1. Palavras de retomada.
Existem tendências, hoje, que tendem a esquecer que há semelhanças e a diferenças de natureza entre seres humanos e animais. Alguns tendem a imaginar que somos mais semelhantes a anjos presos na matéria do que a animais, o que é falso. Outros tendem a imaginar que não somos mais que animais complexos, e que a diferença entre a nossa inteligência intelectual e a inteligência sensorial dos animais não é de natureza, mas apenas de grau. Tomás não comete nenhum dos dois erros, como vimos no texto anterior, examinando sua resposta sintetizadora.
Nutridos pelos princípios estabelecidos ali, examinemos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que aquilo que tem a mesma estrutura, a mesma origem e os mesmos princípios constituintes deve ter, igualmente, o mesmo fim. Ora, o ser humano e os animais irracionais têm a mesma estrutura, a mesma origem e os mesmos princípios constituintes, o que é reconhecido até mesmo pelas Escrituras, na passagem que diz (Eclesiastes 3, 19): “Porque o destino dos filhos dos homens e o destino dos animais é o mesmo, um mesmo fim os espera. Tanto morre um como o outro. A ambos foi dado o mesmo sopro. A vantagem do homem sobre o animal é nula, porque tudo é vão.”
Assim, o argumento conclui que a alma humana, como alma animal que é, é perecível.
A resposta de Tomás.
A citação bíblica colocada pelo argumento será objeto de uma interpretação detalhada, por Tomás. Ele respeita a autoridade bíblica, mas também respeita a autoridade da filosofia e da ciência; ele sabe que toda a realidade, tanto aquela que se dá ao conhecimento científico e filosófico, quanto aquela que é objeto de revelação, provém, em última instância, da mesma fonte: Deus. E por isto não pode haver contradição entre aquilo que conhecemos pela ciência e aquilo que nos ensinam as Escrituras.
Portanto, Tomás nos afirma que este texto retirado do Eclesiastes está se referindo aos tolos, aos que não têm noção de sua dignidade humana, e que não percebem que não são simples bestas irracionais. Seu orgulho e seu fechamento de coração os leva a viver como animais, porque creem que perecerão como os animais. Há uma observação semelhante a esta, em outro livro bíblico também atribuído a Salomão (Sabedoria 2, 1-21), no qual este discurso de que a vida humana não se diferencia em nada da vida animal é expressamente atribuído aos tolos e arrogantes.
Assim, é verdade que os seres humanos e os animais irracionais têm a mesma composição corporal: ambos são feitos dos mesmos elementos, da mesma terra, do mesmo pó ao qual voltarão.
Mas também é verdade que todas as capacidades e habilidades dos animais irracionais estão limitadas ao concreto, ao individualizado, ao condicionado pelo aqui e agora e pela reação aos estímulos. Os animais irracionais são incapazes de reflexão, daquele voltar-se sobre si mesmo que caracteriza a imaterialidade da inteligência propriamente dita. Assim, sua alma pode ser gerada pela própria organização sucessiva da matéria, porque nada neles ultrapassa a matéria. Mas não é assim com os seres humanos.
Como sabemos, dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Mas dois pensamentos podem. Não somos capazes de nos ver enxergando. Mas somos capazes de nos observar pensando. Isto porque o pensamento é imaterial e, portanto, capaz de refletir sobre si mesmo. Disto se pode concluir que a alma não é gerada pela matéria, nem mesmo por algum processo evolutivo, porque ela é capaz de operações que, como vimos, não são materiais. Assim, conclui Tomás, a alma humana não pode ser fruto da organização da matéria, mas deve sair, cada uma, das mãos de Deus. A reprodução dos seres humanos, portanto, envolve sempre um pai e uma mãe, que transmitirão a corporeidade e a psicologia, e Deus, que criará a alma espiritual.
As Escrituras também registram esta diferença de origem, diz Tomás. Em Gn 1, 24, narra-se que Deus criou os animais dizendo: “produza a terra seres vivos”. Mas, no segundo relato da criação, ao narrar a criação do ser humano, o Livro do Gênesis diz (2, 7): “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem se tornou um ser vivente”. É por isto que o próprio Livro do Eclesiastes diz, falando da vida humana: “antes que a poeira retorne à terra para se tornar o que era; e antes que o sopro de vida retorne a Deus que o deu”.
Portanto, os trechos que o argumento cita relacionam-se à animalidade do ser humano, que determina que ele siga a sorte dos animais quanto à morte física. Mas não são suficientes para descrever toda a realidade humana, que envolve a subsistência de sua alma espiritual.
3. O segundo argumento objetor.
O segundo argumento também vai buscar suporte no Livro da Sabedoria, desta vez em 2, 2-3: “Um belo dia nascemos e, depois disso, seremos como se jamais tivéssemos sido! É fumaça a respiração de nossos narizes, e nosso pensamento, uma centelha que salta do bater de nosso coração! Extinta ela, nosso corpo se tornará pó, e o nosso espírito se dissipará como um vapor inconsistente!”
Ora, diz o argumento, este trecho mostra que somos destruídos pela morte, tanto em nosso corpo quanto em nossa alma, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Tomás vai, mais uma vez, fazer uma reinterpretação do trecho bíblico.
Mas, fazendo uma digressão antes de avaliar a resposta dele, diríamos que não podemos olhar as palavras das Escrituras, especialmente quanto ao Antigo Testamento, como se fossem literais e como se cada trecho contivesse em si toda a inteligibilidade. É certo que o autor do Livro da sabedoria não tinha, ainda, a revelação plena em Jesus, então não precisamos defender que ele conhecesse integralmente, dentro da pedagogia divina, toda a realidade escatológica que só em Jesus se manifestaria.
Reinterpretando, no entanto, o trecho bíblico citado, Tomás nos diz que Deus tem o poder de tirar o ente do nada. Então ele também tem o poder de aniquilar o ente, reduzindo-o de volta ao nada. Isto não significa, no entanto, que os entes sejam perecíveis em si mesmos: um anjo é imortal, porque é apenas forma, e portanto ele não está sujeito à morte, que é a separação entre a matéria e a forma, porque não tem matéria.
Assim, a Escritura diz que, se Deus quiser aniquilar um anjo, ou aniquilar uma alma humana, ele tem poder para fazê-lo. Mas não diz que o anjo e a alma humana carregam em si a potencialidade de perecer; em si mesmos, são imperecíveis. E Deus, sendo Deus, não se arrepende do que cria: não existe a possibilidade de que Deus venha, na prática, a aniquilar um ente que criou para ser imperecível. Portanto, o fato de que Deus tenha o poder para aniquilar qualquer ente não significa que os entes imperecíveis não o sejam.
4. O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor nega que a operação de aprendizagem intelectual da alma humana seja uma operação autônoma com relação ao corpo. Para inteligir, diz o argumento, a alma precisa dos órgãos dos sentidos, que fornecem os dados sensíveis à memória, e da imaginação, que reúne esses dados e apresenta à inteligência essa imagem, que a filosofia clássica do conhecimento chama de “phantasmata” ou fantasma. Essa imagem, portanto, depende, na sua construção e na sua manutenção, integralmente da corporeidade, e mesmo o conhecimento intelectual mais abstrato depende dela para formar-se e mesmo para tornar-se atual na mente. De tudo isto, o argumento conclui que a alma é inteiramente dependente do corpo para operar, e, portanto, não poderia operar (e nem sobreviver, portanto) à destruição do corpo pela morte,
A resposta de Tomás.
Tomás reconhece que o corpo é essencial para a atividade de aprendizagem. Sem o corpo, não teríamos como obter novos conhecimentos por meios ordinários. Assim, a operação de aprender, de inteligir por meio dos fantasmas, é própria do ser humano enquanto existe como composto de corpo e alma, e não deve ocorrer após a morte. Mas a atividade intelectual não se resume a aprender, e não se pode esquecer que a inteligência pode subsistir sem corpo, como subsistem os anjos. Numa questão posterior (questão 89, artigo 1) estudaremos exatamente esta questão do funcionamento da inteligência humana na alma subsistente após a morte.
5. Conclusão.
Somos imperecíveis. Nossa alma humana o é, e a fé nos mostra que a ressurreição nos devolve a integridade existencial. Mas ainda vamos avançar muito, estamos apenas começando.
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