1. Retomando.

Quase chegando ao fim deste artigo, vimos a importância de reconhecer que a alma intelectiva é a estrutura, quer dizer, a forma substancial do ser humano, e isto implica reconhecer a inteireza, a substancialidade do ser humano marcada pela inteligência. Não se trata, da parte de Tomás, de promover alguma ideologia ou alguma maneira distorcida de ver o ser humano, para fins de manipulação de alguma agenda política. Trata-se simplesmente de reconhecer a verdade antropológica, aquilo que nos faz ser o que somos. Alma intelectual estruturando a matéria em corporeidade inteligente.

Vamos examinar as respostas de Tomás ao terceiro e quarto argumentos.

2. O terceiro e o quarto argumentos objetores.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor lembra que há uma hierarquia nas formas: elas são consideradas tão mais perfeitas quanto menos se relacionem diretamente com a matéria-prima. Assim, a forma de uma pedra, que estrutura a matéria-prima diretamente como coisa inanimada, seria muito menos perfeita do que um anjo, que é pura forma sem matéria. Ora, se a alma humana é a forma substancial que estrutura a matéria para formar o próprio corpo humano, isto significa que a alma humana dá estrutura à matéria-prima, moldando-a para compor o corpo humano em sua materialidade. Mas isto faria a alma humana lidar diretamente com a matéria-prima, tornando-o mais próximo das formas inanimadas do que dos anjos. Ora, se fosse assim, teríamos que admitir que a alma humana é algo muito primário, tosco e imperfeito. Por isto, o argumento conclui que há, no ser humano, alguma forma substancial intermediária que lida com a matéria-prima, estruturando o corpo para que ele venha a receber a alma.

A resposta de Tomás.

A relação das formas com a matéria realmente obedece a uma hierarquia de perfeições. Desde as formas minerais, simplesmente inanimadas, até as formas vegetativas, sensitivas e, finalmente, as formas intelectivas, como a alma humana. No entanto, seria um erro imaginar que as formas hierarquicamente mais perfeitas devem deixar de exercer as operações das formas menos perfeitas, em razão de sua perfeição. Isto é, a forma superior acumula as operações das formas anteriores sem deixar as operações próprias, mais elevadas, que a caracterizam. Por isto, a alma humana acumula as operações que vão desde aquelas próprias das formas mais simples, como estruturar a matéria-prima, até as operações mais imateriais, como aprender e pensar. Dito isto, percebe-se que é desnecessário (e falso) pleitear que o grau de perfeição da alma humana a impede de ser a única forma substancial do ser humano. Ou seja, o argumento é falso.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento objetor é muito interessante, porque nos leva a refletir sobre a importância da forma substancial como doador de unidade substancial, de identidade no ser; este argumento relaciona-se com a visão mecanicista, atomista, que estava presente no tempo de Tomás e, de modo muito mais agudo, no nosso mundo de hoje.

Pensemos num muro: ele é uma coisa composta de cimento, tijolos, areia e tinta. Mas, uma vez terminada a construção, os elementos estão, agora incorporados no muro, e já não têm existência própria. Em que medida podemos dizer que há tijolos num muro já construído? Ora, é claro que ele é feito de tijolos, mas, de certo modo, os tijolos já não têm uma existência autônoma.

Ocorre algo análogo no corpo humano. Temos, em nós, muitas estruturas complexas, como as longas moléculas de DNA. Nosso corpo é constituído de órgãos até capazes de alguma sobrevida autônoma, como o coração e o sangue. Não somos uma estrutura homogênea, como a areia e as pedras; somos seres complexos, com uma estrutura heterogênea.

Por outro lado, se imaginássemos que todos os elementos e estruturas que compõem nosso corpo simplesmente deixassem de ser o que são para ser simplesmente o nosso corpo, então o processo de formação do nosso corpo não resultaria em algo estruturalmente heterogêneo, mas as estruturas seriam simplesmente destruídas, ao serem incorporadas em nosso corpo, formando, aqui, um corpo homogêneo. Seria como se, ao construir o muro, o pedreiro moesse todos os tijolos, junto com o cimento, a areia e a tinta e simplesmente amontoasse o resultado, juntando com água e esperando endurecer. O muro seria, assim, perfeitamente homogêneo.

Portanto, prossegue o argumento, as estruturas e elementos que compõem nosso corpo têm que manter suas próprias formas substanciais, de modo a garantir a heterogeneidade estrutural necessária para que possamos existir. Ou seja, a heterogeneidade do nosso corpo determina que tenhamos muitas formas substanciais em nós, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

É claro que Tomás não concorda com a ideia de que haja, no ser humano, várias formas substanciais para as partes componentes, porque, afinal, isto nos transformaria em um aglomerado acidental de coisas reunidas, um grande mecanismo circunstancialmente reunido num todo.

No entanto, mesmo um grande pensador como Avicena não conseguiu compreender bem a maneira pela qual as substâncias formadoras se harmonizam, se integram num todo, quando vão constituir uma nova substância. Para Avicena, os elementos componentes de uma substância permanecem substancialmente presentes na substância, mas as suas qualidades opostas são harmonizadas pela média; assim, digamos, aquilo que é duro amolece um pouco, aquilo que é mole endurece um pouco e assim por diante. Mas as substâncias que estão ali continuam a ser, substancialmente, elas mesmas, para Avicena, de tal modo que, em vez de dizer que em meu terreno há um muro de cinquenta metros, eu teria que dizer, por exemplo, que na minha casa há um muro de cinquenta metros, uma tonelada de cimento e mil tijolos – embora, na prática, os tijolos e o cimento já não existam como substâncias independentes, mas apenas como componentes do muro.

Isto é absurdo, diz Tomás. Cada coisa corporal existe como uma extensão em determinada área de espaço, num determinado tempo. Como diz o velho ditado, dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo. Logo, se cada elemento material que compõe o ser humano mantém sua forma substancial, sua existência como coisa autônoma, então ali onde ela estiver não há um ser humano, mas aquela coisa. Assim, naquele lugar do espaço onde há, digamos, osso, não há ser humano, mas osso. Onde há, digamos, tendão, não há ser humano nem osso, mas tendão, e assim por diante. Na verdade, portanto, não teríamos um corpo composto, mas verdadeiramente uma superposição de coisas reunidas acidentalmente pela proximidade; ou seja, o ser humano seria um mero aglomerado de unhas, pele, carne, sangue, ossos e gordura, e não um ente em si mesmo. A superposição de coisas, sua união em uma área espacial compacta, dá a ilusão de que aquilo é um ente, mas é apenas um aglomerado de entes. Logo, a solução de Avicena é inaceitável, diz Tomás. Não pode haver, de fato, realmente, uma forma substancial inferior, quando uma forma substancial superior unifica o ente. As coisas inferiores perdem sua substancialidade e passam a ter uma existência subordinada. Claramente, enquanto eu tenho um muro, eu não tenho os tijolos.

Mas como se dá isto?

Tomás resgata, aqui, os ensinamentos de Averróis.

Averróis ensinava que aqueles elementos que entram na composição de alguma outra coisa, como os tijolos no muro, adquirem um certo modo imperfeito de existir, e as suas formas substanciais perdem, em algum grau, sua substancialidade, mas sem chegar a virar meros acidentes. Eles seriam, assim, algo intermediário entre a forma substancial e a forma acidental; e o grau pelo qual estas formas são consideradas como “mais substanciais que acidentais” ou “mais acidentais que substanciais”, e este grau depende do tanto de integração na forma substancial superior que resulta na unificação do ente. Portanto, a forma substancial de muro determina que a forma dos tijolos passem a ser “mais ou menos substanciais”.