1. Palavras de introdução.
Vimos, no artigo anterior, ao longo de quatro textos, que a alma intelectiva humana é única, e reúne em si as operações vegetativas, sensíveis e intelectivas.
A pergunta, agora, diz respeito ao próprio ser humano: quantas formas substanciais existem em nós, além desta forma que é princípio da vida em nós? Examinaremos este problema em quatro textos, dada a sua riqueza.
2. A hipótese controvertida.
Sim, nossa alma é uma só. Mas ela é a única fonte de estrutura formal em nós? Há, em nos, alguma outra estrutura, alguma outra forma substancial além da alma?
Pode-se ver a insistência de Tomás com a questão da nossa unidade substancial, com a integridade desta maravilha que é o ser humano. Ele nos examina, não teme debater sobre todos os aspectos, sob todos os pontos de vista. Não teme enfrentar argumentos fortes, não teme mesmo incorporá-los ao seu próprio ponto de vista para enriquecer suas posições. Agora, a hipótese controvertida admite que a alma intelectual é única, e concentra em si todas as operações da vida humana. Mas pleiteia que ela não é o único princípio de estruturação do nosso ser. Assim, a hipótese controvertida propõe que há, em nós, outra forma estruturante além da alma intelectiva. São quatro os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial. Vamos a eles.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor parte da ideia de que o corpo e a alma são coisas distintas. A alma, segundo Aristóteles, diz o argumento, é a perfeição do corpo físico que tem a vida apenas potencialmente. Se é assim, então a existência da alma pressupõe a existência do corpo, para dar-lhe em ato a vida que o corpo tem em apenas em potência. Mas, se é assim, o corpo deve ter alguma forma substancial que o estruture, que o faça ser corpo, de tal modo que permita a ele receber a alma para ser vivificado. Logo, no ser humano, há uma forma substancial que estrutura o corpo, possibilitando que ele seja vivificado pela alma, e portanto a alma não é a única forma substancial do ser humano, mas é precedida, em nós, pela forma substancial do corpo, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
É próprio das coisas inanimadas ser movido desde fora: uma pedra não pode mover-se, salvo se arrastada pelas águas, atraída pela gravidade ou arremessada por alguém. Mas os animais movem-se a si mesmos. Ora, a rigor nada pode mover a si mesmo; há sempre uma parte do animal que move, e outra que é movida. Isto diz Aristóteles, ao estudar o movimento dos animais.
Mas a alma é o princípio da vida, diz o argumento. Logo, ela é a origem do movimento. Tudo aquilo que é origem do movimento, como sabemos, é chamado de “motor”. Logo, a alma é o motor do corpo, diz o argumento.
Mas ocorre que o motor, qualquer que seja ele, não pode mover a matéria-prima. Sabemos que a matéria-prima não existe na natureza como tal, sendo apenas um ente de razão, ou seja, algo que deduzimos que existe ao retirarmos, mentalmente, toda e qualquer forma de uma porção de matéria. O que fica é absolutamente potencial, ou seja, é um não-ser. E o não-ser não é, logo, não pode ser movido. Portanto, para que a alma seja motor, é preciso que ela mova alguma coisa que já é, em si mesma, composta de forma e matéria e não se confunde com a própria alma, porque senão ela estaria a mover a si mesma, o que não é possível.
Logo, é necessário que, além da alma, haja, em todos os animais (e também no ser humano, que é um animal) um motor, que é a alma, e um movido, que é um corpo composto de matéria e forma substancial, prossegue o argumento. Logo, há, no ser humano como em todos os animais, alguma forma substancial do corpo, além da alma, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Se fizermos uma comparação de perfeição entre as formas, perceberíamos que uma forma é tão mais perfeita quanto esteja mais distante da matéria-prima. Coisas inanimadas como a areia e a pedra têm formas muito simples, que aderem diretamente à matéria-prima e a fazem existir como entes passivos, bastante rudimentares. Os anjos, por outro lado, são formas puras, sem nenhuma participação na matéria. Os seres vivos em geral, e entre eles o ser humano, dependem de algum tipo de matéria para existir, normalmente matéria orgânica constituída de modo bastante complexo em si mesma, que constituem os corpos vivos. Portanto, as almas, princípio da vida, não se unem diretamente à matéria-prima, mas a um tipo de matéria já estruturada por outras formas substanciais mais simples do que a forma viva, de modo a permitir a existência dos seres vivos. Ou seja, o ser humano, como todo ser vivo, tem formas substanciais que organizam e estruturam sua matéria em corpo, e só aí recebem a alma viva que os move, conclui o argumento, dizendo que os seres humanos têm outras formas substanciais além da alma.
O quarto argumento objetor.
O quarto argumento vai na mesma linha. O corpo humano não é algo homogêneo, como o corpo das pedras. Se eu divido as pedras em pedrinhas, elas são, todas, semelhantes à pedra original. Um bloco de mármore dará origem a diversas pedrinhas de mármore. Mas o corpo humano não é assim. Se eu divido o corpo humano, não dou origem a corpinhos, mas a pedaços de mão, partes de ossos, muito sangue, músculos e tendões. Portanto, esta heterogeneidade determina que a destruição do ser humano pela morte não implique uma mera dissolução (como uma pedra pode ser destruída e virar areia), mas num cadáver em que todas as partes do ser humano permanecem identificáveis como tais, mesmo quando a alma humana, que seria a forma substancial do corpo, já não está unida a ele. Assim, podemos concluir que o ser humano tem outras formas substanciais que estruturam seu corpo, além da ama intelectiva..
3. O argumento sed contra.
Cada ente, para ser um ente, tem uma única forma substancial, que dá a sua identidade final como aquele ente. Um ente não é um aglomerado de coisas, mas uma estrutura inteligível que se apresenta como uno existencialmente. Um ente, no sentido próprio, não é um mero aglomerado de coisas.
Ora, se cada ente, em sua unidade existencial, tem uma e apenas uma forma substancial que lhe dá identidade no existir, que o faz ser o que ele é, não pode haver no ser humano mais do que apenas uma forma substancial, que, como já vimos, é a alma intelectiva, conclui o argumento sed contra.
4. Palavras de encerramento.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás.
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