uma parte do corpo é análoga à relação do sentido da vista com a pupila dos olhos: a pupila concentra, em si, a operação de ver que é da alma. Ora, o corpo concentra em si a estrutura que é o resultado da presença da alma. Mas se a alma inteira estivesse completa e uniformemente em todo o corpo, cada parte do corpo seria capaz de regenerar-se, se fosse cortada, e dar origem a um ser inteiro. Logo, a alma não se encontra completa e uniformemente em todo o corpo.

O quarto argumento objetor.

Sabemos que a alma, por essência, concentra em si todas as operações do ser humano. Assim, se a alma estiver completa e uniformemente em todo o corpo, então todas as operações humanas estão completa e uniformemente espalhadas por todo o corpo, e o pé seria capaz de ver, ou o olho de ouvir. Mas isto não ocorre. Assim, a alma não está toda e uniformemente presente em qualquer das partes do corpo, conclui o argumento.

O quinto argumento objetor.

Se a alma estivesse igualmente em todas as partes do corpo, diz o argumento, isto significa que cada estrutura corporal contém, em si, toda a informação necessária para funcionar. Sua estruturação, seu funcionamento e sua importância seria igual à de todas as outras partes do corpo, porque elas não seriam interdependentes, mas cada uma dependeria apenas da própria alma que contém em si inteiramente. Mas o corpo humano não é assim: as partes são interdependentes, as funções são repartidas e há partes mais essenciais ao todo do que outras. Logo, conclui o argumento, a alma não está inteira em cada parte do corpo.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra traz a autoridade de Santo Agostinho que, na obra “Da Trindade”, diz que a alma está de modo completo em todo o corpo, como está toda em cada uma das partes dele. Esta maravilhosa visão holística do ser humano encerra o quadro do debate.

5. Encerrando.

No próximo texto iniciaremos o exame da resposta sintetizadora de Tomás.