1. Retomando.

A alma humana é uma única estrutura formal, e é a única estrutura formal que organiza o ser humano para ser o que é. As outras estruturas que os indivíduos humanos apresentam não estão em sua alma, porque são acidentais, como a cor, a altura, o peso, a aparência em geral, o cabelo, enfim, tudo aquilo que nos torna acidentalmente diferentes. E mais, esta alma humana é, a um tempo, uma species, isto é, aquilo que nos identifica como exemplares de uma mesma espécie, e ao mesmo tempo é uma estrutura individual, que determina que cada um tenha sua própria inteligência. Respeitadas estão, assim, tanto a unidade da dignidade quanto a riqueza das diferenças, tanto a unidade da verdade quanto a diversidade de pontos de vista e opiniões.

Havendo estabelecido todos estes princípios, Tomás passa a enfrentar os argumentos objetores iniciais, que enriquecerão muito nossa visão sobre sua antropologia tão rica.

2. As respostas aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor cita ninguém menos do que Aristóteles, que teria, segundo o argumento, construído uma verdadeira oposição complementar entre o corpo e a alma. A alma, segundo cita o argumento, seria descrita por Aristóteles como a atualização, para a vida, do corpo inerte. Assim, como a matéria está para a forma, diz o argumento, o corpo estaria para a alma. Ora, se a matéria precede à forma e está além dessa, então o corpo deve preceder a alma e estar além dessa. Mas o corpo não é algo disforme e indeterminado; ele já tem alguma estrutura, que o leva a ter determinado formato, determinado aspecto, determinadas características. Portanto, conclui o argumento, o corpo deve ter alguma forma substancial que o determina a ser corpo, de modo a torná-lo apto a receber a alma que o vivificará. Logo, há, no ser humano, mais de uma forma substancial: a forma substancial do corpo, que é sua estrutura, e a alma, que é princípio de animação e vida.

A resposta de Tomás.

Não podemos entender mal a posição de Aristóteles, adverte Tomás. Ele nunca disse que a alma é algo como um princípio de vivificação de um corpo que independe, em sua estrutura, da alma mesma. Na verdade, ele diz apenas que a alma é o próprio ato, a própria perfeição e culminação do corpo, do organismo corporal que, em si mesmo, é apenas potencial para a vida. Mas isto não significa que o corpo se constitua sem a alma: ela, sendo imaterial, estrutura o próprio corpo. Não há algo como um “puro corpo” sem alma; o corpo, como estrutura material e orgânica de vida, já é um resultado da estruturação que a alma dá ao ser humano.

E Tomás nos propõe, então, algumas analogias. A alma é elemento deste ser que é o ser humano, sendo o princípio de sua vida e de suas perfeições. Ela inclui em si a perfeição do corpo. De modo análogo, poderíamos dizer que a perfeição do fogo é o calor; o calor é, de fato, o ato do fogo. Mas não há o próprio fogo ali onde não há calor: o calor é a estrutura do fogo, além de ser seu resultado. Do mesmo modo a luz: ali onde há claridade, há luz, mas não há algo como uma “claridade sem luz”, à qual a luz seja acrescida como uma perfeição. A claridade, o corpo luminoso, já é, em sua estrutura mesma, luminoso.

Do mesmo modo o ser humano: a vida é sua perfeição última, e operação fundamental da alma. Mas não há uma operação desvinculada do próprio ser que opera: a operação é chamada, classicamente, de “ato segundo” do ser. A sua existência mesma, o seu ser, é o ato primeiro. Assim, a alma é a estrutura de um ser cujo ato primeiro é existir e cujo ato segundo é operar com vida. Não se pode, portanto, separar, neste ser, a alma do corpo, porque o corpo só existe em razão da alma.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor envolve a ideia de que a vida constitui-se pela capacidade de mover-se a si mesmo. Mas nada, a rigor, pode mover a si mesmo, salvo se for constituído de duas partes, uma que move, outra que é movida, como ensina Aristóteles. Nesta composição, prossegue o argumento, está claro que a alma é que move, e o corpo, o que é movido. Assim, se a alma é aquilo que move, ela está para o corpo como o motor está para o movido.

No entanto, insiste o argumento, aquilo que é movido deve ter, em si, alguma estrutura. Aquilo que é material e não tem absolutamente nenhuma estrutura é pura matéria-prima, e já vimos que a matéria-prima não tem existência no mundo real, das coisas; existe apenas como um ente de razão, ou seja, como algo que é considerado necessário, pela inteligência, para compor todas as coisas. Mas nenhum motor pode mover um mero ente de razão. Portanto, se o motor e o movido devem ser coisas diferentes, e se o movido não pode ser pura matéria-prima, isto significa que o movido, ou seja, o corpo, deve ter uma estrutura, uma forma substancial, diversa da alma que o move. Assim, o argumento conclui que o ser humano deve ter mais de uma forma substancial: a próopria alma, por um lado, e a forma do corpo, por outro.

A resposta de Tomás.

O argumento não descreve corretamente o processo pelo qual o ser vivo (e dentre eles o ser humano) move-se a si mesmo. A alma não é algo como um motor externo espiritual que energiza, que dá dinamismo a um corpo externo a ela mesma. Ela é a estrutura de um corpo vivo, capaz de, por algumas de suas partes materiais, mover as outras. Ora, esta estruturação dinâmica que a alma dá ao ser humano, e que faz com que ele seja vivo, pressupõe exatamente a existência de um corpo estruturado pela alma, e estruturado de tal maneira que seja capaz de ter partes motoras, partes móveis e partes movidas. Portanto, a alma não é algo como um “motor espiritual externo” a um corpo passivo, como se fosse um mestre invisível de marionetes, mas ela é o próprio princípio de estruturação deste corpo que, justamente por ter como estrutura uma alma, é vivo e capaz de mover-se.

3. Palavras de encerramento.

Examinaremos, no próximo texto, as respostas de Tomás ao terceiro e ao quarto argumentos.