1. Palavras de retomada.
Na Exortação “Gaudete et Exsultate”, o Papa Francisco nos adverte contra o risco do gnosticismo, que é uma antiga heresia que, segundo ele, é um grande obstáculo no caminho da santidade. O gnosticismo é um pensamento que tende a ver a realidade material como algo inferior, desprezível, e o ser humano como essencialmente um espírito. A inteligência seria o caminho de salvação, no sentido de que a salvação não consiste em viver no amor, mas em saber coisas. Um saber desencarnado, alheio à história e às relações, notadamente à relação com Deus. O Papa, no § 37 daquele documento, diz: “Graças a Deus, ao longo da história da Igreja, ficou bem claro que aquilo que mede a perfeição das pessoas é o seu grau de caridade, e não a quantidade de dados e conhecimentos que possam acumular. Os ‘gnósticos’, baralhados neste ponto, julgam os outros segundo conseguem, ou não, compreender a profundidade de certas doutrinas. Concebem uma mente sem encarnação, incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos outros, engessada numa enciclopédia de abstrações. Ao desencarnar o mistério, em última análise preferem «um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo”. Este é o risco que existe ao se separar a alma do corpo, sua unidade substancial. O risco de desencarnar a pessoa humana.
Este é o perigo que Tomás tenta afastar, aqui. O perigo de imaginar a alma humana como uma substância em si mesma, que se relaciona circunstancialmente, acidentalmente, com um corpo material do qual ela não é a forma. Ou seja, trata-se de resgatar a verdade de que a mesma alma que é princípio da inteligência é também a forma da corporeidade humana. Não há, em nós, nada que não esteja estruturado pelo mesmo princípio que nos faz espirituais. Somos inteligência corporal, ou corpos que pensam, ou animais racionais, como classicamente se define o ser humano. E este artigo nos introduz nas profundas razões que demonstram que as coisas são assim. Vamos a ele.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
O intelecto é a forma do corpo. O intelecto, ou seja, a alma intelectiva, é princípio da inteligência e é a forma do corpo humano. Tomás vai nos explicar, a seguir, o que isto significa, e examinar algumas ideias errôneas a respeito deste tema, afastando-as.
O conceito de forma.
Não vamos conceber erroneamente a ideia de forma. A forma não é apenas o formato, a aparência, mas a própria estrutura. Vale dizer, o ser humano é estruturado de tal modo que não há diferença, não há heterogeneidade, entre aquilo que ele é, aquilo que ele faz e aquilo que ele conhece. Sua capacidade de pensar radica-se na mesma realidade que o faz sentir, viver e ser, e que lhe dá estrutura para ser um ente material no mundo da matéria. Esta estrutura, ou forma, é a própria alma intelectiva. A alma não é alguma entidade misteriosa entranhada no ser humano: ela é a própria estrutura pela qual o ser humano é um ser humano, e, ao mesmo tempo, é a estrutura que organiza a matéria do seu corpo e lhe faz ser um ente dotado de inteligência.
Se falarmos em formas, estamos falando nas estruturas pelas quais os entes operam. De um corpo adequadamente estruturado, dizemos que ele é um corpo saudável. Assim, poderíamos chamar este corpo adequadamente estruturado de um corpo “em forma”, quer dizer, podemos dizer (e o dizemos de fato) que a forma de um corpo adequadamente estruturado é a saúde.
Por outro lado, quando vemos alguém intelectualmente bem estruturado, dizemos que é alguém de muita ciência. Por isto, poderíamos dizer que a forma de um intelecto bem estruturado é a ciência, no sentido amplo de conhecimentos adequados e completos sobre as coisas.
A saúde é o que torna perfeito um corpo vivo, como a ciência é o que atualiza um intelecto bem formado. Mas, para que um corpo tenha saúde e uma mente tenha ciência, é preciso que antes eles estejam vivos. Assim, a primeira estrutura, a mais fundamental de todas, é a estrutura ou forma que faz com que o ente que é saudável e sábio esteja vivo. Para ter saúde, para ter ciência, ele deve primeiro ter vida. E a esta estrutura que organiza a matéria de tal modo que ela passa a ser um corpo vivo chama-se, como já vimos, de alma. A alma é a forma dos entes vivos, e portanto é a estrutura da matéria que compõe seus corpos.
A alma como princípio da vida.
Assim, não poderíamos, a rigor, dizer que um ser vivo é composto de corpo e alma, porque, de certo modo, o corpo vivo só o é porque a própria alma organiza-lhe a matéria de tal modo que o faz ser vivo. O corpo é vivo por causa da alma, e não seria vivo independentemente dela. Exclua do corpo a estrutura que o faz ser vivo, e o que restará é só um cadáver. O cadáver é o que resta quando o ser já não mais está estruturado de tal modo que possa viver. Um corpo sem a alma não pode ser um corpo vivo. Não é mais um ser humano. A alma, pois, é a forma da vida, como a saúde é a forma do corpo saudável e a ciência é a forma da mente sábia.
E que operações são estas que caracterizam a vida?
Os seres vivos incluem aqueles cuja operação é básica como a das plantas: nascer, crescer, alimentar-se e reproduzir-se. Incluem também as atividades de locomoção e sensibilidade, como os animais irracionais. Por fim, para os animais inteligentes, como nós, incluem-se nas operações da vida as operações da mente, ou seja, a inteligência. É bom lembrar que há, aí, uma hierarquia, em que os seres que têm as operações posteriores também têm as anteriores, mas o contrário não é verdade. Ou seja, os animais têm as operações dos vegetais e mais as próprias de sua condição, e os seres humanos têm todas.
Em todo caso, todas as operações da vida estão sob a forma da vida, isto é, estão inscritas na respectiva alma do ser vivo que as apresenta. Não há um princípio da vida vegetativa, outro de vida sensitiva e outro de vida intelectual. Ou um ser está vivo ou não está, não há meio termo. Há apenas um princípio da vida em cada ser vivo, princípio este que inclui as operações próprias daquele grau de vida. É pela alma humana que crescemos, nos reproduzimos, sentimos e inteligimos. Não há, nos ser humano, uma alma vegetal pela qual crescemos e nos alimentamos, uma outra alma animal pela qual operamos os órgãos dos sentidos e uma terceira alma pela qual pensamos. Há apenas uma alma, apenas um princípio da vida, em cada ente, que é responsável por todas as operações vivas daquele ente.
É fácil verificar isto empiricamente. Se houvesse vários princípios vitais em cada ente, e se eles fossem separados por operação, seria possível que um ente morresse para as operações vegetativas e não morresse para as operações sensitivas, o que é impossível. Assim, o princípio da vida é um só, e no caso do ser humano é a alma intelectiva, que é a forma do corpo.
Mas Tomás sabe que o debate, em seu tempo, sobre a natureza do intelecto humano, ainda estavam abertas e eram candentes. Por isto ele vai passar a nos dar uma aula sobre a teoria do conhecimento em Aristóteles.
Afinal, como se relacionam a inteligência e a corporeidade?
Aristóteles, na sua teoria do conhecimento, parte de uma constatação empírica muito simples: quando nós aprendemos, conhecemos ou pensamos, nós temos a convicção de que somos nós mesmos quem conhece, aprende ou pensa. O conhecimento, o pensamento, a aprendizagem, é algo que ocorre em nós, e do qual somos os sujeitos.
Há, diz Aristóteles, três maneiras pelas quais podemos dizer que determinada ação é daquele sujeito:
1. Ela pertence ao sujeito de modo indivisível, porque é o próprio sujeito, como substância, que pratica a ação. Neste sentido, dizemos que o médico cuidou de mim, ou que o arquiteto projetou a minha casa. O médico e o cuidado são inseparáveis, como o arquiteto e a construção da minha casa. Não foi uma parte do médico que cuidou de mim, nem uma parte do arquiteto que concebeu e construiu a casa.
2. Ela pertence ao sujeito, mas de uma maneira divisível; assim, por exemplo, alguém pode dizer: toquei na parede com minha mão esquerda, ou não consigo escutar com meu ouvido direito. Sem dúvida, o sujeito do toque na parede sou eu, mas eu o fiz com uma parte do meu ser, ou do meu corpo, que pode ser delimitada. Mas a ação de tocar é minha. Assim, posso dizer: acariciei a minha cadelinha, mesmo sabendo que o fiz com a minha mão.
3) Ela pertence ao sujeito de modo acidental, como quando dizemos que um brasileiro inventou o avião, ou que um magrelo construiu o meu muro. Neste caso, a relação entre a nacionalidade do sujeito, ou sua magreza, com seu agir, é completamente acidental.
Qual é, portanto, a relação entre o nosso intelecto e o nosso ser?
Tomás coleciona, aqui, uma série de posições a este respeito. Destacam-se:
1) a posição de Platão, que identifica plenamente o nosso ser com o nosso pensamento, como a cura está relacionada indivisivelmente com o ser do médico (conforme item 1 dos exemplos acima). Neste sentido, a alma humana seria a própria substância do ser humano, e tudo o mais que há no ser humano (o corpo, os órgãos dos sentidos, as atividades vegetativas) seria acidental e não integraria realmente o nosso ente.
2) A posição de Averróis, a quem Tomás chama apenas de “O Comentador”, para quem a alma humana era como uma estrutura anexa ao corpo, e que usa os dados sensíveis obtidos pelo corpo para inteligir. Assim, a alma seria uma espécie de “órgão humano imaterial” da intelecção, cuja conexão com o corpo dar-se-ia através da memória e da imaginação, que forneceriam para a alma os dados necessários para a intelecção. Esta posição seria equiparável ao item 02 acima, aquela que diz que acariciar é operação da mão, embora sejamos, de fato, sujeitos da ação de acariciar. Aqui, inteligir seria ação deste princípio de inteligência que é alma, mas a alma não seria o princípio de estruturação do próprio corpo humano.
3) A posição de outros estudiosos não identificados, que identificam a alma como um verdadeiro ente externo ao ser humano corporal, uma espécie de energia motora espiritual que transmite a vitalidade e a inteligência ao corpo desde fora, de tal modo que a sua relação com o corpo seria acidental, como no item 03 acima. A alma, como princípio da inteligência, seria, então, algo como um fantasminha pilotando uma máquina, e o ser humano seria este composto da máquina (o corpo, pura extensão) e o espectro espiritual da alma, puro pensamento. Esta posição transforma a relação entre a inteligência e o corpo numa relação puramente acidental, e é muito similar à de Descartes (que viveu séculos depois de Tomás). É claro que Tomás não conheceu Descartes. Mas o debate que se estabelece neste artigo nos dá elementos para entender e criticar as posições cartesianas.
3. Palavras de fechamento.
Por fim, Tomás esclarece que apenas a posição de Aristóteles, que relaciona o corpo e a alma como matéria e forma, dá uma solução plausível para esta relação; é uma solução similar à do item 02, mas muito matizada.
Veremos tudo isto no próximo texto.
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