1. Retomando.
Vimos, então, que alguns pensadores e filosofias tentam reduzir o ser humano a sua alma, como se o corpo não fizesse parte de sua substância. Há inúmeras consequências equivocadas para esta posição, inclusive os muitos debates atuais sobre o significado da sexualidade para a identidade humana. Não é nosso objetivo entrar nesta polêmica, mas é possível ver quão graves são as consequências de dissociar o corpo da identidade do ser humano como tal,e como isso é desorientador para indivíduos e culturas. Há, também, uma relativização da morte, que não mais é vista como uma perda irremediável, uma quebra da própria substancialidade do ser humano. Mas estes assuntos não serão debatidos em profundidade aqui. São apenas mencionados para que se possa aquilatar a seriedade do debate.
No texto anterior, vimos a hipótese controvertida de que somos substancialmente a nossa alma, e os argumentos objetores que tentam comprovar esta hipótese. O texto foi encerrado com o argumento sed contra de Agostinho, pela unidade ontológica de corpo e alma na substancialidade humana. Passaremos a examinar agora a resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de São Tomás.
Há quem afirme, diz Tomás, que o ser humano é sua alma, isto é, que ele é um ser essencialmente imaterial, que, eventualmente, pode até adotar um corpo, ou até mudar de corpo, reencarnando, ou subsistindo sem corpo, sem que isto influa em sua identidade substancial de ser completamente espiritual.
Tomás diz que há basicamente dois grupos diferentes de pensadores que defendem esta ideia, de que o ser humano é simplesmente sua alma, em dois sentidos diferentes.
O primeiro grupo.
1) O primeiro grupo defende que a definição abstrata, universal, da espécie humana é a de ser espiritual, ou seja, uma vez que uma definição é formal, ela deve incluir apenas a forma; logo, a definição de ser humano seria a de alma espiritual. Para estes pensadores, a matéria é apenas um princípio de individuação. Assim, o ser humano, universalmente, é estritamente a alma. Mas Sócrates é um indivíduo porque tinha aquele corpo determinado, eu sou outro indivíduo porque o meu corpo não se confunde com o corpo de Lincoln ou de Charles Chaplin. Cada um de nós é, portanto, a própria alma humana individualizada pela porção de matéria assinalada para este corpo, diverso da matéria assinalada para aquele outro e assim por diante.
Mas há, aqui, um erro de lógica, diz Tomás. Não se pode definir a espécie humana como “alma espiritual“, imaginando que a matéria não faz parte de sua definição, mas seria apenas um princípio de individuação.
De fato, a matéria, na lógica, tem dois sentidos: um sentido lato, abstrato, em que ela é tomada como causa material. Quando eu digo, por exemplo, que o sal de cozinha é NaCl, ou cloreto de sódio, eu não estou dizendo que o sal de cozinha é uma fórmula química. Na própria definição do sal de cozinha está incluído o fato de que ele é um material mineral com poder de dar sabor à comida, e portanto é uma substância material cuja composição química é NaCl. A definição de qualquer ser material deve incluir, em sua descrição, toda a estrutura desse ser em sua forma e matéria. A matéria, na definição, entra como uma noção abstrata: é uma causa, a causa material. Não é esta matéria aqui, este sal que está em meu saleiro, que está sendo definido, mas o próprio sal de cozinha, que por definição é material. É preciso, portanto, na definição das coisas materiais, guardar a diferença entre a matéria assinalada, ou seja, a matéria que efetivamente constitui o meu corpo humano aqui e agora, e a menção à matéria indeterminada ou comum, como componente da definição de toda uma classe de seres materiais. Todos os seres humanos são materiais, e o fato de que a matéria assinalada nos individualiza não deve ser confundido com a necessidade de descrever a estrutura humana como material.
Por isto, o ser humano, já em sua definição universal, deve ser descrito como aquele ser material que possui, como forma, uma alma racional. Ou seja, a matéria não é apenas um princípio de individuação, como matéria assinalada, porção concreta de matéria que me compõe. Ela é também causa material da existência das coisas corporais, como matéria comum. Portanto, a alma não esgota a definição universal de ser humano.
O segundo grupo.
2) o segundo grupo é ainda mais radical em seu espiritualismo. Se o primeiro grupo admite que a matéria é a condição para que haja seres humanos individuais e concretos pelo mundo, reconhecendo a função da matéria assinalada como princípio de individuação, esta segunda posição entende que todas as funções humanas, tanto aquelas da sensibilidade quanto as da inteligência, seriam estritamente espirituais e independentes do corpo. Era, segundo Tomás, a posição de Platão. Nós veríamos, ouviríamos, sentiríamos sabores, aromas e texturas apenas pela alma. Assim, todas as nossas atividades seriam atividades da alma, e o corpo seria algo que nós usamos ou ocupamos, como um casulo, e não algo que nós somos. Mas no artigo anterior, em que debatemos a alma dos animais irracionais, já havia ficado muito claro que a atividade da sensibilidade é indissociável do corpo, e portanto esta posição está equivocada. Sem o corpo, a alma subsistente, mesmo sobrevivendo, não será capaz de realizar as operações dos sentidos. Esta segunda posição é, portanto, também inconsistente.
Assim, o ser humano é uma substância essencialmente constituído de uma dimensão ou elemento de materialidade e de uma dimensão formal de espiritualidade. Ser humano é ser corpo e alma.
3. Encerrando.
No próximo texto utilizaremos estes princípios para revisitar os argumentos objetores iniciais.
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