1. Retomando.
Vimos, então, como a posição de Tomás, que é a posição do cristianismo, foi tão importante para a formação da pessoalidade, da responsabilidade individual e do respeito às consciências. Somos seres inteligentes, e a nossa inteligência é individual. Apos termos examinado a resposta sintetizadora de Tomás, vamos enriquecer nossa perspectiva examinando as respostas aos argumentos objetores iniciais.
2. As respostas aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor insiste na ideia de que a alma humana é uma substância imaterial em si mesma, independentemente do corpo, uma vez que ela é subsistente e é capaz de sobreviver à morte.
Ora, prossegue o argumento, nenhuma substância imaterial é capaz de multiplicar-se em indivíduos da mesma espécie. Para haver mais de um indivíduo da mesma espécie, é preciso que eles sejam substâncias materiais, porque é a matéria que multiplica, que individualiza os espécimes da mesma espécie. Ora, se a alma é imaterial, e se ela é o princípio da inteligência humana, e se toda a espécie humana compartilha desta mesma inteligência imaterial, então a inteligência humana não pode se multiplicar, e é uma só, imaterial, para todos os indivíduos humanos, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
De fato, diz Tomás, nem a alma intelectiva do ser humano, nem os anjos, possuem em sua estrutura alguma matéria. Mas as almas humanas não são substanciais. Nisto elas são diferentes dos anjos: os anjos são entes espirituais, substâncias em si mesmos, completos como formas. As almas humanas são formas do ente material que é o ser humano, ou seja, são apenas um elemento estrutural que compõe um ente substancial; e a estrutura desse ente substancial que é o ser humano inclui a matéria. O fato de que a alma sobrevive à morte do ser humano do qual ela é estrutura não faz dela um ente em plenitude. Portanto, a alma é sempre a forma de um corpo, ainda que esteja na situação de sobreviver sem ele. Portanto, a alma humana, como princípio de inteligência, pode multiplicar-se em muitos exemplares da mesma espécie, cada um com sua própria inteligência, o que não pode ocorrer com os anjos: cada anjo é o único de sua espécie.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor até admite que a matéria pode multiplicar os seres humanos; mas lembra que a alma sobrevive à destruição do corpo pela morte. Ora, prossegue o argumento, se a matéria corporal é a causa da multiplicação dos indivíduos humanos, então teríamos que admitir que, com a morte, esta causa é removida, e portanto todos os seres humanos voltariam a ser uma unidade, ou seja, haveria apenas um único espírito humano que reúne em si todos os seres humanos que já morreram. Mas esta conclusão, que decorre da ideia de que o princípio da inteligência humana, a alma, é também a forma do corpo, seria herética, diz o argumento, porque os prêmios e os castigos do juízo final iriam para uma única e mesma pessoa humana, o que faria de Deus alguém injusto. Logo, teríamos que admitir que uma coisa é a forma que compõe, junto com o corpo, a estrutura do ente humano, e que se multiplica pelos indivíduos, e outra coisa é o princípio da inteligência humana, que é sempre um só e não se multiplica, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Este argumento simplesmente não compreende a estrutura humana. Cada coisa existe da maneira que é, lembra Tomás. Nós somos inteligentes e somos materiais; logo, nossa estrutura individual inclui, em si, tanto a inteligência, que é uma faculdade espiritual da alma, quanto a materialidade, que permite a multiplicação dos indivíduos humanos. Portanto, a alma inteligente mantém sua individualidade, quer quando compõe um ser humano vivo, na integridade do corpo e da alma, quer quando sobrevive à morte como a alma que dava forma àquele corpo específico: esta e a alma de João, e não de Sócrates ou de Napoleão. Assim, o argumento não procede.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor quer partir da própria natureza do conhecimento humano para provar que não poderia existir senão apenas uma inteligência humana, compartilhada por todos os indivíduos. A diferença do modo pelo qual as formas existem nas coisas e nas inteligências, diz o argumento, prova que a inteligência deve ser uma e apenas uma. De fato, as formas existem nas coisas de modo individual, mas existe na inteligência de modo universal. Tomemos um exemplo: a forma de cão. Existem, no mundo, milhões de cãezinhos que compartilham a mesma espécie canina, cada um individualizado por seu corpo. Mas, quando alguém conhece a própria espécie de cão, e forma dela um conceito abstrato, ele passa a conhecer os cães universalmente: não este ou aquele cão, mas a própria ideia universal de cão. Ora, se cada ser humano tivesse uma inteligência própria, cada ser humano formaria sua própria ideia abstrata de cão, e cada ideia dessa seria particular, existindo apenas naquela inteligência. Portanto, não haveria um conhecimento universal de cão, o que contradiz a própria natureza da ciência, que consiste em conhecer as coisas universalmente. Logo, para que as coisas sejam conhecidas universalmente, é necessário que haja apenas uma inteligência humana, universal, à qual cada indivíduo humano tem acesso, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Temos que fazer uma distinção entre o fato de que as noções que inteligimos são universais, por um lado, e o fato de que as inteligências criadas são individuais, por outro. O fato de existirem inteligências individuais não determina que aquilo que elas inteligem seja simplesmente particular. Quem garante a universalidade das espécies é a mente de Deus, não a nossa. Assim, os anjos são indivíduos, mas inteligem os universais, porque os recebem de Deus quando são criados. E o fazem universalmente, porque inteligem imaterialmente. Os humanos são indivíduos, mas inteligem os universais porque são capazes de abstraí-los a partir do contato sensível com as coisas materiais, no processo de conhecimento. E isto demonstra que o processo de conhecimento, mesmo nos humanos, não é uma operação material.
De fato, as coisas que operam materialmente só podem conhecer materialmente. A operação dos entes segue a sua natureza, diz Tomás, reafirmando um velho princípio escolástico. O calor aquece, porque a natureza do fogo é aquecer. A natureza da matéria é individualizar. Por isto, o processo intelectual de conhecer, ou seja, de aprender intelectualmente a partir do contato com as realidades individuais do mundo material, envolve abstrair os universais, que são as formas, a partir dos espécimes concretos que encontramos. E, do mesmo modo que o fogo aquece, os universais, abstraídos, nos dão um conhecimento naturalmente universal. Se os entes, em sua concretude material, apresentam-se como particulares, a abstração de suas formas apresenta-se como universal, porque implica seu conhecimento abstraído das condições concretas de tempo e espaço determinados pela matéria. Mas ela deve ser recebida pela inteligência também de modo imaterial, e assim ela não se particulariza. Para isto, não tem importância que ela seja recebida em apenas uma inteligência ou em inúmeras inteligências individuais, como a multidão de anjos e de seres humanos: o que determina que o conhecimento seja universal é a própria natureza da species, ou seja, da forma universal abstraída e recebida imaterialmente pela inteligência, e não a quantidade de inteligências que a recebem. É por isto que um cão ou um golfinho são capazes de memorizar e assimilar coisas concretas, resolver problemas e até associar informações particulares, mas não são capazes de assimilar conceitos e formas universais: suas mentes não são imateriais, e, com isso, as informações que recebem de seus órgãos sensoriais nunca perdem a particularização da matéria.
Assim, conclui Tomás, as inteligências que operam imaterialmente conhecem universalmente por causa da própria natureza do conhecimento universal. É uma resposta magnífica, que fasta o relativismo do mundo contemporâneo.
O quarto argumento objetor.
O quarto argumento objetor vai na mesma linha do relativismo, defendendo que a multiplicação dos intelectos levaria à impossibilidade do conhecimento universal e objetivamente válido.
Agora, o argumento diz que, se houvesse uma infinidade de intelectos humanos, cada um abstrairia o conhecimento e aprenderia, mas o que um aprende seria diferente do que o outro aprende. Assim, para chegar a um conhecimento realmente universal, seria necessário pressupor um outro nível de abstração, em que o meu e o teu conhecimento, assim como o de cada ser humano, seria depurado das condições concretas em que vivemos, de modo a alcançar um outro nível de universalidade realmente suprapessoal, independente dos condicionamentos da individualidade humana. Ora, neste caso, diz o argumento, teríamos que admitir que a inteligência individual humana é concreta, e não supera a imaginação e a memória com que também os animais são dotados. Assim, o argumento conclui que somente pleiteando uma única inteligência comum para todos os seres humanos é que seríamos capazes de defender um conhecimento realmente universal para nós.
A resposta de Tomás.
Mais uma vez, Tomás insiste que a multiplicação de intelectos não leva à multiplicação dos universais inteligidos. Os intelectos podem ser muitos, mas os conceitos por eles assimilados são sempre universais, dada a imaterialidade da operação intelectual.
É preciso lembrar, diz Tomás, que quando estudamos uma pedra, não é a pedra que entra na nossa mente, mas a sua species, a sua estrutura formal, que é a similitude da pedra, e não a pedra mesma, como nos ensina Aristóteles na obra Sobre a Alma. A mesma estrutura, a mesma forma, está na pedra e na minha mente que a conhece. Mas está na pedra de modo particular, e na minha mente de modo universal.
Isto quer dizer que, quando estudo esta pedra e abstraio dela a sua estrutura, de modo imaterial e universal, eu não conheço esta pedra, mas apenas a estrutura universal de pedra? Será que nosso conhecimento intelectual não é um conhecimento do próprio mundo, das próprias coisas, mas apenas de ideias abstratas e universais?
Não é assim, diz Tomás. Quando conhecemos uma pedra, é a própria pedra que é conhecida, e não apenas alguma ideia abstrata de pedra. Senão, diz Tomás, não conheceríamos de verdade as coisas, mas apenas suas noções, seus conceitos; há uma diferença real entre o conhecimento de quem já comeu uma maça, por um lado, e o conhecimento de alguém que já examinou tudo o que se escreveu sobre a maça e a examinou sob os mais diversos aparelhos, mas nunca a comeu pessoalmente. O conhecimento intelectual chega por uma reflexão do intelecto sobre si mesmo, que, a partir das condições concretas com que se depara, é capaz de chegar às próprias espécies inteligíveis, quer dizer, às noções e conceitos abstratos sobre a estrutura das coisas.
É claro que cada coisa, cada ente concreto e material com que nos deparamos, tem sua própria estrutura formal e sua própria porção de matéria. Mas a sua estrutura formal reflete concretamente aquela espécie que a constitui. Ora, conhecer nada mais é do que a assimilação do conhecedor àquilo que ele conhece, segundo a famosa definição escolástica. Ou seja, a mesma estrutura formal que está na coisa passa a estar na inteligência que a assimilou, que passou a conhecê-la. Assim, se outra inteligência estudar aquela mesma coisa, também será capaz de assimilar em si aquela mesma estrutura formal. Comparando isto com o conhecimento sensível, Tomás nos diz que, se duas pessoas olharem para duas coisas amarelas, serão capazes de ver a mesma cor, sob diferentes manifestações. Do mesmo modo, se dois intelectos estudarem o mesmo objeto, serão capazes de assimilar a mesma estrutura formal, inteligindo-a.
Há, no entanto, uma diferença entre a percepção concreta da cor (ou de qualquer estímulo sensível) por um órgão do sentido, por um lado, e a assimilação, pela inteligência, de uma species, ou seja, da estrutura formal que constitui um ente qualquer que é objeto de estudo.
No caso do estímulo sensorial, a coisa é percebida pelo órgão do sentido do mesmo modo que ela existe na natureza, isto é, em sua individualidade. Percebo a cor amarela daquela parede tal como ela está na parede. Não há, aí, nenhuma possibilidade de que eu chegue a ter uma noção abstrata da cor amarela, ou de que eu sequer pense num “conceito de amarelo”. Apenas percebo o amarelo da parede e o memorizo. Este é o modo de conhecimento sensorial, concreto, sensível.
Mas, quando conheço alguma coisa de modo intelectual, de fato conheço algo que está fora da minha mente e existe na realidade. Mas o modo pelo qual ela existe na realidade é diferente do modo pelo qual ela existe em minha inteligência. Na concretude de sua existência material, a coisa está delimitada por sua matéria, inserida num determinado espaço e existente num determinado tempo. Particularizada. Mas na minha inteligência ela existe como abstraída dessas condições concretas de tempo e espaço; portanto, as coisas existem, segundo Aristóteles, ou na matéria ou numa mente, conforme existam de modo concreto ou de modo abstrato.
Tomás registra que, neste ponto, Platão difere de Aristóteles. Platão acreditava que as coisas podem existir como ideias separadas da matéria, num reino transcendente. E ali elas estão como abstratas, universais, do mesmo modo que estão em nossa mente. Mas Tomás não segue esta linha: ele acompanha Aristóteles, acrescentando que há outra instância em que as coisas existem como universais perfeitos, como ideias separadas da matéria: a mente de Deus. Mas, ao contrário dos anjos, que receberam de Deus as próprias ideias das coisas quando foram criados, nós, humanos, precisamos da mediação dos entes concretos para chegar ao conhecimento intelectual.
O quinto argumento objetor.
O quinto argumento objetor também recorre à teoria do conhecimento para negar que cada ser humano tenha sua própria inteligência individual. É fato notório que ensinar é possível. Mas o conhecimento não é algo que se transmite ativamente, como se o professor imprimisse a informação no cérebro do aluno à maneira de um carimbo. O processo de transmissão do conhecimento não pode ser comparado ao processo pelo qual, por exemplo, um maçarico aquece uma barra de ferro. Portanto, se ensinar não faz gerar um novo conhecimento na mente do aluno, diverso daquele que tem o mestre, isto significa que ambos compartilham de um só e mesmo conhecimento. Ora, diz o argumento, para que isto fosse possível, seria necessário que ambos tivessem um só e mesmo intelecto. Assim, o processo educacional demonstra que a humanidade possui um só e mesmo intelecto, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
O conhecimento que está no mestre é o mesmo que está no aluno; mas o modo pelo qual o conhecimento está no mestre é diferente do modo pelo qual ele está no aluno. Isto será discutido em profundidade ainda nesta parte da Suma, na questão 117, artigo 1, à qual um dia chegaremos também. Mas o fato de que ambos chegam ao mesmo conhecimento por modos diferentes demonstra que não compartilham um só e o mesmo intelecto.
O sexto argumento objetor.
Por fim, o sexto e último argumento objetor traz uma citação de Agostinho, no qual ele afirma textualmente: “se eu dissesse que há várias almas humanas, isto seria ridículo”. Ora, diz o argumento, é justamente a inteligência humana aquela faculdade que é compartilhada por todos, e que faz a unidade das almas, porque a verdade é uma só. Logo, o argumento conclui que há apenas um intelecto humano para toda a humanidade.
A resposta de Tomás.
O que Agostinho defende, aqui, é a igualdade essencial de todos os indivíduos da espécie humana, dizendo que não há duas almas humanas, ou seja, não há suas espécies de ser humano, mas apenas uma, que se individualiza, corpo e alma, em cada exemplar da espécie que já andou, anda ou andará neste mundo. Somos todos da mesma espécie, com a mesma estrutura fundamental, com a mesma dignidade, mas isto não significa que tenhamos apenas uma inteligência humana compartilhada por cada um dos indivíduos de nossa espécie. O argumento está errado.
3. Conclusão.
O texto ficou maior do que eu esperava. Não é fácil desenvolver os argumentos de Tomás sobre o ser humano e sua inteligência. Em todo caso, ele consegue fazer uma síntese perfeita entre a dignidade comum e a individualidade que nos torna plurais. Grande lição para nossos tempos confusos.
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