1. Introdução.

Se, no artigo anterior, discutíamos a possibilidade de que a inteligência humana fosse uma realidade única e externa a cada indivíduo, compartilhada por todos os seres humanos, agora o debate é outro. Já vimos que o princípio de vida de cada ser vivo é chamado de “alma”, mesmo para as plantas e animais. As plantas têm uma vida chamada de “vegetativa”, que envolve apenas nascer, crescer, alimentar-se e reproduzir-se. Os animais em geral têm, além das operações da alma vegetativa, a sensibilidade para o meio externo, pelos órgãos dos sentidos; possuem a chamada “alma sensível”, que lhes possibilita ver, cheirar, tatear, ouvir e sentir o sabor. Os seres humanos, por seu turno, possuem a capacidade intelectual, vale dizer, a capacidade de abstrair e conhecer os universais.

Mas estas faculdades todas constituem-se numa única alma, ou será que há, no ser humano, uma alma vegetativa, outra sensível e outra intelectiva? Eis o debate a ser travado agora.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida, aqui, é que as operações que constituem cada grau de vida relacionam-se a almas diferentes; assim, as plantas teriam uma alma apenas, a alma vegetativa, mas os animais teriam duas almas (a vegetativa e a sensitiva) e os seres humanos teriam três almas (vegetativa, sensitiva e intelectiva), três almas verdadeiramente diversas umas das outras. Assim, em cada ser humano haveria três almas diversas.

quatro argumentos objetores iniciais, no sentido desta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor diz que uma substância não pode ser, ao mesmo tempo, destrutível e indestrutível. Ora, a alma intelectiva é indestrutível, como vimos na questão 75 e seus artigos, mas as almas vegetativa e sensitiva são destrutíveis, e não sobrevivem à morte. Portanto, a alma intelectiva não pode ser a mesma coisa que as almas vegetativa e sensitiva. Mas o ser humano tem, em si, as operações da alma vegetativa, sensitiva e intelectiva. Logo, ele tem em si três almas diferentes, com as respectivas operações, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor parte da lembrança de que o ser humano é uma espécie animal. Ora, diz o argumento, as espécies animais têm almas sensitivas. Também o ser humano apresenta as operações da alma sensitiva, ou não seria animal. Mas a alma sensitiva é destrutível, e a alma intelectiva é indestrutível. Logo, teríamos que admitir que, no ser humano, a alma sensitiva é indestrutível.

Ocorre que, segundo Aristóteles, as coisas destrutíveis não estão no mesmo gênero das coisas indestrutíveis. Mas a alma sensitiva dos animais irracionais, como o cão, a baleia ou o leão, são destrutíveis. Mas a alma intelectiva do ser humano é indestrutível, logo ela não poderia estar no mesmo gênero da alma dos animais. Mas os seres humanos estão no mesmo gênero dos animais. Logo, a alma sensitiva do humano deve ser diferente da sua alma intelectiva, e portanto o ser humano tem mais de uma alma em si: a alma vegetativa e a sensitiva, destrutíveis, e a intelectiva, indestrutível.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento cita uma passagem em que Aristóteles diz que o embrião humano, antes de ser propriamente humano, passa por etapas em que é apenas animal. Ora, se ele tivesse apenas a alma intelectiva, ele seria humano desde o primeiro momento da concepção. Logo, parece que Aristóteles defende que o ser humano, na concepção, desenvolve as almas vegetativa e sensitiva, e só num momento posterior desenvolve a alma intelectiva. Portanto o ser humano tem três almas distintas em si, conclui o argumento.

O quarto argumento objetor.

Na classificação de gêneros e espécies, segundo Aristóteles, colocamos alguma coisa em algum gênero por causa das características materiais dela; e colocamos alguma coisa em alguma espécie por causa das características formais dela. Ora, o ser humano está no gênero dos animais, e na espécie dos racionais. Está no gênero dos animais porque tem um corpo dotado de sensibilidade pelos respectivos órgãos dos sentidos, e está na espécie dos racionais porque tem alma intelectiva. Ora, então temos que admitir que a alma intelectiva está para a sensibilidade como a forma está para a matéria. Portanto, deve haver uma estrutura para reger os órgãos da sensibilidade, uma alma sensitiva, que esteja como matéria para a alma intelectiva, de tal modo que a animalidade, no ser humano, seja regida por uma estrutura formal diversa daquela do intelecto. Logo, conclui o argumento, o ser humano tem uma alma sensitiva diversa da alma intelectiva, e que se relaciona com ela como a matéria se relaciona com a forma.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra cita uma passagem do livro “De Ecclesiasticis Dogmatibus”, (ou seja, da “dogmática eclesial”), que afirma que, embora alguns escritores siríacos defendam que há, no ser humano, duas almas, uma alma sensitiva localizada no sangue, e que estrutura e vivifica o corpo, e uma alma intelectiva, que é responsável pela inteligência e é imaterial, a fé da Igreja sempre ensinou que o ser humano é estruturado por apenas uma alma, que é responsável pelas suas operações corpóreas e espirituais.

5. Palavras de fechamento.

No próximo texto, iniciaremos o exame da resposta sintetizadora de Tomás.