1. Retomando.
Para nós, hoje, com a mentalidade mecanicista que temos, é difícil entender a noção de forma substancial. A forma substancial é aquilo que dá unidade existencial ao ente. Um carro é formado de muitas peças, motor, pneus, vidros e lataria. Mas é sua forma substancial, ou seja, a sua estrutura de automóvel, que faz com que seja um carro, e não um amontoado de peças, lata, borrachas e motor. Além disso, enquanto estão integrados na unidade do carro, as peças, o motor, os pneus, enfim, todas as partes não existem substancialmente como partes, mas apenas como carro. As peças, enquanto fazem parte do todo que é o carro, existem (como substâncias) apenas virtualmente, isto é, como uma possibilidade de voltarem a ter existência autônoma. É como o tijolo que agora faz parte da parede: para que o tijolo volte a existir como substância, a parede precisa ser destruída. Só há uma, e apenas uma, forma substancial para cada ente.
Ocorre que isto não é tão simples de determinar. No caso das coisas feitas pelo ser humano, como casas, carros ou computadores, o mecanicismo é claro, porque as coisas manufaturadas não são substâncias no sentido estrito, mas apenas um mecanismo feito com a superposição acidental de várias substâncias. Somente as substâncias naturais têm uma unidade substancial em sentido estrito, e portanto apenas as coisas naturais têm, no rigor da palavra, uma forma substancial. E isto nos traz de volta ao debate aqui.
Será que o ser humano tem uma única forma substancial, que o define como um ente natural? Será que ele é apenas um aglomerado mecânico de formas parciais, como a forma do pulmão, do coração, do cérebro, reunidos num mecanismo acidental? Ou será que a alma é realmente o princípio estruturante do ser humano? E será que aquelas estruturas que o ser humano compartilha com plantas e animais são regidas por princípios formais (almas) diferentes da alma intelectual? E será que a forma substancial que transforma o ser humano num ente é a alma intelectual? Vamos examinar a resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
A posição de Platão e Aristóteles.
Tomás vai iniciar lembrando que Platão (segundo relata Aristóteles) defendia que há várias almas que estruturam o ser humano, ou seja, cada indivíduo humano teria, em si, várias almas, cada uma responsável por estruturar algum órgão. Assim, a alma nutritiva estaria no sistema digestório (especialmente no fígado), a alma concupiscível no coração (ou seja, o coração seria a fonte dos desejos e inclinações) e a alma intelectiva, no cérebro (que seria a fonte do conhecimento). Esta visão platônica ainda influencia muitos, hoje, que acreditam que o cérebro e a mente coincidem.
Aristóteles, no entanto, nega que haja algo como “almas” divididas pelos órgãos internos, e o faz com base numa pequena experiência empírica: ele toma um animal capaz de regeneração e o corta em diferentes pontos; e percebe que cada parte regenerada guarda em si todas as características do espécime. Ora, se houvesse várias almas, e cada uma estivesse firmemente ligada a alguma estrutura corporal específica, então o ser que regenerasse de uma vivissecção não teria aquelas almas que estivessem situadas em órgãos que não compuseram a parte da qual ele regenerou. Assim, ele não admite que o ser humano pudesse ter várias almas localizadas em várias partes do corpo.
No entanto, mesmo Aristóteles hesitava quanto ao intelecto: de fato, a alma humana teria, em si, as operações da alma vegetativa e sensitiva, além das operações intelectuais. A dúvida é se as operações especificamente intelectuais da alma humana seriam apenas logicamente separáveis do corpo, isto é, algo que, ao estudar a operação intelectual, perceberíamos que é uma operação separada do corpo, ou se, de fato, as operações intelectuais estão separadas fisicamente das outras operações da vida, localizando estas no próprio corpo e aquelas além dele. Tomás dirá, logo em seguida, que esta separação também não faz sentido; mas não vamos nos adiantar.
Tomás conclui sua avaliação sobre as posições platônicas dizendo que o equívoco acontece quando se confunde a estrutura de alguma coisa com a energia motora que o dinamiza. A alma é estrutura, não é um motor. Se ela fosse algo como um ente imaterial capaz de puxar ou empurrar o nosso corpo, nada impediria que existissem muitas almas em nós, como várias pessoas podem se unir para puxar, com uma mesma corda, um carro atolado. Mas a alma não é motor; ela é a própria estruturação do nosso ser. Por isto, a ideia platônica de uma pluralidade de almas no mesmo ente humano não pode se sustentar.
3. Palavras de encerramento.
Ora, uma vez que afirmamos que a alma intelectiva é o próprio princípio de estruturação do ser humano, como sua forma substancial, não poderíamos admitir, de modo algum, que ela fosse múltipla. Ela deve ser apenas uma, e isto, por três razões que Tomás passa a expor, e que examinaremos no próximo texto.
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