1. Introdução.

A esta altura, já sabemos que a alma humana é subsistente, isto é, não é destruída quando a morte destrói o corpo. Mas isto não impedirá Tomás de fazer mais um debate: será que, mesmo sobrevivendo de algum modo à morte, esta sobrevivência consiste numa permanência existencial da própria alma, e não em alguma lembrança, em alguma espécie de conservação mágica em Deus?

Não é uma discussão desnecessária. Há seitas e comunidades eclesiais oriundas do protestantismo que creem que a morte faz perecer a alma, mas o ser humano fica como uma memória em Deus, que o recria inteiramente na ressurreição. Esta é uma crença antropologicamente insustentável, porque, ao recriar, já não seria eu, mas um clone. Faltaria identidade existencial. Assim, este debate, sobre a imperecibilidade da alma, é de grande importância. Vamos a ele.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida é exatamente a que levanta este problema, da corruptibilidade da alma humana. Parece que a alma humana é perecível, quer dizer, corrompe-se, é destruída, há limite em sua duração. O sexto discute-se assim. ― Parece que a alma humana é corruptível. Há três argumentos no sentido desta hipótese inicial.

3. O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que, afinal, o ser humano não é mais do que um animal. Temos os mesmos princípios que os animais. Logo, sofremos o mesmo fim que eles, diz o argumento. Como os animais, somos dotados de um corpo material, formado a partir dos mesmos ele elementos orgânicos e inorgânicos que formam o corpo de todos os animais. A nossa vida é marcada pelos mesmos processos, ou, como diz o Livro do Eclesiastes, 3, 19: “Porque o destino dos filhos dos homens e o destino dos animais é o mesmo, um mesmo fim os espera. Tanto morre um como o outro. A ambos foi dado o mesmo sopro. A vantagem do homem sobre o animal é nula, porque tudo é efêmero”. Ora, a alma dos animais perece com eles, em sua morte. Não podemos imaginar, diz o argumento, que a nossa tenha destino diferente: a passagem das Escrituras que foi citada nos atesta que a nossa vida é igualmente efêmera. Assim, conclui o argumento, nossa alma é perecível, como a dos animais irracionais.

4. O segundo argumento objetor.

O segundo argumento propõe que o princípio de uma coisa determina o seu fim. Ora, o ser humano vem do nada, como diz o Livro da Sabedoria, 2, 2-3: “Nascemos do acaso e, depois disso, seremos como se jamais tivéssemos sido! É fumaça a respiração de nossos narizes, e nosso pensamento, uma centelha que salta do bater de nosso coração! Extinta ela, nosso corpo se tornará pó, e o nosso espírito se dissipará como um vapor inconsistente!” Ou seja, as Escrituras mesmas atestam que nossa alma dissipa-se no nada, e, portanto, é perecível, conclui o argumento.

5. O terceiro argumento objetor.

Tudo aquilo que tem subsistência tem uma operação própria. Para que a alma seja subsistente e, portanto, imperecível, seria necessário identificar nela alguma operação completamente independente de qualquer corporeidade. Mas a única operação que seria candidata a isto seria a operação de inteligir. Ocorre que, como se sabe, o inteligir humano depende da obtenção dos dados sensíveis pelos órgãos corporais e a formação das imagens, a partir das informações reunidas na memória, pela imaginação humana. Esta imagem das coisas sensíveis, formada na imaginação, recebe o nome técnico de “phantasmata” (fantasma) e é o que nos permite inteligir. Logo, inteligir é uma atividade inteiramente dependente dos fantasmas, e portanto da atividade corporal que leva à sua formação. É por isto que Aristóteles relaciona a atividade de intelecção ao corpo, de um modo tão direto. Ora, se mesmo a atividade de intelecção é tão dependente do corpo, temos que admitir que, perecendo o corpo, a alma perece também, conclui o argumento, porque não lhe resta nenhuma operação própria.

6. O argumento sed contra.

O argumento sed contra cita a autoridade do Pseudo-Dionísio, que, falando sobre a imperecibilidade da alma, expressamente afirma que “a alma humana recebeu da bondade divina a inteligência e a subsistência da vida incorruptível.”

7. Palavras de encerramento.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.