1. Introdução.

Já vimos, no artigo anterior, que a espécie humana é do mesmo gênero dos animais irracionais. O ser humano é uma espécie de animal, mas não é simplesmente um animal qualquer. É um animal racional. E, exatamente por isto, tem uma alma subsistente, ou seja, imperecível pela morte. Seria um erro reduzir o ser humano ao mesmo plano dos animais irracionais, cuja capacidade não supera a matéria e, por isto, não tem uma alma capaz de sobreviver à morte.

Mas há o erro oposto: o de imaginar que a alma, por ser subsistente, é substancial. Ela não é. A substância é o ser humano, composto de corpo e alma. A alma humana subsistente não é uma substância, porque, mesmo sobrevivendo à morte, sobrevive incompleta, como que fragmentada, sem seu corpo. Mas o seu corpo, aquele mesmo corpo do qual ela foi separada pela morte, é uma parte indispensável da sua identidade; ela, sem aquele corpo, não é um ente por si mesma; e se, por acaso, ela pudesse assumir outro corpo humano, completamente diferente do seu, ela já não seria ela mesma, mas perderia completamente a sua identidade.

O anjo, por outro lado, é uma substância, isto é, é um ente completo em sua realidade espiritual. Se, por acaso, o anjo viesse à terra e usasse da matéria daqui para aparecer a alguém, por exemplo, como Rafael fez com Tobias no livro de mesmo nome, no antigo testamento. Ali, o anjo apresentou-se sob o nome de Azarias, corporalmente. Mas ele não era Azarias. Sempre foi Rafael.

Por isto, os reencarnacionistas, no fundo, defendem que os seres humanos seriam da mesma espécie dos anjos: o corpo não faria parte da sua identidade substancial, e pode ser mudado sem que a alma perca sua identidade substancial. Esta é, como veremos ao longo deste artigo, uma ideia falsa. O ser humano tem sua identidade indelevelmente relacionada ao seu próprio corpo. Se ele é humano, e se é substancialmente diferente dos anjos, a reencarnação não pode existir.

Mas estamos fugindo do tema. Vamos à hipótese controvertida deste artigo tão importante.

2. A hipótese controvertida.

Para provocar o debate, a hipótese controvertida propõe exatamente que, no fundo, os seres humanos são apenas uma espécie de anjo, que circunstancialmente fica preso na matéria quando está encarnado, mas retoma sua substancialidade quando está desencarnado. Assim, a hipótese propõe: parece que os seres humanos são uma espécie do gênero dos anjos. Não seriam, portanto, animais racionais, mas anjos presos na matéria.

São três os argumentos objetores iniciais, que tentam comprovar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que cada ser é ordenado a sua própria finalidade de acordo com a natureza de sua espécie. Assim, as plantas têm a estrutura vegetativa, cujo fim seria alimentar-se, crescer e reproduzir. Os animais, além disso, têm a natureza sensitiva, que lhes permite estabelecer uma relação com o meio ambiente percebendo seus estímulos e respondendo a eles. Mas tanto os seres humanos quanto os anjos estão ordenados a buscar a felicidade eterna e chegar a ela, entrando na glória de Deus, diz o argumento. Assim, anjos e seres humanos, tendo o mesmo fim, seriam da mesma espécie, conclui.

O segundo argumento objetor.

Toda classificação dos entes se divide em gênero, que é o conjunto mais amplo que reúne os entes semelhantes, e espécie, que é o subconjunto, dentro do gênero, daqueles entes que compartilham uma mesma diferença que os caracteriza. Assim, os cães são do gênero animal, porque apresentam a semelhança genérica de serem entes dotados de vida sensível, mas são os únicos animais capazes de latir e de reproduzir cãezinhos. Assim, latir e reproduzir cãezinhos é a diferença específica que determina que um ente é um animal da espécie dos cães.

O argumento prossegue, então, dizendo que a diferença específica é mais importante para caracterizar o ente do que a sua semelhança genérica com outros seres. Mas a diferença específica da alma humana é ser intelectiva, tanto que os seres humanos são denominados de “animais racionais”. Mas os anjos também são espíritos intelectivos. Portanto, diz o argumento, a diferença específica da alma humana é mais próxima dos anjos do que dos outros animais; logo, a alma humana deve ser da mesma espécie dos anjos, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Por fim, o terceiro argumento objetor afirma que a única diferença entre uma alma humana e um anjo é que a alma humana passa um tempo ligada a um corpo. Mas ela subsiste à morte do corpo e passa a existir eternamente de modo autônomo. Logo, a ligação com o corpo é acidental para a alma humana, algo estranho à sua essência mesma. Assim, diz o argumento, ela é essencialmente um espírito subsistente, naturalmente imaterial, que circunstancial e temporariamente está ligada a um corpo de modo acidental. Portanto, conclui o argumento, a alma humana é essencialmente um anjo, ou seja, um espírito dotado de inteligência e individualidade.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra fundamenta-se no pensamento do Pseudo-Dionísio. Para ele, dois entes diferentes, que têm operações naturais diversas, nunca podem ser da mesma espécie. Ora, os anjos caracterizam-se por inteligir de modo puramente simples, intelectual, sem passar por algum processo composto de aprendizagem por sensibilidade – os anjos não precisam aprender, porque eles simplesmente sabem. As almas humanas, ordinariamente, têm que aprender para deter algum conhecimento intelectual.

Além disso, os anjos são capazes de chegar diretamente à intuição das coisas divinas, sem usar de nenhuma analogia com as coisas criadas, como fazem os seres humanos.

Assim, tendo diferentes operações intelectuais, as almas não podem ser da mesma espécie que os anjos, conclui o argumento.

5. Conclusão.

A alma humana é a forma substancial do corpo, com o qual constitui o ser humano integral. Ela é uma forma especial, que sobrevive à destruição do composto, e por isto dizemos que ela é subsistente. Um anjo é um ente em si mesmo, é substância espiritual, e não tem, em sua natureza, nada de composição material.

Mas estamos nos adiantando. Isto é assunto para o próximo texto.