1. Introdução.
Do quanto vimos até aqui, já vimos que o ser humano é um animal peculiar; dotado de corpo material e alma espiritual, está sujeito à morte, mas sobrevive como um ente incompleto, imaterial, pela sobrevivência de sua alma subsistente. Mas por que razão, afinal, uma alma subsistente, capaz de operar sua inteligência independentemente do corpo, deveria estar unida à matéria?
Já sabemos que o corpo não pode ter outra estrutura senão a alma. Mas por que a alma precisa estruturar um corpo? Este é o debate que se iniciará agora.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida, aqui, vai numa direção interessante. Sim, de fato já ficou bem estabelecido que este animal peculiar que é o ser humano não pode ter outra estrutura formal além da alma intelectiva. Mas por que razão a alma intelectiva precisa ser a estrutura de um ser humano, vale dizer, por que a alma precisa estruturar um corpo para constituir o ser humano como ser material? Que razão leva a isto?
A hipótese controvertida, aqui, vai assumir que isto não é necessário, vale dizer, que não há nenhuma necessidade de que uma alma humana venha a estruturar um corpo material para constituir um ser humano como um ser de corpo e alma. Ela poderia, perfeitamente, existir como um ente completo e perfeito apenas na sua imaterialidade, afirma o argumento. Há quatro argumentos objetores iniciais no sentido desta hipótese.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento lembra que a forma deve ser proporcionada à matéria com a qual ela se relaciona. Uma forma viva relaciona-se com matéria orgânica, como uma forma inanimada geralmente tem relação com corpos homogêneos, como rochas e corpos d’água. Por outro lado, os seres vivos têm a característica de serem destrutíveis, corruptíveis com o tempo, morrendo. Ora, a alma intelectiva, como já vimos na questão anterior, é indestrutível, incorruptível. Portanto, não faria sentido que ela fosse unida a um corpo, formando um ser mortal, destrutível, corruptível. Assim, as almas intelectivas não estão naturalmente unidas à matéria, formando corpos, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento lembra que a questão anterior, que é a questão 75, provou que a alma humana é capaz de operações estritamente espirituais e independentes da matéria, como a intelecção. Ora, se é assim, a alma humana deveria unir-se apenas a corpos levíssimos, sutilíssimos, etéreos, compostos de gases e de energias vibratórias, adequado à natureza elevada da alma humana, e não a um corpo rude, terreno e pesado como o corpo humano, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento é curioso; ele defende que, sendo a alma intelectiva a forma básica da espécie humana, ela não deveria dar origem a um ser que é, em si mesmo, tão heterogêneo: compartilha diversas estruturas com outras espécies animais e mesmo parece ter funções corporais tão diversas que não podem vir de uma forma elevadíssima e tão única com a alma espiritual. Logo, a alma humana, sendo tão elevada e inteligente, deveria dar origem a um ser homogêneo com funções corporais peculiares, diversas dos outros animais e elevadíssimas, sem compartilhar características com os outros animais, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
A alma intelectiva é a forma mais perfeita do mundo material. Logo, ela deveria incorporar tudo o que há de mais perfeito dentre os seres materiais, inclusive as características corporais mais avançadas, mais vantajosas para proteção e defesa. No entanto, vemos espécies animais que são muito mais dotadas de atributos como a velocidade no correr, a capacidade de enxergar longe, a força corporal, os pelos de proteção térmica, a audição refinada ou o olfato agudo. Ora, se a alma humana fosse, de fato, naturalmente a forma de um corpo, ela deveria trazer a este corpo todas estas vantagens. No entanto, o corpo humano é frágil e pouco dotado de recursos naturais. Logo, a alma humana não está necessariamente ligada a um corpo tão imperfeito, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra traz uma citação de Aristóteles, que afirma simplesmente que a alma humana é a perfeição, o princípio da vida, o ato daquele ser corporal e orgânico que, por si, é potencial para a vida.
5. Palavras de fechamento.
Colocados assim os princípios do debate, veremos a resposta sintetizadora de Tomás no próximo texto.
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