1. Retomando.

Vimos, então, as tendências históricas a imaginar que existem algumas características acidentais que “preparam” o corpo humano para receber a alma como sua forma substancial, em três argumentos, e vimos também o argumento sed contra que, fundamentando-se na filosofia de Aristóteles, declara que não pode haver nenhuma estrutura acidental em algo sem que ali haja, primeiro (tanto do ponto de vista lógico quanto do ponto de vista cronológico) uma estrutura formal substancial; no caso do ser humano, não pode haver nenhuma característica acidental (massa, tamanho, posição, cor, etc.) sem que haja, ali, uma alma espiritual humana a estruturar aquele ser. Agora examinaremos a própria resposta sintetizadora de Tomás.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Existe uma tendência, com raízes em Platão, de ver a alma como uma espécie de “motor” espiritual, e o corpo como um mecanismo externo a ela, que ela movimentasse como um manipulador faz com um fantoche.

Se isto fosse verdade, diz Tomás, então seria necessário, realmente, que o corpo tivesse alguma estrutura formal independente da alma, que o configurasse como um objeto a ser movido, com posição, tamanho e massa e toda uma articulação mecânica que o tornasse apto a ser movido e, por outro lado, um poder energético na alma que a possibilitasse mover exatamente este corpo. Mas já vimos, em outros debates, que as coisas não são assim: corpo e alma são elementos do mesmo ser humano, e a alma é a própria estrutura substancial do próprio corpo, e não um motor que o dinamiza. Assim, não pode existir alguma estruturação essencial do corpo, que o caracterize como corpo, que não advenha exatamente da alma. Não há, pois, no corpo humano, alguma estrutura prévia à alma. É a alma que faz com que um corpo humano exista. Se existe um corpo e é humano, é estruturado pela alma.

Tendo posto isto, Tomás passa a explicar a relação entre as formas e a matéria, num plano geral. Sabemos que a matéria, na forma de matéria-prima, é pura potencialidade para existir. Isto significa que, quando algo material existe, ele já não é matéria-prima, porque sua potencialidade para existir virou ato: aquilo que simplesmente podia existir de qualquer modo (que era a matéria-prima), agora efetivamente existe de determinado modo, como ente material. Ou seja, a matéria-prima descreve um estado de não existência, uma capacidade, uma possibilidade de existir. Indefinida, porque pode ser qualquer coisa. Exatamente porque ela pode ser qualquer coisa, ela ainda não é nada. Quando algo passa a existir, ele deve necessariamente ser alguma coisa, o que a define. Portanto, quando alguma coisa existe, ela tem que ser alguma coisa, alguma substância. Logo, o primeiro ato, a primeira perfeição de alguma coisa é sempre o seu existir mesmo, e seu existir é sempre definido pelo fato de que ela é algo. Ser alguma coisa, ser uma substância, é a primeira coisa que se pode dizer ou perceber de algum ente. Porque é a primeira coisa, tanto logicamente, como cronologicamente, em qualquer ente.

Portanto, nada pode ter algum tamanho, alguma cor, alguma massa, alguma idade, alguma temperatura, antes de ser alguma coisa. Por isto, é uma grave inversão debater, por exemplo, quantos dias de gestação ou quantos gramas de peso precisa ter um embrião para ser considerado um ser humano: na verdade, ele tem que ser um humano para poder ter dias de gestação ou certo peso ou tamanho. E para ser um humano ele precisa ter a forma substancial de humano, que é a alma intelectiva.

Assim, antes de haver uma alma intelectiva, não há ser humano. Logo, não pode haver um corpo. Assim, precisamos parar de pensar no ser humano como alguém composto de corpo e alma; o corpo já é o resultado da estruturação da matéria pela alma, logo ele não é algo oposto ou adicionado à alma, mas o resultado mesmo da existência dela.

3. Palavras de encerramento.

No próximo texto, já de posse destes princípios, examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.