1. Retomando.

Vimos, no texto anterior, que uma corrente filosófica, de influência platônica e muito forte entre os árabes, (especialmente por Averróis), defendia que o princípio da inteligência humana não é uma realidade individual; somos seres de corpo e alma, acreditavam eles, mas aquilo que nos faz inteligentes não se multiplica. Haveria apenas uma grande inteligência, única, plena, compartilhada por todos os seres humanos, mas não interior, intrínseca a eles. Vimos os seis argumentos objetores e o argumento sed contra. Agora examinaremos a resposta sintetizadora de São Tomás, na qual ele insistirá na estrita pessoalidade da inteligência e da consciência, como elemento integrante da nossa individualidade humana.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Não é possível que a inteligência humana fosse uma realidade transpessoal, única para toda a espécie humana. As coisas simplesmente não podem ser assim.

A posição grega.

De fato, diz Tomás, para Platão o ser humano seria, essencial e unicamente, uma inteligência espiritual. Platão acreditava que somos essencialmente espirituais, e nossa relação com o corpo é acidental e externa. Assim, claramente, se houvesse algo como um “princípio único de inteligência” para todos os seres humanos, ou seja, se compartilhássemos todos do mesmo e único intelecto, seríamos todos, na verdade, o mesmo e único ser humano. A diferença entre os indivíduos seria apenas acidental, como se alguém se tornasse outra pessoa quando trocasse de roupa, por estar de pijama ou de paletó. Assim, Platão nunca admitiria essa unidade essencial do intelecto humano, porque destruiria a distinção dos indivíduos.

Tampouco Aristóteles admitiria uma posição desta. Aristóteles defendia intransigentemente que a inteligência é uma faculdade da alma humana, e a alma humana não seria outra coisa que a forma do ser humano, do qual o corpo é a matéria. Assim, seria impossível que seres individualmente diferentes compartilhassem uma única e mesma forma. Cada indivíduo, embora compartilhe a mesma espécie, tem a sua própria forma individual, e, no caso dos humanos, esta forma individual é também o princípio do intelecto. Na verdade, cada indivíduo tem o seu próprio ato de ser, e imaginar que dois indivíduos pudessem compartilhar a mesma forma individual e o mesmo ato de ser e, ao mesmo tempo, pudessem continuar a ser indivíduos distintos, seria logicamente impossível. Portanto, esta ideia de unidade absoluta do intelecto humano seria impensável, também para Aristóteles.

A posição de Tomás.

Não é necessário, no entanto, recorrer a posições filosóficas clássicas para perceber que a ideia de que os seres humanos compartilham um único e mesmo intelecto só pode ser falsa.

Se houvesse apenas um intelecto humano, algo como uma inteligência imaterial única compartilhada simultaneamente por todos os indivíduos, está claro que a relação entre esse grande intelecto único e supra-individual, por um lado, e cada indivíduo humano, concreto, por outro, seria como uma relação entre um agente e seu instrumento de ação. Na relação entre agente e instrumento, poderíamos ter as seguintes alternativas:

1. Um mesmo indivíduo usa simultaneamente vários instrumentos; o exemplo, aqui, seria daqueles músicos que se apresentam como “bandas de um homem só”, com diversos instrumentos musicais sendo tocados e percutidos ao mesmo tempo com os pés e as mãos. Há, aqui, um só agente tocando, mas vários resultados, ou seja, a ação, única na origem, multiplica-se pelos instrumentos, mas continua sendo a ação de um único agente. No fim, há um só músico produzindo múltiplos sons com sua atividade.

2. Vários indivíduos diferentes utilizam-se do mesmo instrumento ao mesmo tempo. Imaginemos vários homens puxando uma corda para arrastar um caminhão atolado, por exemplo. Neste caso, há vários agentes, mas apenas um resultado, unificado pela unidade do instrumento. O empuxo dos vários homens sobre a corda produz a força necessária para mover aquele caminhão.

3. Um único agente utilizando-se de um único instrumento. Se um lenhador usa um machado para derrubar uma árvore, há um só agente, uma só ação e um único resultado, afinal.

Ora, vamos investigar, agora, qual seria a relação entre um suposto “intelecto humano único” e todos os indivíduos humanos. Ora, se o ser humano é um indivíduo composto de forma não inteligente e matéria, que “acessa” uma inteligência extracorporal única para toda a humanidade, quem será o agente e quem será o instrumento?

Se o indivíduo humano é desprovido de inteligência pessoal, ele, essencialmente e em si mesmo, é apenas um animal irracional; a inteligência é, sem dúvida, superior à irracionalidade. Logo, essa suposta “inteligência única” seria o verdadeiro agente humano, e cada indivíduo seria apenas um instrumento nas suas mãos.

É fácil verificar isto. Se vários indivíduos humanos compartilhassem, digamos, o mesmo órgão de sensibilidade (digamos, várias pessoas usando os mesmos olhos para enxergar), mas cada um tivesse a sua própria inteligência individual, não hesitaríamos em dizer que há, aí, vários indivíduos humanos, vários seres humanos diferentes compartilhando de uma mesma visão.

Mas se tivéssemos uma única inteligência que fosse acessada por diversos corpos não inteligentes, e que unificasse em si todo pensamento, toda intelecção, não hesitaríamos em dizer que há, aí, um único ser humano com uma pluralidade de corpos. Ainda que chamássemos um destes corpos de “José” e outro de “Antônio”, eles seriam uma só e mesma pessoa, ao compartilhar uma só e mesma inteligência.

O caso, aqui, agrava-se ainda mais pela circunstância de que a inteligência não depende de órgãos corporais para seu ato. Isto é, não é com o corpo de José ou com o corpo de João que esta suposta “inteligência comum” pensa, mas seu pensamento está acima de todos os corpos que ela utiliza. Ou seja, se houvesse apenas um, e só um, princípio de inteligência compartilhado por toda a espécie humana, seríamos apenas um ser humano, mesmo usando vários corpos simultaneamente. Toda a humanidade seria como um grande formigueiro, uma série de corpos distintos que, na verdade, é apenas um indivíduo, com uma única inteligência, uma única consciência, uma única vontade. Algo assombroso. Um fundamento fortíssimo para um totalitarismo monstruoso e com um desprezo absoluto pela importância das vidas individuais. No fundo, talvez seja esta mesma a raiz de todos os totalitarismos radicais: o desprezo por qualquer ideia de inteligência humana pessoal.

3. Palavras de encerramento.

No próximo texto, examinaremos a ideia, também com origem em Averrois, de que, mesmo existindo uma inteligência comum, poderia haver uma diversidade individual por causa da diferença na memória e na imaginação de cada indivíduo. Iniciaremos, também, o exame das respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.