1. Retomando o tema.

Este artigo trata da diferença entre a alma humana, subsistente mas não substancial, por ser apenas um dos elementos de um ser composto de corpo e alma, por um lado, e os anjos, substâncias espirituais essencialmente incorpóreas, por outro. Vimos, no último texto, a hipótese controvertida de que a alma humana é da mesma espécie dos anjos, e os três argumentos objetores neste sentido. Vimos também o argumento sed contra, que cita o Pseudo-Dionísio para diferenciar entre anjos e almas humanas com base na respectiva capacidade e modo de inteligir. Agora, examinaremos a própria resposta sintetizadora de São Tomás.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

O erro de crer que as almas humanas são uma espécie de anjo é muito antigo, e sempre foi devidamente rejeitado pela Igreja.

O pensamento de Orígenes.

De fato, já nos escritos de Orígenes, que viveu aproximadamente entre os anos 185-253 DC, encontrava-se este erro, por influência platônica. Orígenes ensinava que os seres humanos seriam anjos decaídos que receberam a carne para purificar-se. Assim, para ele, a diferença entre anjos e a alma humana estaria apenas no mau uso do livre arbítrio por parte de alguns anjos, o que os levou a decaírem para a condição acidental de humanos. Este ensinamento errôneo, que torna incompreensível toda a história da salvação em Jesus e a própria identidade humana, veio de Platão e chegou até nossos dias em diversas religiões gnósticas, como os espiritismos (reencarnacionistas ou não). Tomás nos ensinará, aqui, algumas razões pelas quais Orígenes estava errado.
A matéria é princípio de individuação. O que isto quer dizer?

Os entes materiais da mesma espécie e a distinção dos indivíduos pela matéria.

Podemos pensar nos seres materiais como exemplares individuais de uma mesma espécie. A espécie é universal, quer dizer, ela é a forma abstrata que estará concretamente presente em cada indivíduo da mesma espécie. A espécie seria, então, impressa numa porção de matéria e daria origem a este ou aquele ente. Pensemos nas formigas: um formigueiro é constituído por milhares de formigas da mesma espécie. E como sabemos que esta formiga e aquela formiga não são a mesma formiga, mas indivíduos diferentes dentro do mesmo formigueiro?
Simples! Esta formiga tem um corpo material que é diferente do corpo daquela outra, de qualquer outra formiga. Assim, poderíamos contar a população de formigas de um formigueiro, apontando para a corporeidade de cada formiguinha individual. Posso, então, afirmar: este formigueiro tem duzentas formigas, porque vejo duzentos corpinhos de formiga circulando nele. Cada uma é um espécime da espécie de formigas ali existente. Cada formiga é um indivíduo, porque cada uma tem em si uma porçãozinha de matéria que a torna distinta de todas as outras, mesmo compartilhando a mesma espécie.
Mas vamos imaginar que as formigas fossem seres imateriais. Como eu poderia contar quantas formigas da mesma espécie existem no mesmo formigueiro? Eu não poderia. Sem a matéria, não poderia haver a multiplicação dos espécimes. Haveria apenas uma espécie, na minha mente ou na mente de Deus, mas não haveria uma multidão de formigas. Um seja, a espécie seria o único ente no formigueiro.
Como seria possível, então, a existência de duas formigas imateriais? A única possibilidade seria que houvesse duas ou mais espécies diferentes de formiga no mesmo formigueiro. Cada espécie seria um ente diferente. Portanto, como cada ser imaterial é necessariamente único em sua espécie, então, para que haja uma pluralidade de seres imateriais, é necessário que haja uma pluralidade de espécies. Sem matéria, a única maneira de individualizar os entes é que eles sejam de espécies diferentes.

Usando o exemplo da geometria: no mundo das definições, há apenas uma circunferência: aquela figura geométrica, qualquer que seja sua dimensão, em que todos os pontos da linha que a forma estão à mesma distância do centro. No mundo das coisas materiais pode haver mais de um círculo, mas, como abstração, há uma e apenas uma definição de circunferência: podemos dizer, então, que, como universal, a circunferência é uma só. Se quisermos ter mais de uma figura geométrica imaterial, temos que ter duas espécies diferentes de figura geométrica. Para termos várias figuras geométricas da mesma espécie, elas têm que ser materiais.

A distinção dos anjos pela forma: cada anjo é de uma espécie diferente.

Ora, os anjos são imateriais. Então não pode haver dois anjos da mesma espécie: cada anjo é de uma espécie diferente. Mas os seres humanos são corporais: assim, todos os seres humanos são da mesma espécie, e diferenciam-se pela matéria assinalada que constitui seus corpos. Este fundamento seria suficiente para responder à hipótese controvertida: anjos e almas humanas não são da mesma espécie. Nem sequer dois anjos são da mesma espécie.

E quanto ao gênero? Como vimos, o gênero é determinado pela semelhança entre as espécies. Os anjos são todos do mesmo gênero, isto é, do gênero dos entes imateriais inteligentes. Os seres humanos são do gênero dos animais, isto é, dos seres materiais animados e sensíveis. Assim, nem sequer no mesmo gênero podemos classificar almas humanas e anjos.

E como as espécies se diversificam? Elas se diversificam pela chamada “diferença específica”, ou seja, pelo fato de que suas naturezas são diferentes. Neste sentido, a diversidade de espécie implica diversidade na própria complexidade dos entes, vale dizer, na sua perfeição. Neste sentido, as diferenças específicas, segundo Aristóteles, organizam-se sob a lógica dos contrários, vale dizer, como uma perfeição está para a sua privação. Neste sentido, por exemplo, os seres humanos têm a perfeição da inteligência, da qual todos os outros animais estão privados. Assim, a diferença específica da espécie humana, com relação às outras espécies animais, é a inteligência.

E a matéria? A matéria, como já vimos, é causa de individualização. Ela faz com que dois seres humanos sejam indivíduos distintos. Um deles tem esta porção da matéria formando seu corpo, enquanto o outro tem aquela matéria. Mas uma matéria só se distingue da outra por causa da quantidade que se submete a esta ou aquela forma: a matéria-prima é indistinta. E é a forma comum que faz com que ambos sejam da espécie humana.

Portanto, uma vez que não são materiais, os anjos só podem distinguir-se como indivíduos diversos porque têm formas diferentes, isto é, cada anjo é de uma espécie. Portanto, é impossível que as almas humanas sejam da mesma espécie que os anjos.

3. Palavras de fechamento.

No próximo texto veremos as respostas enriquecedoras de Tomás aos argumentos objetores iniciais.