1. Palavras de retomada.
Como podemos perceber, o debate deste artigo é crucial: ele nos faz tomar posição quanto às tendências “espiritualistas” de todos os tempos que, frente à complexidade de um ser material e espiritual, cuja espiritualidade, ademais de ser um elemento componente, é também subsistente sem ser substancial, tendem a reconhecer apenas a dimensão espiritual do ser humano, defendendo que ele é só a alma. O menosprezo do corpo leva a consequências desordenadas, desde uma religiosidade desencarnada ao culto do sensualismo inconsequente: com aquilo que não reconhecemos como propriamente nosso, tendemos a ter menos cuidado ou a simplesmente usufruir e descartar. Mas voltemos a Tomás. Já acompanhamos a resposta sintetizadora, agora revisitaremos, com ele, os argumentos objetores iniciais para respondê-los a partir dos critérios que já conhecemos.

2. O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que São Paulo faz um contraste entre o que ele chama de “homem interior“, que seria a alma espiritual, e representaria a verdadeira essência humana,  e o “homem exterior“, que seria a corporeidade, o ser humano encarnado, que decai e passa. São Paulo diz: ” É por isso que não desfale­cemos. Ainda que exteriormente se desconjunte nosso homem exterior, nosso interior renova-se de dia para dia.” (2 Cor 4, 16). Desta citação bíblica o argumento conclui que o ser humano é propriamente a sua alma.

A resposta de São Tomás.
Por uma figura de linguagem, muitas vezes nós denominamos algo ou alguém por aquilo que nele se sobressai. Quando o Presidente de um país declara guerra, por exemplo, dizemos que “aquele país declarou guerra“. Assim, pela mesma figura de linguagem, podemos chamar o ser humano por aquela parte dele que o conduz de modo principal. São Paulo chama de “homem interior” aquela parte de nós que é inteligente, prudente e capaz de relacionar-se com Deus, e “homem exterior” aquela parte de nós que se deixa levar pelos estímulos externos, pelas paixões e sensações, ou seja, tudo o que há de mundano e superficial em nós. Não podemos tirar, portanto, desta passagem bíblica, nenhuma lição sobre a própria estrutura metafísica do ser humano, senão sobre o seu caminho de santificação. Temos uma dimensão superficial, mundana e frívola, que devemos domar, e uma dimensão profunda, inteligente e espiritual, que devemos alimentar.

3. O segundo argumento objetor.
Cada alma humana, diz o argumento, é algo concreto, subsistente e imperecível. Não se trata, aqui, da alma humana como noção abstrata, universal, que subsiste como ente de razão nas mentes (do mesmo modo que a espécie dos “tiranossauros rex” sobrevive nas mentes dos cientistas, embora não exista mais nenhum exemplar de tiranossauro por aí). Falamos de cada alma concreta, a alma, digamos, de Santo Agostinho ou de São José. Ora, como aquilo que sobrevive em sua individualidade, com identidade e com inteligência, a alma humana atende aos requisitos para ser chamada de “pessoa” segundo a definição clássica de Boécio (“pessoa” é a substância individual de natureza racional), diz o argumento. Logo, se a alma humana é pessoa, então ela é a própria pessoa humana, e o corpo não integra substancialmente a nossa pessoa, mas apenas acidentalmente, conclui o argumento.

A resposta de São Tomás.
Não é qualquer individualidade humana subsistente que se pode chamar de “pessoa”, mas apenas aquela substância individual e concreta que contém em si os elementos próprios de um espécime humano completo. Assim, digamos, um coração humano retirado de alguém que está em morte cerebral para ser transplantado é certamente humano, é subsistente e é individual, mas não é pessoa, porque não apresenta, nem potencialmente, todos os elementos que o caracterizariam como um espécime humano completo. Por isto, a alma separada, ainda que subsistente, não é pessoa, porque é apenas uma parte de um espécime humano, e não um exemplar completo da espécie. É a alma de uma pessoa, mas não é uma pessoa em sentido próprio, porque, desprovida do corpo, não pode realizar as operações que são próprias de uma pessoa. A pessoa humana é um ente de corpo e alma.

4. Palavras de conclusão.
Sentiríamos tentados a fazer, aqui, uma grande digressão sobre a alma separada dos santos que já morreram, mas ainda não ressuscitaram. E da importância da ideia de que a Igreja é o corpo místico de Cristo, e nos dá a Eucaristia, para que comamos o próprio Cristo em seu corpo sacramental, e como isso se relaciona ao chamado “estado intermediário”, em que os santos, embora ainda não corporalmente ressuscitados, podem subsistir com alegria.
O ser humano é corpo e alma: a morte separa os dois elementos que nos compõem. Mas, como a Igreja é corpo, os santos estão integrados ao corpo de  Cristo, que é a Igreja. Não ficam, pois, sem corpo, mesmo na morte, porque continuam na Igreja (corpo de Cristo, cf. Col 1, 18), quer na Igreja triunfante, quer na Igreja padecente. Assim, estarão no céu no gozo pleno, aguardando a ressurreição final, quando receberão o corpo espiritual (já não animal).
É por isso que ser filho da Igreja e participar da Eucaristia não é apenas importante: é o que garante que a morte, mesmo naquela situação de espera do juízo final, não nos privará de corpo!
Tudo isto é mistério. Mas estamos nos adiantando muito a Tomás. O destino escatológico do ser humano só será debatido, aqui na Suma, numa parte muito posterior.