1. Introdução.

Vimos, então, no último artigo, que a alma é, a um só tempo, princípio do intelecto e forma do ser humano. Mas isto não esgotou os debates que ocorriam no tempo de Tomás. Na verdade, a influência árabe trazia consigo a ideia de que a inteligência humana não era individual. Haveria, na verdade, um só e grande intelecto que seria compartilhado, mesmo de modo desigual, por todos os seres humanos. Isto explicaria a razão pela qual nós somos capazes de conhecer os universais, abstratamente: nosso intelecto não seria particular, e por isto conteria em si os universais, universalmente. Não é difícil imaginar as consequências de uma teoria assim, quanto à dignidade e a pessoalidade, quanto à natureza do governo e da democracia. Se não há individualidade na inteligência humana, tampouco há a necessidade de dialogar para governar, ou de preservar o indivíduo da morte arbitrária. A rigor, a própria sobrevivência da alma seria algo impessoal, difuso: não é o indivíduo, por sua própria identidade espiritual, quem sobreviveria, mas a “inteligência humana”, genérica e coletiva. Não se poderia, então, deixar de ressaltar a importância do debate estabelecido neste artigo.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial é a de que o princípio do intelecto humano não é individual, mas comum à espécie humana. Assim, teríamos uma alma, que seria forma do corpo, e um princípio intelectivo humano que não se identificaria com a alma individual, mas seria algo como uma grande inteligência humana transpessoal, à qual estamos ligados, da qual compartilhamos, mas não nos pertence individualmente. A inteligência seria, assim, uma característica da espécie humana, mas não de cada indivíduo, embora cada indivíduo possa aceder a ela. Esta hipótese terá seis argumentos objetores que buscam defendê-lo.

3. Os argumentos objetores.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que o princípio da individuação, que permite que os seres da mesma espécie se multipliquem, é a matéria. É por isto que existem, digamos, inúmeros cães, compartilhando a mesma espécie canina: cada cão é um exemplar da mesma espécie canina, inscrito numa porção diferente da matéria. Portanto, para que haja muitos exemplares da mesma espécie, é necessário que esta espécie consista numa forma material, capaz de estruturar porções da matéria, multiplicando os seres da mesma espécie.

Ocorre que a operação intelectual é completamente imaterial, conforme estudamos na questão 75. Isto, diz o argumento, nos deixa com um grande problema: aquilo que é imaterial não pode multiplicar-se em diversos indivíduos. Mas os seres humanos multiplicam-se pela matéria, já que há e houve inúmeros seres humanos na terra. Disto, o argumento tira a conclusão de que, embora os seres humanos multipliquem-se, o intelecto, por ser imaterial, não pode multiplicar-se. Logo, o argumento conclui que há apenas um grande intelecto humano, compartilhado por todos.

O segundo argumento objetor.

Os efeitos estão indelevelmente ligados às suas respectivas causas, de tal modo que, se removermos a causa, o efeito cessa imediatamente.

Ora, se as almas humanas subsistem após a morte dos indivíduos, e a causa da multiplicação dos seres humanos é o corpo material, então, removidos os corpos materiais, as almas voltariam à sua unidade imaterial, perdendo inteiramente sua individualidade, que é resultado da materialidade do corpo. Ora, com isto, restaria apenas uma única alma humana após a morte de todos os seres humanos, e esta alma teria, além de toda a inteligência humana, também a história individual de cada ser humano que já viveu, com seus méritos e deméritos, e mereceria, ao mesmo tempo, todos os prêmios e castigos de Deus. Ora, isto seria herético, porque tornaria a retribuição eterna injusta, já que este ser único receberia prêmios e penas que não lhe correspondem em sua unidade, mas apenas na concretude individual de cada vivente. Logo, a individualidade não pode envolver a inteligência que sobrevive, e esta não se multiplica com a multiplicação das almas, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor parte da ideia de que o conhecimento que resulta dos órgãos dos sentidos é um conhecimento concreto, individualizado, de coisas com as quais me relaciono diretamente; mas o conhecimento intelectual é abstrato, universal, e resulta da própria assimilação das formas pelo intelecto, de maneira universal.

Mas, se cada um de nós é uma inteligência separada, com seu próprio intelecto individual, isto significa que cada um de nós receberia o conhecimento das coisas, de modo separado, individualmente para cada um de nós. O argumento lembra aquele princípio de que “tudo aquilo que é recebido, é recebido ao modo de quem recebe”. Se somos donos de inteligências particulares, então recebemos o conhecimento de modo particular, concreto, e não universal e abstrato, porque cada um de nós teria, no próprio intelecto, um conhecimento seu, particular. Portanto, conclui o argumento, se o ser humano é capaz de conhecimento abstrato, isto significa que há apenas um único intelecto humano, que é comum e compartilhado por toda a espécie.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento vai numa linha semelhante, que argumenta em cima da universalidade e abstração do objeto do conhecimento. É certo que inteligir é assimilar, no próprio intelecto, a forma da coisa conhecida, mas de maneira abstrata e universal, ao passo que, nas próprias coisas, as formas estão presentes de modo particular e concreta. Assim, se, por exemplo, eu estudo as maçãs, examino diversas maçãs e chego a conhecê-las conceitualmente, de modo abstrato e universal, é a própria forma da maça (que, nas frutas, está concretamente em cada maça que existe na natureza) que passa a estar inscrita no intelecto de modo abstrato e universal. Ora, se eu tiver um intelecto, e você tiver outro, e cada ser humano tiver um intelecto próprio, este conceito será multiplicado e existirá em cada intelecto concreto. Assim, para que se chegasse a um resultado intelectual plenamente universal, seria necessário reunir cada conceito abstrato que estivesse em cada inteligência particular para unificar, neles, o que têm em comum e resultar num conceito final realmente universal. Assim, o que cada intelecto particular conteria não seria realmente a forma universal da coisa conhecida, mas apenas um tipo de imagem ampla, e o intelecto individual não seria mais do que a memória e a imaginação de cada ser humano, mas não conteria universais de verdade. Portanto, conclui o argumento, para admitir que o ser humano seja capaz de um conhecimento realmente abstrato e universal, teríamos que concluir que há apenas um intelecto humano, um único princípio comum de intelecção compartilhado por todos os indivíduos de nossa espécie.

O quinto argumento objetor.

O quinto argumento objetor faz uma observação curiosa, sobre a questão do ensino escolar. De fato, não há dúvidas de que é o mestre que ensina, e o discípulo aprende. Mas aprender não é uma atividade transeunte, mas imanente, isto é, fica no próprio sujeito que sabe, e não se transmite. O conhecimento não é como o calor, que o fogo transmite aos objetos que estão próximos, aquecendo-os. Por isto, a única maneira de admitir que o mestre ensina e o discípulo aprende é admitir que é o mesmo, exatamente o mesmo, conhecimento que está no mestre e no discípulo. Ora, se o conhecimento é o mesmo para o mestre e para o aluno, então temos que concluir, diz o argumento, que eles compartilham de um só e o mesmo intelecto!

O sexto argumento objetor.

O sexto argumento objetor cita Agostinho, que teria afirmado: “se eu dissesse que há inúmeras almas humanas, então eu riria de mim mesmo!

Ora, prossegue o argumento, Agostinho refere-se, aí, à alma humana como princípio do intelecto. Logo, ele reconhece que há apenas um intelecto humano, imaterial e compartilhado por toda a espécie, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra cita Aristóteles, que diz: “as causas universais estão para as coisas universais como as causas particulares estão para as coisas particulares”. Ora, se, digamos, as figuras geométricas são as mesmas em todo o universo (o círculo, por exemplo, é o mesmo, quer seja concebido aqui, quer seja concebido noutro planeta). Mas, no caso das coisas particulares, cada exemplar tem sua própria forma: assim, cada cão tem sua alma sensitiva, que é da mesma espécie de todos os cães, mas anima cada cão em particular. Cada exemplar de cão que já existiu, existe ou existirá é dotado de sua própria alma sensitiva, que é sua forma. Ora, a alma intelectual, princípio da inteligência, é também a forma de cada indivíduo humano que já existiu, existe e existirá. Logo, conclui o argumento, é preciso que cada um tenha sua própria inteligência, porque tem sua própria alma individual.

5. Palavras de encerramento.

No próximo texto começaremos a examinar a resposta sintetizadora de Tomás.