1. Introdução.

Estudamos, na questão anterior, a alma em si mesma. Descobrimos que ela é forma, e portanto não é material. Descobrimos que ela tem a operação intelectual que é independente do corpo, e por isto é subsistente. Descobrimos que ela não é uma espécie de anjo, mas um elemento de um indivíduo da espécie humana. E mais, ela é exatamente o princípio da inteligência humana, esta atividade imaterial que caracteriza o ser humano como um animal inteligente.

Nesta questão, estudaremos minuciosamente a relação entre a alma e o corpo, neste ser peculiar que é o ser humano. Somos animais espirituais, ou seja, entes materiais animados com abertura para o universal. Nada fácil de compreender o que somos.

A visão antropológica da Suma, que é a visão de Tomás, sempre nos deixa com o mesmo desconcerto que descrevemos, há alguns anos aqui no blog, como aquela sensação de visitar uma velha catedral medieval: a beleza de uma visão de mundo profundamente verdadeira, mas que se tornou, de certo modo, muito estranha para nós. Aqui, é a visão sobre aquilo que somos.

Mas deixemos de digressões. Vamos ao artigo, que é bem longo.

2. A hipótese controvertida.

No sistema clássico de filosofia, adotado pela Escolástica, o ser humano, como ente material que é, é composto de forma e matéria, como todas as coisas materiais. A questão é descobrir o que é esta forma, em que ela consiste. A candidata a ser a forma do ser humano é a alma. Ocorre que, como vimos na questão anterior, a alma é o princípio da atividade intelectual, e a atividade intelectual é essencialmente imaterial. Como, então, a alma poderia ser a forma do corpo, se ela é justamente o princípio da atividade imaterial do ser humano?

Esta é, justamente, a hipótese controvertida, proposta aqui para provocar o debate. A alma humana, que é o princípio da inteligência humana, não está unida ao corpo como a forma à matéria. Em assunto tão central, há, aqui, nada menos do que seis argumentos objetores, para tentar confirmar a hipótese inicial.

3. O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor cita Aristóteles, que afirma que a inteligência não é algo físico, mas está separada de qualquer corporeidade. Assim, o princípio da inteligência, diz o argumento, também seria algo separado da matéria e até independente dela. Por isto, diz o argumento, a alma não pode ser unida ao corpo como a forma à matéria.

4. O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor é profundamente filosófico, então deve ser acompanhado com muita atenção. Existe sempre uma proporção, uma conveniência entre as formas e a respectiva matéria. Ora, a forma que existe separadamente não se relaciona com nenhuma matéria, e por isto ela é capaz de conhecer outras formas. Isto porque a inteligência, sendo imaterial, pode conter em si inúmeras formas; aprender nada mais é do que receber, na inteligência, as formas aprendidas, mas apenas intencionalmente, isto é, como universais. Mas a matéria, cada porção de matéria, só pode conter uma forma de cada vez: a argila que uso como material para fazer, digamos, um vaso de água não pode ser, simultaneamente, material para um prato.

Portanto, aquelas formas que existem para determinar uma porção de matéria (como a forma de prato, ou de vaso) guardam proporção com a sua função, quer dizer, existem para determinar a matéria a ser isto ou aquilo. Assim, são forma para apenas uma matéria, e portanto não poderiam ter potencial para receber em si outras formas. Vale dizer, aquelas formas que existem para estruturar entes materiais existem para receber apenas uma porção de matéria, como cada porção de matéria existe para receber apenas uma forma de cada vez. Quer dizer, formas de entes materiais não podem receber outras formas como intencionais, quer dizer, formas de entes materiais não podem aprender. Portanto, uma forma que seja princípio de inteligência não pode ser, ao mesmo tempo, a forma de um corpo. Mas a alma humana é princípio de inteligência. Assim, conclui o argumento, ela não é forma de algum corpo.

5. O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor é basicamente simétrico ao segundo, ou seja, ao anterior. No segundo, ficou estabelecido que as formas das coisas materiais são formas de natureza individualizante, isto é, elas têm aptidão para formar apenas uma coisa, imprimindo-se na matéria; assim, não poderiam aprender, já que aprender é receber outras formas na inteligência.

Este terceiro argumento olha a mesma concepção, mas do ponto de vista da matéria. A matéria tem a capacidade de receber apenas uma forma de cada vez, como vimos no exemplo da argila que não pode ser, simultaneamente, prato e vaso. Assim, uma vez que aprender é a capacidade de receber inúmeras formas de modo universal na inteligência, a inteligência não pode ser material, porque senão receberia apenas uma forma de cada vez. Assim, a matéria não pode ser inteligente. Logo, aquilo que dá forma a um ser material não pode ser ao mesmo tempo um princípio de inteligência. Portanto, conclui o argumento, se a alma humana é princípio de inteligência, não pode ser forma do corpo.

6. O quarto argumento objetor.

Quando dizemos que uma coisa age, ou seja, que está exercitando sua capacidade agora mesmo, temos que reconhecer que esta capacidade estava nesta mesma coisa, mesmo antes de que ela agisse. Se o limoeiro da minha casa tem a capacidade de produzir limões, é este mesmo limoeiro que produzirá os limões, e não, digamos, a mangueira ou a laranjeira.

Mas a capacidade de aprender não é corporal, como foi visto na questão anterior.

Ora, prossegue o argumento, se ela não é corporal, significa que ela não pode ter o corpo como sujeito, como os limões não podem ter uma laranjeira como sujeito.

A capacidade de aprender, portanto, deve estar ligada, como capacidade, a um sujeito imaterial. Isto porque nenhuma capacidade pode superar o poder daquele sujeito ao qual ela pertence. Árvores não podem produzir animaizinhos, por exemplo.

Ora, a capacidade de aprender é própria de um ente simples, e não de um ente composto de matéria e forma, como foi visto nos argumentos anteriores. Ela supera a capacidade da matéria, afirma o argumento. Portanto, não pode ser a capacidade de um ente material, como produzir animais não pode ser a capacidade de uma árvore.

Assim, conclui o argumento, aquilo que é princípio e sujeito da inteligência, como a alma humana, deve ser simples e imaterial, e não pode ser, portanto, a forma do corpo humano.

7. O quinto argumento objetor.

O quinto argumento lembra aquela noção de que a alma humana é algo subsistente por si mesma.

As formas são apenas uma das causas dos seres que existem. Todas as coisas materiais têm quatro causas. Vamos pensar numa estátua de mármore de Napoleão Bonaparte. a causa material é o mármore, a causa formal é o retrato de Napoleão, a causa eficiente é o escultor e a causa final é homenagear Napoleão.

Mas a forma, ou causa formal, não é uma coisa em si mesma, mas apenas um elemento, um dos componentes da coisa. Se eu quebrar o mármore da estátua, a forma de Napoleão se perde.

Ocorre que a alma humana, como princípio da inteligência, é algo subsistente, que não se perde, não se destrói quando o composto é destruído, isto é, quando ser humano morre. Ela não é apenas um elemento do composto que é o ente humano, mas é um ente por si mesma. Logo, conclui o argumento, não é ela que exerce o papel de ser a forma do corpo humano.

8. O sexto argumento objetor.

Este argumento vai no mesmo sentido do anterior. Se algo é a forma de um ente material, ela existe, essencialmente, para dar estrutura a este ente. Este é o fim de sua existência. Se esta forma não é essencialmente a estrutura do ente material, mas apenas acidentalmente compõe sua aparência, a sua relação com o ente não é substancial, mas acidental. É por isto que, digamos, uma peruca pode compor a imagem de alguém, acidentalmente, mas não é parte da substância da pessoa mesma. A peruca subsiste, mesmo que o sujeito morra.

Ora, aquilo que é forma substancial, portanto, não pode existir quando o composto do qual ela é o elemento essencialmente estruturante é destruído. A destruição do composto sempre implica a destruição de sua forma substancial.

Mas se a alma humana é subsistente, e é princípio da inteligência que é imaterial, então ela não é a forma substancial do corpo humano, mas alguma outra coisa, conclui o argumento.

9. O argumento sed contra.

O argumento sed contra vai citar Aristóteles. Ele diz que, quando classificamos alguma coisa em gênero e espécie, o gênero é a forma substancial naquilo que é comum com outros seres. A espécie é a forma substancial naquilo que tem de próprio, ou seja, naquilo que diferencia de outros seres semelhantes. É por isto que somos do gênero dos animais, por sermos corporais e sensíveis, mas somos da espécie humana por sermos inteligentes.

Mas aquilo que nos especifica, ou seja, que nos diferencia de todos os outros seres do mesmo gênero e nos constitui numa espécie diferente, deve necessariamente estar na forma do ente. Não se pode classificar algum ente numa espécie senão por causa de sua forma.

Ora, prossegue o argumento, a espécie humana se diferencia de todas as outras espécies do gênero animal exatamente pela inteligência.

Portanto, conclui o argumento, se é a inteligência que nos especifica, ela deve ser da própria forma substancial da espécie humana.

Logo, um só é o princípio da inteligência e a forma do corpo humano, conclui.

10. Palavras de fechamento.

Tema difícil. Espero que tenham acompanhado até aqui. Se o fizeram, por favor deixem um “like”.

No próximo texto começaremos a examinar a resposta sintetizadora de Tomás.