1. Palavras de retomada.
No texto anterior, vimos a hipótese controvertida de que a alma humana, sendo subsistente e criatural, seria composta de matéria e forma. Examinamos também os quatro argumentos objetores e o argumento sed contra; agora, examinaremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
2. A resposta sintetizadora de São Tomás.
Temos muita dificuldade de imaginar algo estritamente formal, vale dizer, nossa imaginação tem a tendência a imaginar as coisas sempre de modo material. Assim, por exemplo, a intelectualidade da nossa alma, sendo independente do corpo, é algo difícil de visualizar pela nossa imaginação.
De fato, nosso processo natural de aprendizagem não pode dar-se sem o corpo. Mas a capacidade que a alma tem de aprender, de receber as formas universais e abstratas das coisas com as quais nos deparamos, não é uma capacidade que se relacione com seu ato como a matéria se relaciona com a forma. Por exemplo, nossos discursos pressupõem a existência das palavras, que são sua matéria própria. O armazenamento de dados no computador pressupõe espaço nos discos ou nos chips de memória. Este espaço físico estaria para a informação armazenada como a matéria está para a forma. Mas o aprendizado intelectual não pressupõe a existência de algo em nossa alma que seja como que a matéria que armazenará as formas assimiladas. A alma aprende os universais de modo imaterial. Ou seja, não há, nas potências da alma, algo análogo à matéria que receberá a forma. Vimos um debate como este quando estudamos os anjos: alguns achavam que seria necessário algum “substrato espiritual” para que os anjos existissem, que servisse como suporte para a sua existência, de modo análogo àquele pelo qual a matéria-prima recebe a forma dos seres materiais para que estes existam. Mas tudo isto decorre de um limite de nossa imaginação: os seres espirituais, como a nossa alma, existem espiritualmente, aprendem espiritualmente, uma vez que a matéria não é o único receptáculo para as formas: também as inteligências podem receber as formas, imaterialmente. No caso da alma humana, a confusão torna-se ainda maior, porque tendemos a confundir sua subsistência com algum tipo de substancialidade. A alma humana é forma substancial do ser humano, mas não é uma substância por direito próprio: a substância é o ser humano. Por isto, a alma separada do corpo não pode ter todas as operações que tem quando integra o corpo.
As provas de Tomás.
A alma, em si mesma, ou seja, aquele elemento do ser humano que subsiste mesmo independentemente da existência do seu próprio corpo, não possui matéria. No entanto, ela é sempre a forma de um corpo material, ou seja, ela não opera senão com e pelo corpo. É certo que ela subsiste sem o corpo, mas não como um ente em si mesmo, completo.
E Tomás usa dois argumentos para comprovar sua afirmação. O primeiro é o argumento lógico, que usa a definição de alma como forma do corpo para excluir que ela pudesse ser composta de matéria e forma. O segundo é o argumento ontológico, que usa a própria noção de inteligência para determinar que a alma deve ser puramente formal para ser inteligente.
O primeiro argumento: o argumento lógico.
O primeiro argumento recorre à própria noção de alma: alma é a forma de um corpo vivo. Assim, para ser alma, ela tem que ser forma! A própria noção de “alma” exclui a possibilidade de que haja, nela, qualquer tipo de materialidade. Se é alma, é forma. E forma de um corpo.
Neste caso, a alma pode ser totalmente a forma de um corpo, ou pode ser parcialmente a forma de um corpo.
Se ela é totalmente a forma de um corpo, ela não pode ter, em si, nada de material. A forma é a atualidade do corpo. A matéria é sempre potencialidade. Para ser totalmente a forma de um corpo, ela tem que ser totalmente atual, ou seja, tem que ser puramente forma, sem nada de matéria.
Mas se ela não é totalmente a forma de um corpo, por ser parte forma, parte matéria, então à parte dela que é forma chamaríamos de alma propriamente dita, E à parte da alma que é matéria? Ora, se esta parte pertence à alma, ela pertence como corpo, porque ser alma é ser forma de corpo. Então esta parte simplesmente não seria alma, mas o próprio corpo que ela anima em primeiro lugar. E só poderíamos chamar propriamente “alma” aquilo que, ali, é plenamente atual. Não há como conceber que haja matéria na alma que não seja, por isto mesmo, corpo animado por ela! Vale dizer, a alma é, necessariamente, pura e plenamente forma! E isto por motivos estritamente lógicos!
O segundo argumento: a alma como intelecto.
A natureza da alma, que faz dela a sede da inteligência humana, determina que ela seja completamente imaterial. E isto tem a ver com a maneira pela qual aprendemos.
Quando conhecemos alguma coisa, conhecemos sua forma substancial, mas não a forma individualizada, tal como está neste ou naquele exemplar. Conhecemos alguma coisa quando temos em nós sua forma universal, abstraída dos entes concretos, materiais, com que nos deparamos.
Ora, todas as formas estão numa inteligência ou na matéria. Não há uma terceira hipótese. Basta pensar na geometria: se concebo um triângulo, ou o concebo abstratamente como aquela figura de três lados cuja soma dos ângulos internos é sempre 180 graus (e este triângulo só existe nas inteligências, como abstração), ou desenho um triângulo concreto num papel, caso em que dimensões concretas, cor, linhas desta ou daquela espessura, e assim por diante. Ora, o triângulo que está na minha mente é um triângulo abstrato, não se limita a ter esta ou aquela dimensão, este ou aquele comprimento de linhas, etc. Mas qualquer triângulo que esteja em algum substrato material sempre será concreto. Eu conheço, na minha mente, o triângulo universal, em sua natureza absoluta de triângulo. Os triângulos concretos com que me deparo, porém, são sempre particulares, determinados, individuais.
Portanto, minha mente contém o triângulo de um modo diferente daquele pelo qual os receptáculos materiais o contêm. Ela contém apenas a forma do triângulo, em sua razão de forma e sem nenhuma matéria. Ora, se sou capaz de receber o triângulo imaterialmente na minha inteligência, isto comprova que minha inteligência é imaterial em si mesma. Ora, a minha inteligência é a minha alma; portanto, a minha alma é imaterial, plenamente imaterial.
3. Palavras de encerramento.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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