1. Retomando o tema.

Voltamos, então, para examinar os ensinamentos de Tomás a respeito das diferenças entre a alma humana, em comparação com os anjos. As suas respostas aos argumentos objetores iniciais vão nos enriquecer bastante nesta caminhada para aprofundar o conhecimento sobre o que somos.

2. O primeiro argumento objetor

O primeiro argumento objetor lembra que todos os entes são explicados por quatro causas (material, formal, eficiente e final), das quais a causa final é a mais importante: é o fim que determina todas as outras causas. Ora, diz o argumento, o fim da alma humana é o mesmo do anjo: a salvação e a bem-aventurança eterna em Deus. Portanto, se eles têm a mesma causa final, e a causa final é a mais importante para identificar o ente, então a alma humana e o anjo, tendo o mesmo fim, são da mesma espécie.

A resposta de Tomás.
Temos que diferenciar, aqui, entre os fins naturais dos entes e os seus fins remotos, sobrenaturais. Os fins sobrenaturais somente são atingidos com a assistência da graça de Deus. Os fins naturais são parte da própria estrutura do ente. Assim, por exemplo, a reprodução é um fim natural do ser humano, mas não é um fim natural do anjo. Portanto, o fato de que anjos e humanos compartilhem os fins sobrenaturais, como é o caso da salvação e bem-aventurança eterna, não determina que eles sejam da mesma espécie.

3. O segundo argumento objetor.

A classificação de qualquer ente se dá por gênero e espécie. O gênero é o grande conjunto dos seres que compartilham as mesmas características. A espécie é o subconjunto, dentro do gênero, daqueles entes que compartilham da mesma característica diferencial com relação aos demais entes do mesmo gênero. É o caso do ser humano, que é do gênero animal por causa de tudo o que tem de comum com os animais, mas, por causa da sua característica diferencial, que é a racionalidade, enquadra-se numa espécie própria.
Ora, o argumento aduz que a diferença específica é mais importante para definir um ente do que as características genéricas. Ora, a diferença específica dos seres humanos é a inteligência, que é uma característica própria da alma humana, e nisto ela coincide com os anjos. Assim, o argumento conclui que a alma humana é da mesma espécie dos anjos.

A resposta de Tomás.
Não há dúvida de que a diferença específica é a característica mais importante em cada ente, porque é aquilo que faz com que ele seja o que é. Qualquer criança pode ver, num rebanho em que haja, por exemplo, bois e búfalos misturados, que se trata de animais semelhantes. Mas somente alguém com mais conhecimento é capaz de separar os búfalos dos bois, para o bem do rebanho. A diferença específica está para o ente, portanto, como o ato está para a potência: é aquilo que exibe a perfeição suprema do ente, na sua categoria.
Portanto, quando se diz que a inteligência é o elemento diferencial do ser humano com relação aos outros animais, isto não significa que estejamos tratando da “inteligência” abstratamente. Bois e búfalos têm chifres, mas os chifres dos bois são diferentes dos chifres dos búfalos.
No caso da inteligência, a alma humana é dotada de uma inteligência completamente diferente da inteligência angélica. Ora, se o fato de terem olhos não faz com que as moscas e os bois sejam da mesma espécie, porque a visão das moscas é muito diferente da visão do boi, o fato de compartilhar a característica abstrata de serem inteligentes, mas com inteligências tão radicalmente diferente, não unifica anjos e almas humanas numa mesma espécie.

4. O terceiro argumento objetor.

A única diferença entre a alma humana e os anjos, segundo este argumento, é que a alma, enquanto o ser humano está vivo, tem a função de ser a forma do corpo. Mas o corpo, diz o argumento, é algo completamente estranho à essência da alma, porque a alma, como já foi visto em artigos anteriores, é essencialmente imaterial. Assim, o corpo, para o argumento, não é da mesma espécie da alma, que seria, em si mesma, um ente completo e essencialmente imaterial. Mas o anjo, assim como a alma humana, é uma inteligência essencialmente imaterial. Assim, a alma humana é da mesma espécie que os anjos, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

O argumento está equivocado, por dois motivos principais, que Tomás passa a explicar:

1. É verdade que o corpo não tem a mesma natureza da alma, no sentido de que ele é um outro elemento, o elemento material, do ser humano como ente composto. De fato, a alma, em si mesma, é essencialmente imaterial, e por isto o corpo é, de certo modo, algo diverso da alma. Mas, diferentemente do anjo, (que é, em si mesmo, um ente completo, estritamente espiritual, e portanto essencialmente imaterial), a alma humana não é um ente completo em si mesma, embora seja subsistente. Ela é apenas um dos elementos do ser humano, cuja natureza é a de estar unida ao corpo. Nisto ela difere essencialmente do anjo, que não tem a natureza de unir-se a um corpo qualquer para compor uma outra substância.

2) Não se poderia dizer que a alma humana é um espécime da espécie humana. O espécime, ou seja, a substância individual da espécie humana é o ente completo, vale dizer, composto de corpo e alma. Mas o anjo é um espécime completo em sua espiritualidade (na verdade, ele é necessariamente o único espécime de sua espécie). Portanto, sabemos que a alma humana é capaz de sobreviver à morte do ser humano, mas não sobrevive como um ente substancial, completo, inteiro, senão como um ser incompleto que subsiste em sua incompletude até a ressurreição corporal dos mortos.

Tomás aduz um último comentário: o fato de que a alma humana é a forma de um ser corporal mostra o quanto a inteligência humana é inferior à inteligência angélica. O ser humano nasce com a inteligência incompleta, como que ignorando tudo aquilo que há de inteligível no mundo, e precisará da atividade corporal para aprender. O anjo, por outro lado, é criado com todo o conhecimento sobre a criação, e tem a inteligência toda em ato – anjos não precisam aprender.

Portanto, almas humanas, separadas ou não do corpo pela morte, não são da espécie dos anjos. Não são nem mesmo do gênero dos anjos.

5. Conclusão.

Firmes, agora, no nosso conhecimento sobre a natureza da alma humana, sobre sua sobrevivência, subsistência e imortalidade, sobre sua vocação para compor, com a matéria, o próprio indivíduo humano, veremos, na próxima questão, a relação da alma com o corpo humano.