1. Retomando.

Então, como vimos, nem pela posição de Platão e Aristóteles, nem pela simples observação dos fatos, Tomás poderia concordar com uma doutrina que ensinasse que o intelecto humano é uma entidade única e espiritual, compartilhada por todos os indivíduos humanos. No fundo, diz Tomás, isto eliminaria a individualidade e reduziria toda a humanidade a algo como uma multiplicidade de corpos de um mesmo e único ser humano.

2. Averróis e a multiplicação dos fantasmas.

No entanto, Tomás não poderia encerrar seu artigo sem examinar mais de perto a posição de Averróis. De fato, este grande pensador e comentador de Aristóteles, de origem muçulmana, defendia veementemente que há apenas um único intelecto humano, separado e todos os indivíduos e acessado por todos eles no ato de inteligência. Como Averróis explicava, no entanto, a diversidade humana?

Para ele, o corpo humano contém em si todas as operações sensíveis, inclusive aquelas relacionadas à memória e à imaginação. Assim, cada ser humano, cada indivíduo da espécie humana, é capaz de coletar os dados empíricos da realidade e montar as respectivas imagens na mente, as imagens sensíveis que a escolástica chamava de “fantasmas”, e, a partir delas, acessar a inteligência comum para formar, por abstração, o respectivo conceito inteligível. Assim, cada ser humano seria diferente do outro porque a sua experiência empírica com o mundo das coisas sensíveis é única, e as imagens de mundo (fantasmas) que ele forma na sua memória e na sua imaginação são únicas também. Por isto, cada ser humano teria uma relação diferente com aquela inteligência única e desencarnada que atende a toda a espécie humana.

De certo modo, esta visão de Averróis parece atrativa para a nossa modernidade. Cada um formaria, pela sua própria experiência de vida as suas próprias verdades, e cada um de nós partilharia da inteligência humana comum a partir do seu próprio ponto de vista. Cada um seria um indivíduo em particular porque, no fundo, cada um teria sua própria verdade, adequada à sua própria história e sua própria vivência. E a inteligência comum, a verdade última, seria algo fora e acima de qualquer um de nós, a que cada um teria acesso apenas parcialmente. As imagens empíricas, os fantasmas, determinariam nossas próprias particularidades de intelecção. Eles seriam a forma a partir da qual o intelecto possível, isto é, a inteligência humana potencial, chegaria ao conhecimento por mim.

A avaliação final de Tomás.

Mas Tomás não poderia concordar com isto. O fantasma, quer dizer, a imagem empírica formada a partir dos dados sensíveis coletados pelos meus órgãos dos sentidos, não é o objeto da inteligência. É apenas o seu ponto de partida. É certo que cada um de nós, cada pessoa, constrói seus próprios fantasmas, quer dizer, constrói sua própria imagem das coisas com que se depara, na sua imaginação, a partir da sua memória. Estes fantasmas são, de fato, o ponto de partida para a formação do conceito inteligível no intelecto possível. Mas não há mais de um conceito inteligível de cada species universal com que me deparo: a inteligibilidade das coisas é una, porque una é a verdade sobre elas. Quando eu examino diversas maçãs, de tamanhos e cores diferentes, de origens diferentes, eu posso inteligir o que é uma maçã, e esta inteligibilidade, esta noção universal e científica da maçã, é a mesma para mim ou para qualquer ser humano, aqui ou em qualquer lugar, e é a mesma para ontem, hoje e amanhã. Assim, se houvesse apenas um intelecto para todos os seres humanos, na verdade chegaríamos todos à mesma ciência, a partir de experiências diferentes, e seríamos todos uma só individualidade racional. A diversidade de dados empíricos não seria suficiente para nos individualizar como seres humanos, porque a unidade da mente intelectiva determinaria nossa identidade absoluta. Seríamos um só humano, um só espécime com uma pluralidade de corpos, o que é, evidentemente, uma conclusão absurda. Assim, Tomás afasta, como indefensável, a teoria de Averróis. E, fazendo-o, abre as portas para a construção da nossa civilização, com toda a sua riqueza de respeito às individualidades, ao pluralismo e, principalmente, à dignidade de todos os seres humanos como detentores de consciência própria e respeitável. Não podemos ser diluídos numa espécie de “massa impessoal” coletiva.

Por isto, Tomás concluirá que a alma humana é a sede individual do princípio da nossa inteligência pessoal, ao mesmo tempo em que é elemento constitutivo do ser humano, como forma da sua matéria corporal.

3. Palavras de encerramento.

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.