1. Palavras de retomada.
Cada forma de vida, estabelecendo funções mais complexas e mais elevada, representa um passo maior de perfeição sobre a organização da matéria, e faz surgir operações cada vez mais livres, mais transcendentes, em comparação à matéria inerte. Esta bela observação de Tomás encerrou a sua resposta sintetizadora.
Bom, na verdade, o que encerrou a resposta sintetizadora foi aquela observação um tanto enigmática sobre a possibilidade de que a alma seja, em si mesma, um composto de matéria e forma. Tomás não admite isto. De fato, como vimos, há diversos modelos, que Tomás rejeita, que tentam explicar a relação do corpo com a alma; no fundo, eles propõem dualismos, isto é, que o corpo seja um ente e a alma, outro ente, de tal modo que o ser humano não seria um ente, mas um composto acidental de dois entes. Para isto, seria necessário que o corpo tivesse sua própria matéria e sua própria forma e a alma, por seu lado, também tivesse a sua. Vimos, na discussão do artigo anterior, que o fato de que a alma tem potencialidades, no campo do aprendizado, não significa que ela tenha, em si, matéria. Se ela tivesse matéria, ela não seria a forma do corpo, mas seria um ente completo em si mesma. Nada que é matéria e forma pode ser, simultaneamente, a forma de outra coisa.
Por outro lado, se ela for algo que é parte forma, parte matéria? Ora, o ser humano é justamente parte forma, parte matéria. Assim, a alma, diz Tomás, é apenas a parte que é forma; a parte que é matéria não é alma (anima, em latim), mas algo animado (ou primus animatus, em latim); ou seja, é corpo. Não há como imaginar uma matéria relacionada à alma que não seja corpo.
Mas este foi o assunto do último texto. O presente texto visa examinar as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais. Vamos a eles.
2. Os três primeiros argumentos objetores.
Ao examinar o primeiro argumento objetor, Tomás dará uma resposta suficiente para responder aos três primeiros argumentos objetores. Assim, vamos examinar o primeiro argumento e sua resposta, e em seguida os dois argumentos seguintes, estendendo a primeira resposta a eles.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que Aristóteles mesmo descreve a operação do intelecto como algo “separado”, isto é, independente de qualquer relação com o corpo. Ora, se a alma é o princípio da inteligência, e seu ato é separado do corpo, o argumento conclui que a alma não pode ser a forma do corpo.
A resposta de Tomás.
A resposta de Tomás trará elementos capazes de responder aos argumentos seguintes, em especial a segunda e terceira objeções, então sigamos com muita atenção.
Tomás vai resgatar o pensamento de Aristóteles, não de modo enviesado como está no argumento objetor, mas em seu sentido verdadeiro.
Para Aristóteles, o mundo das formas é claramente hierárquico. Há formas, como as formas geométricas, que são muito simples, redutíveis à sua descrição matemática. Há formas inanimadas muito complexas, como a estrutura das galáxias, mas, ainda assim, qualquer forma viva é muito mais complexa do que qualquer forma inanimada. Dentre as formas animadas, a hierarquia ocorre pelas respectivas operações: quanto mais a forma viva supera as propriedades da matéria inanimada, tão mais perfeita é a vida que ela opera. Assim, é de se esperar que a forma mais perfeita, no mundo das coisas, é aquela que, mesmo sendo uma forma de coisa material, tem, como operação característica, uma atividade que independe completamente da matéria. Esta é exatamente a atividade da alma humana: a atividade intelectual, que a distingue de todas as outras formas vivas, é uma atividade que independe da matéria. É por isto que Aristóteles defendia que a geração de um ser humano não decorria apenas da atividade sexual dos respectivos genitores; Aristóteles atribuía à energia do sol a geração daquilo que, no ser humano, ultrapassa a capacidade da matéria. Ou seja, a reprodução humana, para ele, envolvia a troca de informações corporais, pelos genitores, na atividade sexual, e mais a influência energética do sol, de tal modo que não apenas a capacidade e realizar operações corporais fosse transmitida, mas também aquilo que, no ser humano, supera o poder da matéria. Hoje, na doutrina cristã tradicional, de fato acreditamos que a alma não é gerada pela simples reprodução sexuada, mas há uma participação direta de Deus, criando-a, cada vez que um novo ser humano é concebido. O Catecismo da Igreja Católica, § 366, diz: “A Igreja ensina que cada alma espiritual é criada por Deus de modo imediato (233) e não produzida pelos pais; e que é imortal (234), isto é, não morre quando, na morte, se separa do corpo; e que se unirá de novo ao corpo na ressurreição final”. De certo modo, a intuição de Aristóteles estava correta.
Assim, a alma, sendo a forma do corpo, não exerce apenas as operações corporais: não há, no corpo humano, um “órgão do pensamento”, como há um órgão da visão ou da audição. A luz é corporal, o som é corporal, e, por isto, é necessário que existam órgãos corporais para interagir com estas realidades. Mas as formas, os conceitos, as abstrações, os universais, não são corporais; mas o ser humano é capaz de relacionar-se com estas realidades, pela sua inteligência. Mas não por algum órgão corporal, porque um órgão corporal não seria capaz de lidar com o imaterial; no entanto, é como um ser corpóreo que o ser humano dispõe da faculdade de inteligir. Portanto, Aristóteles fala do intelcto como “separado da matéria” em razão de sua operação intelectual, mas não em razão de sua natureza de elemento constitutivo de um ser material. É por isto que a alma humana é, a um só tempo, princípio de inteligência imaterial e forma corporal.
O segundo e terceiro argumentos objetores.
Esta resposta, portanto, é suficiente para esclarecer os questionamentos levantados pelo segundo e pelo terceiro argumentos objetores.
O segundo argumento objetor diz que cada forma deve ser determinada pela natureza da matéria e deve ser inteiramente proporcionada a ela. Assim, a forma de diamante, por exemplo, pressupõe a existência do carbono e não se atualiza, digamos, no ouro ou no ferro. Não há diamantes de ferro, mas apenas de carbono. Ora, conclui o argumento, se a alma fosse a forma do corpo humano, ela seria proporcionada ao corpo, e não teria operações intelectuais, imateriais, porque o corpo é material, e as operações imateriais não guardam proporção com ele. Assim, o argumento conclui que a alma não é a forma do corpo.
O terceiro argumento vai na mesma linha, e lembra que conhecer é justamente receber, no intelecto, as formas universais daquilo que se conhece. Mas as formas que são estrutura de coisas materiais relacionam-se apenas com a matéria de que são forma: cada porção de matéria pode receber apenas uma forma de cada vez: a argila não pode ser prato e estátua ao mesmo tempo. Assim, se a alma fosse a forma do corpo humano, o corpo receberia a alma e não poderia receber outras formas de maneira abstrata, conhecendo-as. Logo, se a alma humana fosse a forma do corpo, ela não teria capacidade intelectual, conclui o argumento.
Tomás nos lembra que estas questões já foram respondidas, quando ele respondeu ao primeiro argumento. Do mesmo modo que a forma de diamante é capaz de estruturar o carbono de uma maneira tal que ele tem propriedades que ultrapassam muito as propriedades do carbono bruto, a alma humana estrutura o ser humano de uma maneira tal que suas operações podem ultrapassar as operações particulares, materiais, e realizar atos que são completamente imateriais, como o conhecimento intelectual. Portanto, os argumentos não são consistentes, conclui Tomás.
3. O quarto argumento objetor.
Todo ato, toda perfeição, diz este quarto argumento, tem proporção com o ser que o realiza. Os entes só agem de determinada maneira porque podem agir daquela maneira; se algum ato é desproporcionado ao ente ao qual é atribuído, certamente não provém daquele ente. Assim, um macaco não pode resolver uma equação de segundo grau, como um elefante não pode respirar submerso no mar.
Posto isto, o argumento diz que o conhecimento intelectual, a ação de aprender, é uma perfeição espiritual, completamente imaterial em si. Logo, ela deve prover de um ente que tenha uma essência imaterial, simples, sem composição com a matéria. Portanto, prossegue o argumento, o processo de intelecção não pode provir de um ente material. Mas ele provém da alma humana. Logo, a alma humana não é o elemento estruturante de um ser material como o corpo humano, e, portanto, a alma não é a forma do corpo, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
É a alma que estrutura o corpo, e não o contrário. Portanto, se a alma é a forma do corpo, é ela, a alma, que determina os limites do ser humano, e não o corpo. Assim, não seria correto dizer que o corpo do ser humano tem uma alma; antes, diríamos que a alma humana compreende um corpo. Por isto, não pode haver atividade do corpo que não seja atividade da alma, mas pode haver atividade da alma, como a aprendizagem e a intelecção, que não seja ato do corpo.
4. O quinto argumento objetor.
As coisas materiais são compostas de forma e matéria, diz o argumento. Mas a forma e a matéria não são, em si mesmos, entes; matéria sem forma ou forma sem matéria não são coisas. O ser da forma é o ser da coisa que ela compõe, porque ela, sozinha, não é um ente, mas apenas um elemento de um ente. Mas aquilo que é o princípio da inteligência humana, isto é, a alma, é subsistente, ou seja, existe e continua a existir por si mesma, vale dizer: subsiste mesmo se o ser humano (do qual ela é alma) deixar de existir, vale dizer, já não subsistirem sua forma e sua matéria como unidos Logo, ela não é a forma da matéria que compõe este ser humano.
A resposta de Tomás.
A alma humana é a forma do ser humano constituído de matéria e forma. Ela constitui, com o corpo, a unidade de corpo e alma que constitui o ser humano como ente no mundo das coisas reais. A existência do ser humano, do qual ela é elemento, é a existência da própria alma unida a seu corpo, que se relacionam como matéria e forma. O fato de que ela é algo subsistente, capaz de permanecer após a morte do ser humano, não a transforma numa coisa em si mesma: ela subsiste como um elemento indestrutível de um ser que, em si mesmo, não o é. E sobrevive como algo incompleto, destituído de sua inteireza que só recobrará, um dia, na ressurreição corporal dos mortos.
5. O sexto argumento objetor.
O sexto argumento objetor lembra que as coisas são explicadas a partir de suas causas. As causas são os elementos das coisas, aquilo que as constitui como são. Cada coisa existe em razão de suas causas, que nela se reúnem inseparavelmente e exclusivamente. Assim, uma pedra tem a causa material, por exemplo, no silício e no ferro que a compõem, tem a causa formal em ser ovalada ou arredondada, tem a causa eficiente no vulcão que, um dia, a fundiu e expeliu e a causa final em compor a paisagem daquela montanha. Estas causas, reunidas, explicam aquela pedra. Elas compõem a própria essência da pedra, não são acidentes da pedra (como sua cor, seu peso, sua posição, etc.). Assim, a forma daquela pedra só existe enquanto a pedra existir: se ela for esmagada, por exemplo, ou derretida, sua forma sucumbe, sua matéria se corrompe, sua causa eficiente deixa de ter qualquer relevância e ele deixa de ter causa final, isto é, deixa de encaixar-se no conjunto da realidade sob alguma função.
Por isto, se a alma fosse a forma do corpo, ela sucumbiria com a morte, porque a morte, sendo a corrupção da coisa, destrói suas causas (material, formal, eficiente e final). Se a alma fosse a causa formal do ser humano, ela seria destruída com a morte. Mas sabemos que ela é subsistente, e sobrevive à morte. Disto, o argumento conclui que a alma não pode ser a forma do corpo.
A resposta de Tomás.
A alma é a forma do corpo. Mas ela é uma forma com características peculiares. Cada forma tem suas características. A forma do ar, por exemplo, permite que, ao ser aquecido, ele tenda a subir, e, ao ser resfriado, tenda a descer. Esta característica está inscrita nele. Ora, a alma humana também tem uma característica peculiar: ela subsiste na existência, mesmo quando o ente do qual ela é elemento perece. E mantém em si a inclinação a compor um ente material, isto é, a voltar a unir-se à matéria e recuperar sua identidade existencial, voltando a ser um ente completo, como ocorrerá na ressurreição dos mortos.
6. Conclusão.
Longo artigo. Riquíssimo. Lança os fundamentos para que saibamos justamente o que somos: seres essencialmente materiais, corporais, que operam imaterialmente pelo intelecto, e têm nessa operação o seu traço distintivo.
No próximo artigo debateremos, então, a individualidade do intelecto.
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