1. Retomando.
Estabelecidas firmemente as bases para imaginar que a estrutura de organização substancial do ser humano é a alma inteligente, e somente ela, e que mesmo formas acidentais, como a cor da pele, o peso, o tamanho e a posição social, são incapazes de alterar sua dignidade essencial dada e reconhecida pela inteligência, que consiste na capacidade de buscar e assimilar a verdade, inclusive com relação a si mesmo, Tomás passa a examinar os argumentos objetores iniciais, enriquecendo nosso conhecimento sobre esta maravilha misteriosa que somos. Vamos às suas respostas.
2. As respostas aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que uma mesma substância não pode ser, a um só tempo, indestrutível e destrutível. Mas a alma vegetativa é destrutível, lembra o argumento, assim como a alma meramente sensitiva dos animais. Apenas a alma intelectiva dos seres humanos é indestrutível. Assim, os seres humanos têm três almas: a vegetativa e a sensitiva, que se corrompem e desaparecem com a morte, e a alma intelectiva, que permanece, diz o argumento.
A resposta de Tomás.
As almas das plantas, que são apenas vegetativas, corrompem-se totalmente com a morte, porque nada há, nelas, que ultrapasse as potencialidades da matéria. Também assim com os animais: eles são dotados de alma, e sua alma possui as operações vegetativas e sensitivas, mas é apenas uma. No entanto, tampouco há, na alma dos animais, alguma operação que seja independente da matéria, e que, portanto, leve-a a continuar operando mesmo sem o corpo, quando este é destruído pela morte. No entanto, a única alma humana concentra em si todas as operações vegetativas e sensitivas, e mais as operações intelectuais, que independem da matéria para existir. Portanto, não é o fato de que uma alma possui as operações vegetativa e sensitiva que a leva a ser destrutível, mas o fato de que ela não possui as operações intelectuais. Por isto, não é necessário imaginar que o ser humano tenha três almas, cada uma responsável por um nível diferente de atividade (vegetativa, sensitiva e intelectiva), de tal modo que, morto o indivíduo, apenas a alma intelectiva sobreviva. O que sobrevive à morte é a própria alma humana, com todas as suas operações. No entanto, vê-se aí que a morte humana é algo muito real e muito duro: a alma sobreviverá incompleta, capenga, incapaz de desenvolver suas operações vegetativas e sensitivas porque privada de corpo, mas indestrutível porque dotada de inteligência. A morte é uma perda para o ser humano, porque a alma separada, sobrevivendo, é incompleta e privada da possibilidade de realizar a maior parte de suas operações naturais. Não podemos discutir agora as consequências disto para a ressurreição dos mortos agora, mas podemos imaginar a importância deste ensinamento.
O segundo argumento objetor.
Este argumento retoma de onde o argumento anterior parou. Se há sensibilidade na alma humana, de tal maneira que sua alma tenha a capacidade de relacionar-se com o seu entorno através dos órgãos dos sentidos, então esta sensibilidade, no ser humano, pertence a uma alma incorruptível, indestrutível pela morte, diz o argumento.
Mas a alma corruptível não pode pertencer ao mesmo gênero que a alma incorruptível; isto não teria lógica, como, aliás, nos lembra o próprio Aristóteles.
Ocorre que o ser humano pertence ao mesmo gênero que os animais irracionais, como o boi e o leão. Ora, se a alma humana fosse una, e incorruptível em todas as suas operações, então seria incorruptível também quanto ao sensível, ao passo que a alma sensível dos animais irracionais é corruptível. Assim, o ser humano não poderia pertencer ao gênero dos animais, salvo se tivesse uma alma sensível corruptível diferente da alma intelectiva incorruptível, conclui o argumento, afirmando que o ser humano possui três almas, a vegetativa, a sensitiva e a intelectiva.
A resposta de Tomás.
Há, no raciocínio deste argumento, uma confusão entre a lógica e a realidade. Categorias como “gênero” e “espécie” são categorias lógicas, e coisas como “animais”, “seres humanos”, “almas” e “corruptibilidade” são coisas reais, do mundo material. Assim, as coisas reais são compostos de matéria e forma, e não de gêneros e espécies. As almas não se unem a espécies, mas à matéria, a corpos materiais, de tal modo a formar entes compostos de matéria e forma. Assim, é o fato de ter almas vivas e com operações sensíveis num corpo animado que torna o ser humano um animal, e a diferença que ele tem para os outros animais é o fato de que sua alma é intelectiva e, por isso, incorruptível. Portanto, não é a incorruptibilidade que classifica o ser humano em gênero e espécie, mas a vida animal o põe no gênero animal, e a capacidade intelectual, na espécie humana. Não é necessário, pois, pleitear que o ser humano tenha diversas almas, porque ele tem, na verdade, apenas uma.
O terceiro argumento objetor.
Este terceiro argumento demonstra bem claramente os limites científicos do tempo de Aristóteles, que não foram plenamente superados no tempo de Tomás, de tal modo que a resposta de Tomás precisa ser lida com muita atenção, diante dos próprios pressupostos que o próprio Tomás colocou; a questão do aborto, hoje em dia, demonstra quão necessário é esclarecer bem este assunto.
Aristóteles, em seu tempo, deparando-se com fetos abortados espontaneamente, chegou à conclusão de que o ser humano, na gestação, passaria por um primeiro estágio animal, antes de se desenvolver nele uma alma propriamente humana, intelectiva. Disto, o argumento induz a conclusão de que, na verdade, o ser humano tem diversas almas, a vegetativa, a sensitiva e a intelectiva, que vão se acumulando nele durante o desenvolvimento embrionário, de tal modo que as três estão presentes no ser humano nascido. E conclui que o ser humano tem três almas.
A resposta de Tomás.
Tomás vai explicar sua visão sobre a embriologia, a partir do seu ponto de vista filosófico e teológico, e dos dados científicos limitados de que dispunha então, na questão 118 desta primeira parte da Suma Teológica. Por enquanto, interessa-nos saber que ele vê a concepção como um ato participado pelos genitores e por Deus mesmo. De fato, uma vez que a alma intelectual tem operações que superam a matéria, ela não poderia ser formada ou transmitida apenas materialmente. Assim, no ato sexual, há a transmissão da vida animal, e a participação de Deus implica a formação da vida intelectual no embrião. Mas isto se dá na própria concepção: ocorrendo a formação deste ser que é um animalzinho, pela fecundação que acontece no ato sexual, Deus infunde nele a alma intelectiva, que assume a concepção animal e dá àquele pequeno e novo ser a forma viva propriamente humana que o caracteriza, superando aquela vida animal transmitida. Assim, os pais são, propriamente, pais do novo ser, mas Deus participa desta paternidade, e a inteligência é algo que advém de Deus, e não diretamente dos pais. É claro que o contexto genético deixa sua marca nessa criatura nova, mas a inteligência é a abertura para o infinito; isto demonstra que o filho é, a um só tempo, produto do amor dos pais e produto do amor de Deus, e que muitas vezes pode superar, pela inteligência, os limites biológicos e sociais da sua família. Portanto, o fato de que a formação da alma humana é um ato complexo torna desnecessário pleitear, como faz o argumento, que o ser humano tenha mais do que uma alma, e que esta alma inteligente assuma em si todas as operações vivas daquele novo ser, desde o primeiro instante da sua existência. Mais sobre isto na questão 118, artigo 2, desta Primeira Parte. Com fé em Deus chegaremos lá.
O quarto argumento objetor.
O quarto argumento objetor traz, mais uma vez, as categorias lógicas do gênero e da espécie para dentro das discussões sobre a alma humana e sua relação com o corpo.
De fato, em seus trabalhos sobre a lógica, Aristóteles ensina que, para classificar as coisas, o gênero funciona como a matéria, e a espécie, como a forma. Assim, o gênero animal é aquela base material na qual a diferença específica, a inteligência, faz com que um ser humano seja da espécie humana. Assim, a inteligência estaria para a animalidade como a forma está para a matéria: de maneira análoga àquela pela qual a forma de Napoleão faz com que uma pedra bruta de mármore se torne uma estátua do grande imperador, a inteligência faria com que a forma bruta do animal se torne um ser humano. Por isto, o argumento conclui que a alma sensitiva deve estar no ser humano como aquela base material sobre a qual a alma intelectiva pode fazê-lo vir a ser humano.
A resposta de Tomás.
Mais uma vez, diz Tomás, estamos confundindo, neste argumento, o lógico com o real. Há muitos discursos possíveis sobre o real, muitas maneiras de apreendê-lo e falar sobre ele. Principalmente porque nossa inteligência limitada só consegue aprender e comunicar através da linguagem, que é sempre um instrumento falível e complicado para tratar a realidade. Assim, devemos ter muita atenção para não confundir a realidade em si com o discurso que construímos para aprender e comunicar algo sobre ela. A realidade, mesmo complexa, é uma só, e fundamenta-se na mente de Deus, verdade primeira e fundamental. A linguagem é sempre limitada, plural e sucessiva.
Assim, categorias como “gênero” e “espécie” são úteis para falar da realidade, mas não devem ser confundidas com a realidade mesma, que manifesta-se concretamente nos indivíduos.
Portanto a alma humana é intelectiva e contém, em si, todas as operações fundamentais da vida, que estão igualmente na alma vegetal e na alma animal. O fato de que podemos distinguir, na nossa mente e na nossa linguagem, determinadas operações como comuns entre vegetais e animais e outras ainda como comuns entre animais irracionais e humanos não pode levar à conclusão de que a alma vegetal e a alma animal formam, em nós, realidades diferentes daquela da alma intelectiva. Aquilo pelo qual o ser humano excede os animais irracionais, e que podemos identificar por nossa razão, está integrado à alma humana, sem que haja, em nós, uma alma animal diferente da alma humana que nos constitui como entes. Não podemos confundir as distinções lógicas que fazemos para categorizar plantas, animais e humanos, por um lado, classificando-os em gêneros e espécies diferentes, com a suposta existência, em cada um destes seres, de uma multiplicidade de almas que responderiam pelas operações distintas. Não confundamos o discurso com o real.
3. Conclusão.
Estabelecido, assim, a unidade ontológica da alma humana, resulta que, em nós, sobrevive à morte uma alma inteligente, dotada de capacidade para as operações vegetativas e sensíveis – que somente num corpo se realizam. Daí o estado de incompletude ontológica que é a morte, e que somente a fé nos ensina a esperança de transformá-lo em união com Deus. O que estudaremos num ponto posterior da Suma.
Mas isto não resolve completamente o problema. Sim, a alma é uma só. Mas ela é a única forma que há no ser humano? É o que estudaremos no próximo artigo.
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