1. Palavras de retomada.
Estamos quase no final de um artigo longo e complexo, fundamental para compreender a própria estrutura metafísica do ser humano. Para nós, humanos, é quase impossível não pensar em potencialidades como algo material; tanto que nós (como o próprio Tomás e a Escolástica) sempre nos referimos ao intelecto como uma folha em branco (tabula rasa), como se ele fosse um receptáculo material passivo, capaz de inscrever em si o conhecimento e as virtudes. É uma boa imagem, mas deve ser tomada com cuidado: o intelecto não é um receptáculo material, mas espiritual.
Além disso, de todas as realidades espirituais, somos os únicos capazes de aprender. Deus não aprende, porque já sabe tudo. Os anjos não aprendem, porque são criados com todo o conhecimento que precisam, embora sejam capazes de iluminar-se, os mais elevados aos inferiores. Somente os seres humanos apresentam uma alma espiritual com capacidade de aprender. Esta capacidade está, como veremos ao longo desta questão, profundamente relacionada ao corpo, mas não é, el própria, corporal de modo algum.
Vamos ao exame das duas últimas objeções do artigo.
2. O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento parte da ideia das “quatro causas” de Aristóteles. De fato, Aristóteles defendia que os entes têm quatro causas: a causa material, a causa formal, a causa eficiente e a causa final. Assim, contemplemos uma estátua: para que ela exista, é preciso um bloco de mármore (causa material) que receba a concepção do artista (a forma que ele tem na mente, digamos, o busto de Nossa Senhora). O artista usará sua habilidade e suas ferramentas para esculpir (causa eficiente), e a estátua será esculpida para ornamentar uma paróquia dedicada a Nossa Senhora (causa final). A matéria, pois, é aquilo que tira a forma da estátua de uma mera concepção mental do escultor para ser um ente. É por isto que Aristóteles diz que aquilo que não tem matéria não tem causa de existir.
Ora, prossegue o argumento, a alma é criada por Deus, e é algo. Logo, ela existe por si mesma. É, como já vimos, subsistente. Assim, deve haver algum substrato, diverso do corpo, pelo qual ela subsiste, que é sua causa material. Assim, o argumento conclui que a alma tem, em si, matéria.
A resposta de Tomás.
A forma é o que faz a matéria existir, e não o contrário, diz Tomás. A estátua, no exemplo acima, só é estátua porque a forma de Nossa Senhora foi imposta ao que antes era pedra bruta. No mundo das coisas reais, portanto, não há algo como a pura matéria-prima andando por aí: toda matéria, para existir de fato, tem alguma forma em si. É pela forma, portanto, que as coisas são o que são. A forma, neste sentido, é uma causa de existir mais fundamental do que a própria matéria.
Toda forma, como sabemos, existe numa mente, como ideia, ou na matéria, como ente. Assim, seria perfeitamente concebível imaginar que alguma forma pudesse existir, subsistir, sem matéria: ela teria que ser um ente inteligente capaz de pensar em si mesmo por inteiro. Assim, sua forma subsistiria em sua própria mente, e ele existiria de fato, imaterialmente. Isto se dá, em primeiro lugar com Deus: ele é uma forma que pensa em si mesmo. Imaterial, portanto. E isso ocorre também com os anjos: os anjos existem como criaturas, como entes, imaterialmente. Deus lhes dá a existência a partir da essência inteligente que concebe, e esta existência consiste em ser um ente inteligente que pensa em si mesmo.
Assim, a alma é forma do corpo, e portanto existe, em primeiro lugar, na matéria que informa, como vimos acima. Mas como um ser espiritual subsistente, que pode sobreviver à separação do corpo, a alma sobrevive como inteligência que se pensa, e não como forma de alguma matéria (pelo menos enquanto não recebe a ressurreição da matéria). É uma sobrevivência incompleta, de certo modo parcial (pelo menos para aqueles que não estão integrados ao corpo de Cristo), mas não depende de composição com matéria para ocorrer.
3. O quarto argumento objetor.
O que não tem matéria não tem limites, porque não está individualizado. De fato, pensemos num triângulo abstrato: ele não está especificado como este triângulo, digamos, isósceles azul nesta folha de papel aqui. Enquanto ele permanece apenas como uma concepção em alguma mente, ele não tem individualização, é um conceito, pode ser todo e qualquer triângulo. Mas o triângulo abstrato é apenas potencial, ou seja, ele não existe na vida real, é apenas um ente de razão em alguma mente. Se existisse algum ente que fosse puramente ato, ou seja, realmente existente mas não individualizado pela matéria, ele seria algo absoluto: seria Deus. Mas a alma existe, e é algo individual, mesmo quando subsiste após a morte. Então ela deve ter algum tipo de matéria que a individualiza mesmo quando o corpo morre, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Existe aquele que é o absoluto, em quem a essência e a existência coincidem. Este é Deus. Nele, ser é existir. Ele não recebe sua existência desde fora, nem sequer se pode dizer que ele é “causa da própria existência”, como disseram alguns filósofos erradamente. Somente as coisas que se transformam, que se aperfeiçoam, que se movem, têm causas. Deus não tem causas, porque ele é, e
é desde sempre e para sempre. E só ele é assim.
Tudo mais o que existe é criatura, e portanto recebe sua existência desde fora, desde outro. Recebe sua existência como dom do Criador. Aquilo que em Deus é a essência (a existência), na criatura é um dom. Aquilo que em Deus é próprio, na criatura é recebido. Isto é, Deus é o existir. A criatura tem o existir, vale dizer, ela participa da existência.
Assim, toda criatura, mesmo imaterial, não é absoluta, porque é individualizada por Deus. Cada criatura é uma essência determinada, que recebe dele o dom de existir. Por isto, os anjos, que são puros espíritos, são individualizados pela essência: cada anjo é uma espécie que recebe a existência de Deus. Este anjo é esta espécie, aquele é aquela espécie. Eles são individualizados, portanto, pela própria forma, que está limitada pelo ato de existir que recebe de Deus.
Portanto, os espíritos subsistentes não precisam de matéria para individualizar-se, porque são individualizados pela composição entre forma e existência. Eles não existem por si, mas participam da existência por dom de Deus, e assim se individualizam.
Neste caso, portanto, aquela afirmação de Aristóteles não se aplica: ela só é válida para seres materiais.
No caso do ser humano, há algo curioso: o ser humano é material, e portanto a alma se individualiza pela matéria. Mas a alma é subsistente, e pode existir imaterialmente, como alma daquela pessoa individualizada pela matéria, cuja identidade encontra-se incompleta pela morte. No entanto, a subsistência da alma não depende de nenhum tipo de matéria nela. É uma subsistência puramente espiritual, porque ela é uma forma capaz de pensar-se. Neste ponto, ela participa da existência de um modo análogo ao dos anjos, mas com uma característica especial: ela pode compartilhar da mesma species com todos os outros seres humanos, porque ela é um ente material e se individualiza pela matéria, mas pode compartilhar da subsistência espiritual com os anjos, porque é um ente espiritual subsistente que é capaz de pensar em si mesmo.
4. Conclusão.
Artigo difícil, mais uma vez, mas belíssimo, para compreender a alma em si. É como encontrar um puríssimo espelho nesta grande Catedral, e contemplar-se. Sem esquecer que, como diz o documento Gaudium et Spes, “Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente”. Assim, Jesus não simplesmente nos revela Deus: ele também revela o ser humano a si mesmo, e não podemos nos compreender sem compreendê-lo. Espero que vocês tenham se divertido. Quem quiser curtir ajudará a divulgar o texto pela internet. Obrigado!
Deixe um comentário