1. Retomando.

Sempre que há um ser humano, há uma alma que dá forma à matéria de tal modo que exista. Ali, um corpo. Por isto, é falso imaginar que o corpo precise apresentar algum tipo de requisito acidental (tamanho, peso, idade gestacional, etc.) para receber uma alma humana. Ao contrário: é por existir uma alma humana que um ser humano, por microscópico que seja, tem tamanho, peso, idade gestacional, etc. Colocados estes princípios, vamos voltar a examinar, com Tomás, os argumentos objetores iniciais, para aprender com as respostas que ele nos oferece.

2. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento parte da ideia de que toda forma precisa de certas predisposições da matéria para poder dar origem a um ente; assim, os seres vivos, por exemplo, pressupõem a existência de certas cadeias químicas complexas para existir, sendo certo que não surgem, por exemplo, somente da areia ou do ferro. Assim, é necessário que haja, na matéria, certos acidentes, como a quantidade certa de determinados elementos, a temperatura ideal, a posição, o momento, para que a forma possa unir-se à matéria. Assim também com a alma, diz o argumento. É necessário que o corpo apresente certas qualidades, certas características, de modo a tornar viável que a alma venha a ocupá-lo. Portanto, conclui o argumento, há certos aspectos acidentais da matéria que o corpo deve apresentar antes de receber sua forma substancial, que é a alma inteligível.

A resposta de Tomás.

Já vimos, mais acima, que este argumento ainda é retomado hoje em certos debates, como o debate sobre o momento em que o embrião humano apresenta certas características que o tornariam digno de ser considerado humano, de tal modo que não fosse mais lícito abortá-lo. Tomás assinala, em sua resposta, que não são os acidentes que possibilitam a existência de uma forma substancial, mas justamente o contrário.

É uma e só forma substancial que faz um ente ser o que é. Nenhum ente apresenta mais do que uma, e só uma, forma substancial. Assim, a forma substancial do cão é a espécie canina, a forma substancial da roseira é a espécie de rosa e assim por diante. Já ficou estabelecido, nos artigos anteriores, que cada forma superior, mais complexa, contém em si as operações da forma anterior, de modo virtual: quer dizer, a forma de cão contém em si as operações vegetativas, que são características dos vegetais, como a forma humana contém em si as operações da sensibilidade, que são características das espécies animais, além de conter as operações propriamente intelectuais. As formas inanimadas caracterizam-se por existir e por serem corpóreas, as vegetais acrescentam as operações vegetativas, as formas animais trazem as operações dos sentidos e a forma humana acrescenta as operações intelectuais.

Assim, é pela própria forma substancial, única, que alguma coisa é:

1) um ente existente;

2) é corpóreo;

3) é vivo;

4) é capaz de alimentar-se, crescer, reproduzir-se;

5) Pode explorar e perceber o mundo circundante pelos órgãos dos sentidos, ter memória e até estimativa dos acontecimentos;

6) Pode inteligir.

Todas estas operações são realizadas, no ser humano, pela mesma e única alma intelectiva que é sua forma substancial. É por ela que existimos, somos corporais, somos vivos, nutrimo-nos, percebemos o mundo e inteligimos.

A alma humana apresenta, pois, operações que são próprias das formas inanimadas, como existir na corporeidade, das formas vegetais, como nutrir-se e crescer, e das formas animais, como perceber o mundo pelos sentidos.

Ora, cada um desses gêneros (inanimado, vegetal, animal, humano) tem seus acidentes próprios, que nos são manifestos. Não conseguimos entrar em contato sensorial com essências, com o núcleo do ser de cada ente: não apalpamos, não olhamos, não ouvimos, não cheiramos nem saboreamos essências, mas apenas acidentes. Nosso conhecimento decorre sempre do contato com os acidentes daquilo que se apresenta a nós. Assim, do contato com a realidade, percebemos que algo é existente porque nos interpela a partir de fora. Percebemos que é corporal porque se dá aos nossos sentidos. Percebemos que é vivo, porque é capaz de modificar-se, e assim por diante.

Assim, por nossa forma de conhecer a realidade é que percebemos que a existência é mais fundamental que a corporeidade, e esta do que a vida, e esta do que a sensibilidade, e esta do que a inteligência. Mas isto não significa que estas dimensões do ser estejam separados na própria coisa que observamos: somos inteligentes e sensíveis e vivos e corporais e existentes ao mesmo tempo, pela mesma razão: a nossa alma. A ideia de que uma esfera desta tem que existir no tempo para possibilitar a existência da esfera posterior é uma confusão própria de quem não distingue entre a estrutura essencial da coisa, por um lado, e a ordem da sua manifestação, por outro. Que os acidentes relativos a cada ordem desta sempre pressupõem os acidentes anteriores é indiscutível. Mas que é a mesma e única forma substancial que une o ser que apresenta todos estes aspectos é indiscutível também.

O segundo argumento objetor.

Cada um dos seres humanos efetivamente existentes, diz o argumento, pertence a uma espécie, à mesma e única espécie humana. Mas seus corpos os individualizam; cada ser humano é um indivíduo único porque está marcado por esta quantidade de matéria que forma o seu próprio corpo.

Ocorre que, quando falamos “desta” quantidade de matéria, falamos de algo perfeitamente delimitado no espaço e no tempo, uma quantidade certa de massa que tem dimensões espácio-temporais próprias e bem definidas.

Mas esta delimitação, esta quantidade, estas dimensões, representam acidentes da matéria. Logo, a individualização concreta do ser humano, este ente composto de corpo e alma, pressupõe certos acidentes prévios na matéria, pelos quais ela recebe a alma, individualizando os muitos seres da mesma espécie, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

De fato, cada porção da matéria que constitui um corpo possui dimensões próprias, uma certa quantidade de massa e qualidades proporcionadas ao corpo ao qual ela pertence. Ou seja, os acidentes dos corpos decorrem do fato de que os entes são corporais, e não o contrário: não é porque existe uma quantidade de matéria ali, que existe um ente corporal. Mas porque há um ente corporal, há ali uma quantidade de matéria.

Assim, de fato, nós podemos, com a nossa inteligência, perceber que há a mesma forma em diversas porções diferentes de matéria, e com isso imaginar que a individualização dos seres da mesma espécie é resultado da quantidade da matéria que compõe seu corpo. Mas isto não significa que, na própria coisa, a quantidade e as qualidades do corpo sejam anteriores à sua estruturação pela sua forma substancial: com isto, estaríamos confundindo a ordem do ser com a ordem do conhecer, e invertendo a realidade do mundo em razão das características do modo humano de percebê-lo.

O terceiro argumento objetor.

Qualquer ser substancialmente espiritual é capaz de interagir com a matéria em razão da sua capacidade de exercer seu poder sobre ela, movendo-a. É assim que os anjos, por exemplo, movem a matéria, exercendo sobre ela o poder de sua vontade dirigida a movê-la. Ora, a alma humana é espiritual, e portanto relaciona-se com o corpo por seu poder sobre a matéria. Logo, é por um acidente, a potência sobre a matéria, que a alma se relaciona com o corpo humano.

A resposta de Tomás.

Quando um anjo move a matéria, ele está relacionado com ela acidentalmente, como movente e movido. Trata-se de um ente espiritual, o anjo, movendo, a partir de fora, um outro ente, material.

Mas não é esta a relação da alma humana com o corpo. A alma não é o movente externo de um corpo que fosse essencialmente estranho a ela, mas ela é o elemento que estrutura esse corpo a partir da matéria. Ou seja, a alma espiritual é parte componente do ente composto de matéria e forma que é o ser humano; portanto, todo seu dinamismo não é exercido como se fosse um movente ou motor, mas como forma estrutural viva, capaz de dinamizar o ente do qual é estrutura, por ser uma estrutura dinâmica. É claro que a alma tem capacidade e poder de mover, mas não como um motor move um movido, mas como uma estrutura viva se organiza como ser vivo. Nisto, a alma espiritual diferencia-se profundamente da natureza do anjo. O anjo é um ente espiritual, a alma é a estrutura espiritual de um ente material.

3. Conclusão.

A alma é uma estrutura. É por ela que o corpo é corpo. Isto é muito importante de estabelecer, porque a alma não é algo como uma entidade fantasmagórica pairando por aí, mas a própria estruturação de um ser vivo. Olhar um ser humano, ver seu corpo, é ver a manifestação externa de sua alma. Voltaremos a isto no próximo artigo.