1. Palavras de retomada.
No texto passado, vimos a hipótese controvertida de que há, no ser humano, alguma outra forma substancial além da alma intelectiva. A ideia é a de que o corpo humano tem sua própria estrutura, sua própria forma, que existe ao lado ou para além da alma, e a alma encontraria este corpo já estruturado, e como que habitaria nele, ou o moveria, como uma espécie de motor ou energia espiritual.
Veremos, agora, a resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
É claro que Tomás não admite que pudesse haver, no ser humano, outra forma substancial além da alma. Mas não é difícil perceber como é fácil imaginar que a alma não seja a forma substancial do ser humano, ao lembrarmos que costumamos falar em “corpo e alma” como coisas opostas. É como se o corpo fosse uma realidade externa, oposta à alma, que seria uma espécie de energia espiritual que move um corpo. Assim, a alma poderia animar outros corpos, eventualmente até possuir outros corpos animados por outras almas, e a morte seria a “separação entre o corpo e a alma”, como se a alma simplesmente deixasse um corpo desligado ao sair. Esta é, exatamente, a visão platônica, diz Tomás. O corpo seria uma estrutura própria, extensa e sólida, que a alma moveria, energizando-a, vivificando-a.
Mas, se imaginássemos que o corpo humano é uma substância em si mesma, que seria “energizada”, ou “vivificada”, por uma alma que agiria como um motor espiritual, diz Tomás, teríamos que imaginar que o corpo teria sua própria estrutura, isto é, que ele seria constituído de matéria e de forma próprias, e apenas vivificado por uma alma externa a ele. Mas as coisas não podem ser assim, diz Tomás. É necessário que o próprio corpo seja estruturado pela alma, e não seja algo externo ou precedente a ela, como querem alguns. Não pode haver uma forma estrutural para o corpo humano, uma forma substancial que seja diversa da própria alma intelectiva. A própria alma humana estrutura o corpo humano.
De fato, Tomás passa a nos dar uma lição sobre o que significa a expressão “forma substancial”, e em que medida a forma substancial difere de uma “forma acidental”.
A forma acidental é aquilo que faz uma coisa ser de um jeito determinado, ter este ou aquele aspecto, ter esta ou aquela característica, mas não é a forma acidental que leva a coisa a ser esta ou aquela substância.
Vamos imaginar um cão. Ele pode ser pequeno ou grande, com pelo longo ou curto, marrom ou preto, gordo ou magro. Mas a sua cor, o seu tamanho, o comprimento do seu pelo ou o seu peso são estruturas acidentais, circunstanciais, que não alteram aquilo que ele é: ele é um cão, e isto não muda se ele cresce ou engorda, emagrece ou muda de cor. Ele é um cão, independentemente de ter este ou aquele tamanho, peso, pelo ou cor. Assim, é a sua estrutura canina, isto é, o fato de ter uma alma animada da espécie canina, que faz com que ele seja algo: que seja um cão. Ele passa a ser um cão quando, na reprodução, os gametas da fêmea e do macho unem-se, formando um novo cão, e deixa de sê-lo quando, ao morrer, sua matéria deixar de ser estruturada pelo princípio vivo animal que é a alma canina.
Portanto, se um cão perde o seu pelo, ou se muda de cor, ele continua sendo, existindo. Mas se ele perde sua vida, ele é destruído. Deixa de existir. A esta estrutura viva, a este princípio que, surgindo, faz com que ele seja, e desaparecendo faz com que ele se destrua, chamamos de alma. Ela é a própria estrutura da coisa, aquilo que faz com que ela seja corporal, que organiza a matéria de tal modo que torna-a um cão, independentemente de cor, peso e tamanho.
A forma viva, isto é, a alma, surge no ser com a sua concepção, ou seja, com a sua geração, e some com a morte. Trata-se daquilo que faz com que algo seja, no sentido absoluto da palavra.
No tempo da filosofia clássica grega, diz Tomás, acreditava-se que a matéria seria a substância por excelência, isto é, aquilo que existe absolutamente; todas as formas que a matéria viesse a assumir seriam meras modificações do seu ser absoluto. Hoje, temos esta ideia, também, em algumas das correntes evolutivas materialistas mais radicais: a realidade seria composta de partículas que se organizariam por combinações aleatórias, de tal modo que algumas destas combinações sejam mais eficientes em permanecer do que outras. Assim, as únicas formas substanciais seriam as chamadas “partículas fundamentais da matéria”, e todas as combinações que a matéria faz seriam apenas formas acidentais, que se sucederiam no tempo. Pelo materialismo estrito e radical, a geração e a morte seriam apenas acidentes, a consciência seria apenas um fenômeno associado a determinado modo de composição da matéria, e nada seria realmente gerado ou destruído, mas apenas transformado. As consequências deste pensamento para a dignidade do ser humano são fáceis de imaginar: o ser humano seria apenas um acidente circunstancial da matéria, cuja combinação poderia ser feita ou refeita conforme se julgue que esta ou aquela arrumação de partículas é mais ou menos conveniente, mais ou menos adaptada a determinado padrão ou modelo. A cultura abortista, a cultura racista, ou mesmo a ideia de que o ser humano é livre para dar a si mesmo o significado que quiser, e até mesmo o genocídio poderiam, ao final, ser justificados.
Portanto, é preciso que nada, nenhuma outra forma substancial, preexista ou conviva com a alma intelectual, para que o ser humano, em sua integralidade existencial, seja digno, irrepetível, único e respeitável. Se houvesse a preexistência de alguma forma substancial, ou mesmo a coexistência de formas substanciais no ser humano, além do princípio da vida que chamamos “alma”, a geração e a destruição de um ser humano deixariam de ter o caráter dramático, absoluto, que têm, e passariam a ser apenas transformações, intervenções, mudanças mais ou menos justificáveis. Matar alguém não seria destruí-lo, mas apenas modificá-lo. A própria vida humana seria apenas uma série de ligações acidentais com corpos externos à identidade da alma. O que é, além de falso, inaceitável. A alma, como princípio da vida, marca a dignidade pessoal e absoluta do ser humano. E o respeito consigo mesmo e com o outro que decorrem daí.
Portanto, uma vez que, nos artigos anteriores, já ficou bem claro que as operações da alma intelectiva envolvem em si as operações que, nos animais, são da alma sensitiva e, nos vegetais, da alma vegetativa, porque há apenas uma alma no ser humano, que é a própria alma intelectiva. Ela é a única estrutura de vida, no ser humano. Agora, fica claro, também, que ela é a única estrutura formal, substancial, no ser humano.
3. Palavras de encerramento.
Nos próximos textos, examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, enriquecendo ainda mais este artigo tão contemporâneo.
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